De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

Tupari

Autodenominação Onde estão Quantos são Família linguística
RO
607 (Siasi/Sesai, 2014)
Tupari

Em seus contatos iniciais com os não-indígenas, nas primeiras décadas do século XX, os Tupari os denominaram Tarüpa, "maus-espíritos", por serem portadores de doenças e outras adversidades. Os Tupari compartilharam com outros povos de Rondônia um histórico do contato marcado primeiramente pela exploração e expropriação por seringalistas, e a partir da década de 1980 também por madeireiros e garimpeiros. Nos últimos anos os Tupari vêm procurando reverter esse quadro e lutam, com outros povos da região, contra a instalação de barragens no rio Branco.

Localização e população

Armação de uma antiga maloca tupari. Foto: Franz Caspar, 1948
Armação de uma antiga maloca tupari. Foto: Franz Caspar, 1948

Segundo dados da ONG Kanindé, havia, em 2005, 329 Tupari na Terra Indígena Rio Branco, situada no município de Costa Marques em Rondônia. Lá moram também os Makurap, Arikapu, Kanoê, Aikanã, Aruá e Djeoromitxí. O quadro abaixo mostra a distribuição demográfica dos Tupari nas aldeias da TI Rio Branco em 2005:

 
Aldeia Homens Mulheres Total
Serrinha 29 26 55
Trindade 23 14 37
Nazaré 11 16 27 53
Colorado 29 21 50
Encrenca 14 19 33
Cajuí 09 12 21 33
Estaleiro 0 6 6
Morro Pelado 20 25 45
Manduca 0 2 2
Castilho 0 1 1
Palhal 21 15 36 51
Bom Jesus 6 4 10
São Luis 2 4 6
Total 164 165 382

De acordo com a Funai, em 2005, havia 49 índios Tupari, distribuídos em sete famílias, na Terra Indígena Rio Guaporé, onde também vivem os grupos Wajuru, Aikanã, Aruá, Kanoê, Wari, Makurap, Mequém, Arikapu e Djeoromitxí. Essa TI está localizada no município de Guarajá Mirim em Rondônia.

Histórico do contato

Há estimativas de que houvesse cerca de 3 mil Tupari no início do século XX. O etnólogo Franz Caspar supôs que tenham visto o homem branco pela primeira vez na década de 1920. Desde então, passaram a manter um contato intermitente com seringueiros e outros não-indígenas. O primeiro etnólogo a visitá-los foi Snethlage, em 1934, quando encontrou apenas 250 indivíduos. Caspar, em 1948, registrou 200 e, em seu retorno em 1955 (meses após uma epidemia de sarampo), apenas 66.

Em 1948, quando Caspar passou vários meses entre os Tupari, registrou o seguinte relato de Waitó, primeiro pajé e líder político da aldeia:

No meu tempo de criança, os Tupari não sabiam que ao oeste viviam homens brancos e pretos. Só nós, os Tupari, vivíamos nesta região, e, à nossa volta, as tribos vizinhas. Éramos todos bons amigos. Nossos pais só travaram lutas ferozes com os selvagens Hamno. Nossos melhores amigos eram os Makurap, que chamamos Tamo na nossa língua. Íamos sempre visitá-los, embora o caminho fosse muito difícil, pois nas grandes savanas o sol queimava nossas cabeças o dia inteiro. (...). Um dia, soubemos pelos nossos amigos terem chegado homens estranhos pelo rio. Uns tinham a pele branca, outros preta. Não andavam nus como nós, mas traziam calças e camisas. Navegavam pelo rio em barcos grandes que lançavam uma fumaça monstruosa. Não caçavam com arco e flecha, mas atiravam com um canudo que fazia um estrondo forte, lançando carocinhos duros no corpo do bicho. Esses homens falavam uma língua que ninguém compreendia.

Logo chegaram até as malocas dos Makurap. Não eram maus, pelo contrário, deram aos Makurap muitos colares, espelhos, facas e machados. Depois construíram a sua choça, à beira do rio, e foram procurar as árvores chamadas por nós de herub com cujo suco fazemos bolas para jogar. Os homens brancos, no entanto, não fizeram bolas de brinquedo com o suco do herub, mas grandes bolões que levavam rio abaixo nos seus barcos. Derrubaram também muitas árvores e plantaram uma porção de milho, banana, mandioca, também arroz e muitas outras coisas. Empregavam os Makurap e davam-lhes mais facas e machados, também calças e camisas, redes e mosquiteiros. Para isso, pediam aos Makurap para os ajudarem a derrubar árvores e abrirem picadas através das matas.

Vimos os machados e facas que os Makurap receberam dos estrangeiros. Esses eram muito mais duros do que os nossos de pedra, com os quais trabalhávamos e não se quebravam com o uso. As facas também eram muito melhores do que as nossas de bambu e talo de cana, com que cortávamos a carne e as penas das setas. Queríamos também ter tais machados e facas, mas tínhamos medo dos estranhos. Os velhos diziam não serem estes gente, mas Tarüpa, maus espíritos, portadores da doença que mata as pessoas. Assim, chamamos os estrangeiros de Tarüpa e até agora os chamamos assim. Sabemos não serem maus espíritos, embora tenham trazido a doença entre nós.

Quando pela primeira vez trouxemos à casa a notícia dos estrangeiros, as mulheres choraram e disseram: os Tarüpa chegarão até aqui para nos matar e aos nossos filhos também. Fomos logo procurar de novo os nossos amigos Makurap. Mostraram-nos mais presentes dados pelos estrangeiros. Pedimos uns machados e eles nos deram alguns já usados que não precisavam mais, porque sempre ganhavam dos brancos outras ferramentas novas e boas.

No entanto, notamos também que muitos Makurap tossiam e morriam. A tosse era trazida pelos barcos a motor das aldeias dos estrangeiros. Todos os Makurap tossiam e muitos e muitos morriam. Os Tarüpa também foram visitar os Jabuti, Wayoró, Aruá e Arikapu e os levaram para trabalhar nas suas plantações e florestas de borracha. Também eles receberam facas, camisas e calças. Mas também começaram a tossir, sentir dores de cabeça e febre. A maior parte morreu. Poucos sobraram.

