Foto: Ana Vilacy Galucio, 2007.

Puruborá

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    RO243 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Puruborá

A aldeia Aperoi

A aldeia Aperoi, única aldeia do povo Puruborá nos dias correntes, localiza-se às margens da BR-429, entre os municípios rondonienses de Seringueiras e São Francisco do Guaporé. Trata-se do que parece ser um típico bairro rural, originado em torno do sítio da falecida Dona Emília, espécie de matriarca deste povo indígena, cujas terras foram compradas depois da expulsão do grupo das cabeceiras do rio Manuel Correia com a demarcação dos limites da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em 1994 (o sítio possui cerca de 59 há, e é garantido legalmente por título do INCRA). Com efeito, a antiga casa ocupada por Dona Emília segue funcionando como uma espécie de porta de entrada para a aldeia, que se constitui em um conjunto de casas – em sua maioria construídas de madeira – dispersas por uma área contornada, a oeste e ao norte, pelo rio Manuel Correia, bem próxima da confluência deste com o rio Caio Espíndola, que forma o rio São Francisco (o encontro dos dois rios se dá bem debaixo de uma das pontes da BR-429). Consta que a aldeia propriamente dita foi fundada em 2004, durante a quarta assembleia do povo Puruborá (13 a 15 de julho daquele ano). No entanto, este território vem sendo percorrido e explorado pelos Puruborá desde tempos imemoriais, e habitado continuamente pela família de Dona Emília (além de outros parentes) desde 1994, quando adquiriu, por compra, as terras na região.

A entrada do sítio é margeada por frondosas mangueiras, que conduzem à antiga casa de Dona Emília, hoje ocupada por um jovem casal Puruborá e, mais ao fundo, ao rico quintal e à casa da cacique Hozana Puruborá, principal liderança Puruborá atualmente. O complexo que envolve a casa de Hozana, a antiga residência de Dona Emília e o galpão onde acontecem as assembleias, encontros e reuniões (onde antigamente também funcionou a escola indígena), parece operar, enfim, como uma espécie de centro simbólico da vida social, ritual e política dos Puruborá, bem como cenário privilegiado para o desenvolvimento de suas lutas em torno de seu reconhecimento étnico e da identificação e demarcação de suas terras de ocupação tradicional. A partir deste centro organizam-se as demais residências familiares, todas localizadas a uma certa distância umas das outras, como sítios: desta forma, cada casa abriga uma família, e se faz cercar tanto por roçados (geralmente nos fundos) como por quintais, áreas em que uma enorme variedade de plantas de espécies comestíveis, medicinais, úteis para artesanato ou simplesmente ornamentais (o que é muito apreciado pelas mulheres Puruborá) são cultivadas com muito cuidado e atenção.

Os terreiros são os espaços de maior destaque na aldeia, em consequência da rarefação das matas circunvizinhas e do cultivo de poucos roçados. Assim, as mulheres da aldeia dedicam a eles um cuidado específico. O espaço do terreiro é uma espécie de repositório para a grande variedade de plantas existentes; as plantas circulam por vários lugares, mas é no terreiro que encontram abrigo e se estabelecem, e é também lá que mudas e sementes são trocadas. As mulheres são as responsáveis pelo cuidado e cultivo das plantas do terreiro, e estes são varridos e carpidos regularmente. Às vezes os homens ajudam as mulheres na limpeza do terreiro, mas a tarefa é predominantemente feminina.

Os terreiros da aldeia estão quase sempre floridos, e a grande diversidade de plantas reflete o desejo de sempre incrementá-los com novas espécies. As plantas frutíferas são indispensáveis na alimentação Puruborá, tanto que os terreiros são constituídos por várias fruteiras. De acordo com os Puruborá, havia na Cigana uma imensa diversidade de plantas e, no que diz respeito a essa variedade, a aldeia Aperoi se espelha naquela região. “Tudo que tem aqui tinha na Cigana”, dizem os Puruborá. As plantas são parte de uma memória e reconstituição do espaço do passado. O sonho da demarcação das terras Puruborá está vinculado ao cultivo de mais e mais plantas.

Todos os Puruborá residentes na aldeia Aperoi reconhecem laços próximos de parentesco entre si, ainda que existam vários indivíduos casados com não índios vivendo na região. Há uma intensa sociabilidade comunitária, feita de visitas frequentes, refeições festivas, intercâmbio de alimentos (especialmente de frutas) e de plantas e, em determinados momentos, de atividades políticas, com a realização das assembleias anuais do povo Puruborá, que, desde 2001, vem se reunindo anualmente na aldeia.

A Escola Indígena Estadual de Ensino Fundamental Ywará Puruborá funcionou, desde sua fundação, em 2005, numa construção de madeira coberta de palha, em frente à antiga residência de Dona Emília. Desde 2014, contudo, um novo prédio – feito em madeira e composto de sala de aula, cozinha, dispensa e banheiro – mais equipado, foi erguido nas proximidades da antiga escola, local em que as aulas acontecem hoje, sob a responsabilidade de três professores indígenas.