Por fim, os estrangeiros vieram até aqui. Chegaram dois homens brancos às nossas malocas. Chamavam-se Cravo e Awitchi. Foram trazidos por Bipey, cacique dos Makurap. Muitos Arikapu carregavam as bagagens. Ainda não havíamos visto um Tarüpa e nos assustamos muito. Agarramos nossos arcos e flechas e as mulheres fugiram com as crianças para a mata, ou se esconderam na choça, gritando e chorando.

Porém, Bipey nos disse que os brancos desejavam ser nossos amigos e haviam-nos trazido muitos presentes. Os Tarüpa distribuíram entre nós sal, açúcar e muitas outras coisas e Bipey nos disse que devíamos ir trabalhar para eles no barracão. Assim, ganharíamos machados e terçados. Não pude ir com eles, porque um jacarezinho me mordera no braço - veja aqui, ainda tenho a cicatriz. Porém, muitos foram com os Tarüpa para derrubar o mato. Estavam trabalhando já há alguns dias, quando uma árvore caiu sobre um branco moço e o matou. Os Tupari ficaram com medo e fugiram. Muitos trouxeram machados para casa. Foram os primeiros machados bons que tivemos.

Quando Cravo esteve entre nós, tossia muito e punha uma mucosidade pelo nariz. Nossos homens, mulheres e crianças começaram também a tossir, a mucosidade lhes corria do nariz, sentiam dor de cabeça e no peito. Muitos Tupari morreram, também muitos capitães e pajés. Assim, ficamos com medo e não queríamos mais ir trabalhar com os brancos. Mas desejávamos possuir mais machados e facas.

Quando já me tinha casado e minha filha Maéroka já estava no mundo, apareceu aqui um outro Tarüpa, foi o Toto Alemão [O Dr. Alemão era o Dr. E. Heinrich Snethlage]. Veio com muitos homens Jabuti, Wayoró e Arikapu e com mais três Tarüpa. Um deles era negro e se chamava Nicolau. O Toto Alemão trouxe muitos presentes: facas, machados, pentes, colares, roupas e outras coisas mais. Era um homem muito bom, muito grande, maior do que você e do que todos daqui. O negro Nicolau ria e dançava muito com nossas mulheres e nos deu contas de vidro. Porém, o Toto Alemão estava doente. Tossia muito. Nossas mulheres recomeçaram a tossir e muitas morreram. Quando ele partiu, nós o acompanhamos até a cabana dos brancos. Trabalhamos lá e recebemos mais machados, facas e também calças e camisas.

Mais tarde voltamos, outra vez, aos brancos. Regino sempre nos dava de tudo que precisávamos. Ele é muito bom. Rivoredo também é bom. Quando meu irmão pegou a tosse em São Luís e morreu, ele me deu um terçado.

Uma das vezes em que fomos trabalhar com os brancos em São Luís, levamos conosco algumas mulheres. Lá não havia ninguém para nos fazer a chicha. Duas delas morreram de tosse. Agora as mulheres não querem mais ir para os Tarüpa. Uma vez, o Rivoredo levou-nos no barco a motor, de São Luís, até o rio grande. Lá vimos um barco a vapor cheio de Tarüpa que nos olharam muito e queriam comprar nossos arcos e flechas. Construímos um grande barracão e voltamos para São Luís. Muitos sentiram dor de cabeça por causa do motor. O motor nos deixa doentes e traz a tosse.

Já fui cinco vezes aos Tarüpa para ganhar um machado ou uma faca. Uma vez, o Regino veio até aqui e nos levou para trabalhar. O negro Pedro também veio com o Severino, quando já morávamos aqui mesmo. Ficaram três dias aqui. Não eram bons. Levaram-nos para trabalhar em São Luís, dizendo que nos dariam machados, facas, camisas e calças. Mas foi tudo mentira. Trabalhamos, mas não recebemos machados, nem facas. Chegaram muitos outros Tarüpa para colherem borracha.

Na última estação da chuva, vieram Tiboro, sua mulher Maria e Rosa e Ricardo (o jornalista de Buenos Aires e seus companheiros). Cantavam, dançavam e bebiam também muita chicha e não tossiam. Estava bom. Tiboro e Maria levaram muitos arcos, flechas, redes e muita outra coisa e não nos deram machados e facões. Isto não foi bom.

Agora veio você. Você também não tosse. Está bom. Você trabalha e caça muitos macacos e não é mau. Você vai ficar aqui e nunca mais irá embora. Somos agora poucos Tupari. Temos só duas choças, a minha e a de Kuarumé. Porém trabalhamos muito e temos muito milho, amendoim, inhame, cará para nós, nossas mulheres e filhos. E bebemos muita chicha e cantamos e dançamos. Isto é bom. Aqui, onde agora moramos, não morre mais muita gente. Os Tarüpa dizem que devemos ir morar em São Luís. Mas isso não é bom para nós. Queremos ficar aqui. É bom morar nestas choças grandes. Lá com os Tarüpa existe muita doença e os seringueiros perseguem todas as mulheres. A vida lá não é boa. Queremos ir a São Luís só quando quisermos machados e facas. Então, trabalhamos para os Tarüpa e voltamos, outra vez, para as nossas malocas Assim está bom" (1948: 146-9).

Como aponta o testemunho, nessa época a presença dos seringueiros, patrões da borracha e outros brancos já era incisiva, trazendo doenças à aldeia e relações de troca assimétricas. Nota-se também o papel dos Makurap como primeiros e principais interlocutores dos brancos. Caspar comenta que o Makurap tornara-se uma espécie de língua franca na região, dominada pela maioria dos outros grupos indígenas. O etnólogo ressalta também que o contato com os Tupari com os não-indígenas ainda era bastante intermitente. Faziam visitas aos barracões, oferecendo trabalho em troca de machados, terçados, roupa, sal e tabaco, ficando depois de dois a três anos sem aparecer. São Luís, o seringal mais próximo à aldeia Tupari, ficava a oito ou nove dias de caminhada.

Os Tupari ouvem rádio pela primeira vez. Foto: Franz Caspar, 1948
Os Tupari ouvem rádio pela primeira vez. Foto: Franz Caspar, 1948

É provável que o primeiro seringal instalado na região tenha sido no rio Branco, próximo ao Guaporé, em 1910. Em 1912 um alemão abriu um outro seringal no rio Colorado. Em 1927 a empresa norte-americana Guaporé Rubber Company abriu outro seringal em Paulo Saldanha. Por volta de 1934, instalou-se, com a colaboração de ex-funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), um outro seringal no São Luís (que em 1980 se converteu em sede do Posto Indígena Rio Branco, com a chegada da Funai na área) (Leonel, 1984).

Alguns seringueiros da região comentaram com Caspar o desaparecimento de grupos por doenças transmitidas pelos brancos – “não suportam o catarro” – ou por guerras (e canibalismo) que envolviam os Tupari. Mas havia entre esses grupos também um intenso intercâmbio cultural, que envolvia casamentos e festas de chicha. Antes de chegar à aldeia Tupari, por exemplo, Caspar participou de uma festa a convite de um Aruá (identificado então como último sobrevivente de sua aldeia), da qual participaram índios Jabuti, Makurap e Tupari.

Em sua estadia, o principal grupo inimigo dos Tupari eram os Hamno, referidos como ferozes caçadores de cabeças. Mas o etnólogo não viu nenhum membro desse grupo e aquela geração de Tupari, ao que parece, tampouco os tinha visto efetivamente (:148).

Os Tupari e os órgãos indigenistas oficiais

Primeiro encontro de Franz Caspar com os Tupari. Foto: Franz Caspar, 1948
Primeiro encontro de Franz Caspar com os Tupari. Foto: Franz Caspar, 1948

Quando Franz Caspar voltou ao Brasil e visitou o grupo, em 1955, encontrou-os reduzidos a apenas 66 pessoas por conta de uma epidemia de sarampo que assolara a aldeia no ano anterior. O órgão indigenista oficial (Serviço de Proteção aos Índios – SPI) os atraíra para fora de suas malocas para fazê-los trabalhar no seringal São Luís, onde contraíram a doença. O etnólogo estima que mais de 400 índios de diversos grupos tenham falecido na sede do seringal.

O SPI já não se encontrava presente na região desde o início da década de 1930, quando o órgão transferiu cerca de metade do contingente desses grupos para uma colônia de trabalho mais perto de Guajará Mirim, e mais tarde para o Posto Indígena Ricardo Franco (Caspar, 1955: 152).

Foi apenas em 1980 que a Funai (órgão indigenista que substituiu o SPI a partir de 1967) instalou um Posto Indígena na região do rio Branco e que os direitos territoriais dos Tupari e dos outros povos vizinhos começaram a ser reconhecidos pelo Estado brasileiro. Nessa época, os índios sobreviventes das grandes epidemias já eram mais resistentes às doenças trazidas pelos migrantes. Mas o indigenista Mauro Leonel, que visitou a área em 1984, apontou dezenas de casos de gripe com complicações e turberculose. A malária, quase inexistente, tornou-se endêmica a partir de 1983. Em fevereiro de 1984, havia mais de 15 casos apenas na aldeia de São Luís, sem que houvesse assistência médica no local (o atendente de enfermagem estava de licença e não havia sido substituído).

As relações com os seringalistas eram marcadas pelo sistema de aviamento, em que os índios eram convertidos em eternos devedores, precisando vender sua força de trabalho em troca de mercadorias a preços exorbitantes nos chamados “barracões”. No início da década de 1980, a Funai publicou relatório de identificação do que viria a ser a Terra Indígena Rio Branco, em que apontava a existência de 86 indígenas semi-escravizados por um seringalista. Mais ao sul, em área que posteriormente foi convertida na Reserva Biológica do Guaporé, mais 68 índios trabalhavam, também em regime de semi-escravidão, para um fazendeiro. Apenas 33 índios, crianças, doentes e idosos, não serviram a um destes dois senhores no sistema de aviamento.

Em 1983, a Terra Indígena Rio Branco foi finalmente demarcada. Contudo, seu perímetro – então de 240 mil ha – deixou de fora sete aldeias. Ao norte, quatro aldeias próximas à antiga sede de seringais, habitadas em sua maioria por Makurap, ficaram fora dos marcos para a doação dessas terras pelo Incra a 10 mil famílias, no projeto de colonização do rio Branco. Outras três aldeias ficaram fora da área demarcada, cujos habitantes, em sua maioria Tupari, viviam em área próxima à Reserva Biológica do Guaporé.

Além da inadequação na extensão demarcada, um seringalista invasor continuou a explorar o trabalho dos indígenas em suas própria terra. Como aponta relatório de Mauro Leonel em 1984, as condições de atendimento do Posto Indígena Rio Branco eram péssimas, e os índios tinham que arcar com viagens de doentes, transporte de mercadorias e deslocamentos de funcionários do PI, que eram financiados pela cantina da comunidade. Esta foi criada em 1980, com apoio da Funai, para fazer frente ao barracão do seringalista invasor, até então único provedor de mercadorias dos grupos da região.

Para o funcionamento da cantina, 30% da venda de borracha e 100% da castanha pelos índios eram destinados à sua manutenção, que era feita pelo administrador do PI. Entretanto, devido à ausência de infra-estrutura do posto, o dono do barracão podia levar os produtos até as colocações onde trabalhavam as famílias. Assim, apesar de cobrar mais pelas mercadorias, estas eram de acesso mais fácil do que a cantina para muitos indígenas (Leonel, 1984:204).

Mesmo depois de décadas de contato, foi apenas em 1987 que alguns Tupari conheceram uma cidade. Até então, só conheciam a floresta e os seringais. Mas a partir de 1988, suas terras começaram a ser sistematicamente invadidas por madeireiras e foram sendo pressionados por grupos econômicos locais a negociarem a madeira e admitirem garimpos (Mindlin, 1993: 17).

Atividades produtivas

A agricultura consiste na principal atividade produtiva dos Tupari. Tradicionalmente, segundo conta Franz Caspar, o trabalho nas roças envolve uma divisão de papéis, cabendo aos homens queimar e limpar o terreno, bem como preparar os orifícios em que as mulheres em seguida depositam as sementes, e posteriormente fazem a colheita, trazendo os produtos para a aldeia em bolsas trançadas com fibras de palmeira. Na época de Caspar eram cultivados principalmente milho, aipim, cará, amendoim, cana, banana, feijão e várias outras espécies de tubérculos.

Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

As aldeias Tupari são hoje compostas de casas, em sua maioria, cobertas de palha com paredes de barro ou de paxiúba. Em 1948, a aldeia visitada por Caspar era composta por duas malocas e as duas maiores roças eram as dos chefes dessas casas comunais. Nessas roças, todos trabalhavam, mas convinha que cada homem tivesse sua própria roça, plantando o seu fumo e o que mais apetecia à família. Muitos índios possuíam até mais cana-de-açúcar em suas roças do que o chefe, especialmente quando as suas mulheres a apreciavam muito. Para as mulheres, também plantavam algodão e urucu. Os Tupari são ainda grande apreciadores de amendoim, que fazem cozido ou assado.

A extensão das roças dos chefes possibilitava a estes convidarem todos os co-residentes para as festas, que eram abundantes e costumavam durar três dias inteiros. Nas palavras de Caspar: “Possuir um campo com imensas plantações de milho, inhame, taioba, amendoim e, principalmente, aipim, e durante o ano inteiro convidar sua gente e os vizinhos para festas e ser considerado por eles como um perfeito anfitrião, era o maior empenho do chefe e estava nisso a própria demonstração de sua autoridade. Para isso, o cacique era obrigado a trabalhar muito mais do que seus subordinados. Tinha de ser o primeiro a começar e o último a voltar para casa. Só assim o seu pessoal o respeitava e estava pronto para colaborar no trabalho. (...) Do mesmo modo, porém, que cada um tinha de ajudar ao tuxaua na derrubada, este também tinha de auxiliar a cada um. A quantidade de colaboradores e o suor despendido na derrubada eram o medidor seguro para sua influência na tribo” (:129-30).

Além da roça, a caça, a pesca e a coleta são atividades que mobilizavam boa parte do cotidiano nas aldeias Tupari. Na década de 1940, em pequenos grupos, havia épocas em que quase todos os Tupari costumavam deixar a maloca com o arco e um feixe de flechas à esquerda e, às costas, uma pequena rede de viagem e espigas de milho. Podiam ficar caçando ou pescando por uns cinco a dez dias. Muitos levaram consigo as mulheres e filhos (Caspar,1948:191). A carne de macaco era muito apreciada. Também caçavam paca, aguti, mutum, lagarto, tatu, entre outros.

Enquanto os homens estavam ausentes na caçada, as mulheres por vezes faziam excursões de um dia na floresta, em grandes e pequenos grupos. À noitinha, voltavam com seus achados, tais como pequenos peixes, caranguejos e outros crustáceos, larvas (que apreciavam misturadas ao mel), grilos, besouros e lagartas de muitas espécies. Tais produtos eram colocados em moquecas sobre as brasas, além de amendoins e raízes, para serem então consumidos.

Nas malocas, as cenas cotidianas destacadas pelo etnólogo são as mulheres se ocupando com o fogão, desfiando algodão ou o fiando, ou fazendo um pouco de chicha para o consumo diário, ou catando piolho uma da outra, ou pintando o rosto e cortando-se os cabelos. De vez em quando, uma mulher enxotava as galinhas e patos que tentavam roubar um bocado das panelas e grelhas, ou agarrava, assustada, uma criança que engatinhava por perto de uma fogueira e poderia queimar-se nas brasas (:131).

Mas, dentre todas as atividades cotidianas dos Tupari, o etnólogo destaca o fato de serem grandes consumidores de chicha, fabricada pelas mulheres e consumida em maior quantidade durante as festas. “O aipim nas plantações e o milho nos depósitos dos Tupari pareciam ser inesgotáveis. Uma festa se sucedia à outra” (:172). No caso da chicha de mandioca, esse tubérculo é descascado, cortado, cozido, resultando numa pasta que é mastigada e cuspida nas panelas. É então amassada no pilão, peneirada e mexida. Depois fica de repouso por alguns dias para fermentação. Para fazer a chicha de milho, as mulheres trazem do depósito grande quantidade de espigas, lavam as jarras com água trazida do riacho e enchem grandes panelas com grãos de milho e água. Despejam os grãos de milho cozidos no pilão de madeira, onde é convertido em uma papa. O processo de fermentação é semelhante ao da mandioca.

O extrativismo e os barracões

Décadas depois do testemunho de Caspar, na década de 1980, a organização econômica dos Tupari foi descrita pelo indigenista Mauro Leonel como uma mistura de sua forma tradicional com a extração da borracha, a coleta e quebra da castanha para venda ou troca no mercado. Nessa época, operava o regime de barracão, em que os índios vendiam seu trabalho ou produtos da floresta pelas mercadorias trazidas da cidade e oferecidas nos barracões dos seringais e na cantina do Posto Indígena.

Ainda segundo Leonel, apenas com a chegada da Funai, em 1980, os índios começaram a dispor de algum dinheiro, cerca de US$ 50 a 100 por ano para cada chefe de família. O sistema da cantina ou do barracão os abastecia no fundamental: óleo, fósforos, querosene, facões, açúcar, sal, ferramentas, pilhas, sabão, munição, entre outros itens.

Em junho os índios começavam a preparar as colocações, arrumar os tapiris e fazer os cortes nas estradas (regiões de extração de seringa). Em setembro faziam uma pausa para a queima dos terrenos das roças e a "coivara" (limpeza), seguindo-se o plantio da mandioca. Em outubro plantava-se arroz e milho. Em novembro voltava-se à seringa para o corte, prensa e o chamado "fabrico", que preparava a borracha para a venda. Dezembro e janeiro eram dedicados à coleta e quebra da castanha. Fevereiro e março eram para a colheita das roças, em particular do milho e arroz, e o plantio do feijão. Em abril vinha a limpeza por dentro, a "broca" da roça e o desmatamento, seguido da derrubada, em maio (Leonel, 1984).

As roças familiares tradicionais tinham em média de 1/2 a 1 hectare. Plantava-se geralmente macaxeira, três variedades de milho, banana, arroz, cará, amendoim, tabaco e batata doce. Quando Leonel esteve na região, em 1984, havia sete roças ao norte da sede do Posto Indígena (São Luís) e 21 ao sul. Oito núcleos familiares dispunham de precárias casas de farinha.

Todas as atividades são permeadas, sempre que possível, pela caça e pesca. O timbó é uma prática constante de todos os grupos, mas vêm enfrentando dificuldades na pesca devido à construção de PCHs [Pequena Central Hidrelétrica]. A caça é muito escassa, mas encontra-se porco do mato, tatu, paca, tatu-canastra, veado, cotia, anta, quati, macacos e jabuti. Caçam também aves e apreciam o mel, frutas e o amendoim.

O artesanato como mercadoria na década de 1980 era muito raro, mas hoje em dia constitui uma das principais fontes de renda para os Tupari. Costumam trocar ou vender sua famosa cesta de tucum. Com esse material também fazem pulseiras e brincos de conchas de rio. Fazem ainda arcos, flechas e bordunas.

Modo de vida

Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

A regra de residência tradicional entre os Tupari é uxorilocal, o que quer dizer que o noivo passa a morar com seu sogro, precisando trabalhar para ele. Mas se o esposo for mais idoso, especialmente se for um líder, ele leva a jovem consigo.

Em relação aos ornamentos, os homens Tupari usavam uma folha amarela que lhes cobria o pênis. O nariz era furado, assim como os lábios e lóbulos das orelhas. Através do orifício do septo nasal traziam um canudo da grossura de um lápis, ou um bastãozinho colorido que quase lhes tapava as fossas nasais, tornando-as mais abertas. Espetavam nos lábios pedacinhos de madeira finos, ou estão dois espinhos de porco-espinho. Nas orelhas usavam brincos de pedacinhos de madrepérola e contas de vidro.

Vestiam ainda colares, braceletes e fitas de algodão nos pulsos e nas pernas. Alguns usavam um cinturão de pequenas contas negras. Todos, porém, tinham o corpo pintado, de alto a baixo, com pintas e riscos pretos ondulados. Alguns tinham também o rosto pintado. O cabelo escorrido era repartido ao meio e em alguns chegava quase ao ombro. Raspavam as sobrancelhas, barba e todos os pelos no corpo.

Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

As casas comunais foram descritas por Caspar como circulares, abobadadas. A aldeia era então constituída por duas habitações comunais. Na casa principal Caspar estimou morarem perto de cem pessoas, cerca de 30 famílias. E na casa menor cerca de dez famílias. O centro não era habitado por pessoa alguma. Um grande círculo de jarras de chicha era separado por um corredor largo. Desse corredor, seguiam-se pequenas passagens que conduziam às redes (:86).

Entre as duas casas havia uma pequena praça, com galinheiros e uns ranchos-depósitos. Na praça, os homens costumavam sentar em banquinhos esculpidos de madeira.

Cosmologia

Antigamente, a terra não era povoada e no céu não havia nenhum Kiad-pod [pajés primitivos]. Havia somente um grande bloco de pedra, lindo, liso e brilhante. Esse bloco era, porém, uma mulher. Um dia abriu-se ao meio e, entre torrentes de sangue, deu à luz um homem. Era Waledjád. Mais uma vez, fendeu-se o bloco e nasceu um outro homem. Chamou-se Wab. Ambos eram pajés. Não tinham mulher, por isso cada qual fabricou para si um machado de pedra e derrubaram duas árvores. Depois mataram um aguti, arrancaram-lhe os dentes da frente e, com isso, esculpiram uma companheira para cada um deles. 

Assim, nasceram também os outros pajés primitivos, os Wamoa-pod, uns da terra, outros das águas. Waledjád era muito mau. Zangava-se constantemente e, cada vez que ficava bravo, chovia copiosamente. Assim, inundou toda a terra, morrendo afogados muitos Wamoa-pod. Os sobreviventes não sabiam como se livrar de Waledjád. Um dos pajés primitivos, Arkoanyó, escondeu-se em cima de uma árvore e pingou cera de abelha líquida sobre Waledjád, que passava por baixo. A cera lhe grudou os olhos, ventas e dedos. Assim, não podia mais causar dano algum. Queriam levá-lo para longe e muitos pássaros tentaram carregá-lo pelos ares, mas eram todos muito pequenos. Por fim, apareceu um pássaro grande que era suficientemente forte para levantá-lo e levá-lo para longe. Pegou Waledjád e voou com ele longe, para o norte. Ali, o pássaro o abandonou e lá ele vive até hoje, numa choça de pedra. Quando ele se zanga, chove aqui em nossa terra.

Um outro mau pajé chamava-se Aunyain-á. Seus dentes eram grandes como as presas de uma queixada. Tinha o costume de comer os filhos de seus vizinhos. Estes, finalmente, resolveram fugir deste ser terrível e abandonar a terra. Um dia, Aunyain-á foi à floresta para caçar mutuns. Então eles subiram num cipó muito alto que pendia do céu até a terra. Naquele tempo, o céu não estava tão alto como hoje, mas estava pendurado pertinho da terra.

Quando Aunyain-á voltou da caçada, não achou mais os vizinhos. Perguntou a um papagaio para onde haviam ido. O papagaio mandou-o ir ao rio, mas lá Aunyain-á não encontrou pegadas na areia. Então o papagaio deu uma gargalhada, dizendo que todos os vizinhos haviam subido para o céu. Aunyain-á ficou furioso e quis matar o papagaio, mas não lhe acertou a flechada. Aunyain-á começou a trepar no cipó para agarrar os fugitivos. O papagaio voou depressa para cima e começou a bicar o cipó que se partiu. 

Aunyain-á foi arremessado para a terra e ficou estraçalhado. De seus braços e pernas nasceram os jacarés e iguanas; de seus dedos e artelhos os lagartos de toda espécie. O resto foi devorado pelos urubus. Desde aquele tempo, os pajés primitivos moram lá no céu. São os Kiad-pod. Alguns ficaram na terra, mas moram longe daqui. Muitos destes Kiad-pod parecem gente, mas sempre têm suas peculiaridades. Um fala pelo nariz, outro tem a boca torta e um terceiro, Wamóa-togá-togá, tem um umbigo do comprimento de um palmo. Nenhum deles tem cabelo na parte posterior da cabeça.

Nesse céu, existem também pajés primitivos com corpo de bicho. Há um macaco-prego, um macaco preto, um guariba e muitos outros que também são verdadeiros feiticeiros. Sabem falar e cantar como gente. Quando nossos pajés cheiram tabaco e angico aqui na maloca, então o pó voa para o nariz dos macacos do céu. Eles espirram e vêm do céu até a terra, para tomar parte nas cerimônias de Waitó [o pajé Tupari que está fazendo o relato]. As pessoas comuns não enxergam esses habitantes do céu. Só os pajés se comunicam com eles durante as evocações. Então, os Kiad-pod entram na maloca e a alma de nossos pajés vai para o céu e peregrina pelas regiões mais longínquas da terra. Lá recebem dos espíritos grãos amarelos misteriosos, o Pagab. Com o Pagab, os pajés podem enfeitiçar e matar seus inimigos (:211-2).

Caspar registrou ainda o seguinte relato de Waitó sobre o aparecimento da humanidade sobre a terra:

Há muito tempo, não existiam na terra nem Tupari nem qualquer outra pessoa. Nossos antepassados viviam debaixo da terra, onde o sol nunca aparece. Sentiam muita fome, pois não tinham de comer senão frutos da palmeira. Uma noite, descobriram um buraco na terra e foram para fora. A saída não ficava longe da choça dos antigos pajés Eroté e Towapod. Acharam ali as plantações de amendoim e milho dos pajés. Comeram bastante e, pela manhã, sumiram outra vez pelo buraco escondido entre pedras. Assim fizeram noite após noite. Eroté e Towapod pensaram serem agutis que roubavam suas plantações, mas uma manhã descobriram sinais dos homens e acharam o buraco por onde eles saíam para fora. Levantaram a pedra que cobria a saída e com uma vara comprida remexeram dentro do buraco. Os homens começaram a sair, aos montes, até que os pajés tamparam o buraco outra vez.

Os homens eram, então, horrendos. Tinham presas compridas como o porco do mato e membranas entre os dedos e artelhos como os patos. Eroté e Towapod quebraram-lhes as presas e formaram-lhes as mãos e os pés. Desde então, os homens não têm mais presas pontudas, nem membranas natatórias, mas dentes bonitos, dedos e artelhos.

Muita gente ficou dentro da terra. Chamam-se Kinno e vivem lá até hoje. Quando toda gente da terra morrer, então os Kinno sairão do solo e virão morar aqui em cima. As pessoas tiradas da terra por Eroté não ficaram vivendo todas no mesmo lugar. Nós, Tupari, ficamos aqui, os outros emigraram para longe, por todos os lados. São os nossos vizinhos, os Arikapu, Jabuti, Makuráp, Aruá e as tribos restantes (:213-4).

 

O mundo dos mortos

Além de Waitó, principal pajé, um importante informante de Franz Caspar era o jovem pajé Padi, que contou a Caspar a respeito dos espíritos dos mortos. Diz ele que muito longe há “uma grande água e uma grande aldeia”, onde vivem os Tupari mortos... os Pabid. Ninguém os pode ver. Só os pajés podem visitar os Pabid em sonhos. E nas sessões de xamanismo os Pabid eram trazidos para a maloca (:182).

Quando um Tupari morre, as pupilas dos olhos saem-lhe do corpo e se transformam num Pabid. O Pabid não anda na terra como os homens vivos, faz a viagem para o reino dos mortos caminhando sobre o dorso de dois gigantescos jacarés e duas imensas serpentes, um macho e outra fêmea. Os homens comuns não enxergam estes jacarés, só os pajés os vêem em sonho. Às vezes, as serpentes se empinam para o céu, em forma de arco, tornando-se visíveis durante as chuvas. É o arco-íris. Os Pabid se encontram também com jaguares ferozes que os amedrontam com seus urros. Porém, nenhum mal lhes fazem. Por fim, os mortos alcançam seu novo lar, que se acha à beira de um grande rio, Mani-Mani. A princípio, nada vêem, pois seus olhos ainda estão fechados. Assim que chegam, são recebidos por dois vermes grossos e longos, um macho e uma fêmea, que lhes abrem um buraco no ventre e comem-lhes todas as vísceras. Depois saem.

Chega então Patobkia, pajé superior e cacique da maloca dos mortos. Pinga nos olhos dos recém-chegados o sumo de uma pimenta muito ardida e só depois disso é que os Pabid podem ver onde estão. Olham tudo pasmados e só encontram desconhecidos. Todos têm barriga oca, porque os vermes já lhes comeram os intestinos. Aí Patobkia lhes apresenta uma cuia de chicha. O novo Pabid bebe e Patobkia o conduz para o interior da aldeia dos mortos. Dois pajés velhíssimos estão à espera do recém-chegado. Quando o Pabid é homem, é obrigado a possuir a velha gigante Waug'e, diante dos olhos de todos. Se, no entanto, é uma mulher que chega, então será possuída pelo velho Mpokálero. Depois disso os Pabid não copulam mais à maneira dos vivos; os homens sopram um punhado de folhas e as insinuam por magia no ventre das mulheres. Assim elas engravidam e dão à luz as criancinhas.

Os Pabid moram em grandes casas redondas, porém, não dormem em redes, mas sim de pé, apoiados aos postes de arrimo, e cobrem os olhos com os braços. Não abatem florestas e não cultivam a terra. Patobkia faz todo esse trabalho com gestos mágicos e com seu sopro encantado. A chicha de amendoim, que as mulheres dos Pabid fazem, não é fermentada, assim os mortos podem bebê-la sem se embriagarem. Não obstante, cantam e dançam freqüentemente, todos enfeitados de cocares. Os pajés Tupari ouvem suas canções, quando visitam, em sonhos, as aldeias dos Pabid.

Além dos Pabid, há uma segunda alma dos mortos que não vai para a maloca dos Pabid, mas sobe para o espaço, algum tempo depois da morte. Nas palavras de Padi:  

Quando morre uma pessoa e suas pupilas dos olhos vão para os Pabid, nós lhe enterramos o corpo na choça, ou onde queimamos uma choça velha. Mal o corpo é enterrado, o coração começa a crescer dentro do corpo e, depois de alguns dias, torna-se tão grande como a cabeça de uma criança. No interior do coração aparece um entezinho que vai crescendo e rompe o coração, como um passarinho rompe a casca do ovo. É o Ki-apoga-pod. Ele não pode, porém, sair do chão e chora de fome e sede. Por isso, os parentes do morto vão à caça. Quando voltam, organizam três sessões de rapé com os pajés.

O pajé superior puxa o Ki-apoga-pod do chão, lava-o e forma seu rosto e membros. Quando sai da terra, parece uma pelota de terra sem forma. Depois o feiticeiro lhe dá de comer e beber e o solta nos ares. Os Ki-apoga-pod vivem lá em cima. Quando o morto foi em vida pajé, então seu Kia-poga-pod não voa para o espaço, mas fica na maloca. Ali as almas dos pajés mortos comem da comida e bebem da chicha dos vivos. Da cúpula das malocas, encantam os vivos durante a noite e os fazem sonhar. As almas das mulheres dos pajés também pairam ali" (:195-7)

Rituais

Sevindo a chicha numa festa. Foto: Franz Caspar, 1948
Sevindo a chicha numa festa. Foto: Franz Caspar, 1948

Na acepção Tupari nesse período em que Franz Caspar esteve entre eles, uma mulher não ficaria grávida se um dos pajés demiurgos, Antaba ou Kolübé, aproveitando-se da escuridão da noite, não viesse a ela e lhe trouxesse uma criança. Essa criança cresce da carne dos dois Kiad-pod e tem, mais ou menos, um palmo de tamanho. Os espíritos do céu, depois de desprendê-la de seu próprio corpo, aproximam-se de uma mulher adormecida e, por meio de feitiços, introduzem o pequeno ente em seu seio. Aí ele cresce e vem ao mundo.

Quando nascia a criança, a mãe raspava a testa do filho com um talo de grama e pintava sua cabeça com tinta de jenipapo. Furava os lóbulos das orelhas e enfiava nos orifícios um fio de fibra de folha de palmeira. Seu rosto era adornado com traços e pontos pretos à moda dos adultos (:188).

Quando a criança estivesse suficientemente crescida para comer larvas de palmeira, os pais eram obrigados a jejuar por cinco dias. Depois participavam de um ritual ministrado pelo conjunto dos pajés, que envolvia banhos numa bacia com ervas, rodadas de rapé, o consumo de macacos caçados pelo pai da criança, chicha e outras iguarias. O ponto culminante do ritual era quando a criança comia pela primeira vez uma larva de palmeira (:128).

Iniciação feminina

Quando uma menina ficava menstruada pela primeira vez, sua mãe comunicava o fato ao pajé superior. Erguia-se na maloca um tabique de folhas de palmeira e esteiras, atrás da qual a jovem ficava reclusa. Durante cinco dias ela não recebia nem água nem alimentos, até que o pajé benzesse uma jarrinha de chicha não fermentada para ela. E também nos meses subseqüentes a chicha constituía o alimento principal da jovem. Em hipótese alguma ela podia tocar carne ou peixe. Não podia sair do compartimento, não podia tomar banho nem se lavar. Ela permanecia sentada no chão ou em sua pequena rede, fiando algodão, a fim de mais tarde tecer uma rede para seu marido. Se ela já tivesse marido, durante todo esse tempo não deveria vê-lo nem lhe falar.

Somente depois de dois ou três meses a reclusão era suspensa. O marido da jovem e seus parentes próximos partiam durante dez dias para a caça. A jovem, porém, precisava jejuar rigorosamente por mais cinco dias e as mulheres passavam terra úmida e podre na sua cabeça, para amolecer as raízes do cabelo. Quando os caçadores retornavam, então os pajés realizavam com eles uma cerimônia. Todos os participantes cheiravam pó de tabaco e angico, e o pajé maior fazia conjuras à moça. As mulheres arrancavam-lhe os cabelos, e seu corpo e a cabeça desnuda eram pintados com tinta vermelha e preta. Então a jovem recebia, finalmente, de novo os primeiros alimentos e retornava à comunidade da tribo. Mas, somente quando os cabelos tivessem crescido bem ela poderia viver em comum com seu marido (:200-2).

Festas de chicha

Hoje as festas tradicionais, segundo levantou o antropólogo Samuel Cruz (da ONG Kanindé), só ocorrem uma vez por ano. Mas Caspar comenta inúmeras vezes em sua obra a freqüência com que os Tupari realizavam festas, que comumente duravam três dias inteiros, e quando se consumia uma imensa quantidade de chicha fermentada de mandioca ou milho.

Comiam carne de caça e bebiam chicha de milho em grandes quantidades, entremeadas por vômitos, para que pudessem recomeçar o consumo. Nas palavras do etnólogo: “Faz parte da festa: beber, vomitar, beber, vomitar, até o dia raiar” (:52). Produziam instrumentos de taboca e dançavam até o nascer do sol, como nessa descrição:

Uma dúzia de músicos se alinhara ao redor de um pau fincado no chão. Seguravam na mão esquerda a taboca e a mão direita estava pousada no ombro do vizinho. Os dançarinos moviam-se em círculo, dando passinhos para o lado, ao som de uma melodia simples. Não demorou e outros dançarinos se juntaram. Todos traziam o arco e flecha na mão, ou a espada [de palmeira e dois gumes] ao ombro. As mulheres se alinharam na roda exterior. Davam-se as mãos, ou se seguravam na cintura, ou no ombro.

As rodas se moviam lentamente em círculo, no ritmo da música. De tempo em tempo, marcavam passo, faziam sempre na mesma cadência uns passinhos para trás e depois, com um grito selvagem, recomeçavam a rotação vagarosa para a direita. Ora os músicos tocavam o solo, ora os dançarinos cantavam em coro. Uma cadência característica anunciava o fim da dança, depois de um quarto de hora, mais ou menos. A roda parava. Os índios soltavam um ‘huuuuuuh!’. Então corriam a fim de encher suas cuias e se acocoravam ao pé das fogueiras que brilhavam em todos os cantos. Os músicos iniciavam uma nova sessão (:101).

Tanto homens como mulheres bebiam muito. A despeito de serem as mulheres as produtoras de chicha, nas festas masculinas os homens é que serviam as mulheres e em porções bem menores. Já nas festas das mulheres eram elas que bebiam e apenas ocasionalmente ofereciam bebida aos homens.

Para cada festa, os Tupari pintavam-se com a seiva do jenipapo. As mulheres mastigavam os frutos verdes e cuspiam o suco em pequena cabaça. O suco era passado no corpo com um chumaço de algodão e nesse momento é quase invisível. Depois penetra na pele e torna-se preto-azulado. Os desenhos de riscas onduladas, cruzes e pontos só desaparecem depois de uma semana (:81).

Quando deixou a aldeia, depois de meses de convivência, os Tupari pediram para que Caspar tirasse sua camisa. Então algumas mulheres começaram a esfregar seus corpos no etnólogo. Tal gesto foi assim explicado por uma índia: “Cozinhamos para você, e lhe demos de comer. Agora precisamos comer outra vez o nosso alento que está dentro de você.” Depois as crianças fizeram o mesmo, e assim foi explicado: “Você brincou com eles e os carregou!” Por isso, o etnólogo não devia partir sem retirar de dentro das crianças o seu sopro e fazê-lo voltar para ele, pois mais tarde poderia lhe fazer falta (:217).

Xamanismo

Segundo o antropólogo Samuel Cruz (da ONG Kanindé), todas as aldeias Tupari têm um xamã que atua fazendo uso de sementes de angico, com teor alucinógeno. Elas são maceradas até virar pó, então são misturadas com um tipo especial de fumo, cultivado para este fim. Essa mistura é inalada por meio de uma taboca, cuja extremidade contém um recipiente com o pó e é encostada na narina do pajé, enquanto na outra extremidade uma pessoa assopra. Caspar presenciou várias sessões de xamanismo no tempo em que esteve entre os Tupari. Numa delas, uma velha gemia de dor. O pajé Tadjuru, acocorado sobre seus calcanhares, passava a mão pelo corpo da paciente, depois levantava os braços para o ar, parecia retirar alguma coisa de seus próprios membros para fazê-la penetrar na mulher. Para terminar, inclinou-se sobre a doente imóvel e sugou-lhe a nuca. Sempre acocorado, arrastou-se até a porta, onde cuspiu o mal que havia sugado do corpo da velha (:75).

Xamã tupari em uma sessão de cura. Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Xamã tupari em uma sessão de cura. Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

O mais comum era que as sessões de cura xamânica fossem com sucções e cusparadas do mal que acometia os doentes. Mas uma vez, em que um homem estava gravemente doente, Caspar teve oportunidade de testemunhar uma sessão diferente dirigida por Waitó. A mulher do doente trouxe uma imensa moqueca em que havia um macaco-prego assado.

A cabeça do macaco foi então cortada e o pajé esfregou-a por todo o corpo do doente, esconjurando, respirando e dando estalos com a língua. Depois Waitó explicou ao etnólogo que a cabeça de macaco tem o poder de sugar as doenças do corpo e devorá-las (:194).

Na descrição de outra sessão xamânica, o etnólogo conta que se reuniu em semicírculo uma dúzia de homens (pajés e aprendizes). Os participantes tiraram os pauzinhos do septo nasal e Waitó e Kuayó (respectivamente primeiro e segundo pajé), sopraram no nariz de cada um perto de vinte pitadas de rapé (como chamava o pó de angico). Eles próprios aspiraram cerca de quarenta pitadas. Os quatro pajés presentes viravam-se em seus banquinhos para a abertura da porta da maloca e executaram uma série de conjurações. Nas palavras do etnólogo: “Acenavam para fora com a mão direita, bufavam e sopravam, pegavam coisas invisíveis do ar e as arremessavam para longe. Emitiam sons esquisitos; parecia que se asfixiavam. Enquanto isso, tentavam pegar, com as mãos, um ente misterioso que permanecia, para mim, completamente invisível. Por fim, tombaram exaustos sobre os banquinhos, murmurando palavras incompreensíveis” (:107).

Os xamãs acompanham o comportamento dos espíritos. Foto: Franz Caspar, 1948
Os xamãs acompanham o comportamento dos espíritos. Foto: Franz Caspar, 1948

Nessas sessões, também era freqüente que se alimentassem os espíritos que vinham ter com os pajés, principalmente com macacos assados e chicha de milho. Tanto nos rituais de couvade (quando nasce uma criança, descrito no item Rituais), como nos de morte, Caspar comentava que antes das sessões xamânicas era preciso caçar macacos, que eram oferecidos aos espíritos e depois consumidos pelos participantes dos rituais.

Entre os instrumentos, o etnólogo destacou um maracá feito de ouriço redondo, do tamanho de um punho, de castanha-do-pará. Era utilizado para chamar os espíritos dos mortos. Caspar testemunhou uma sessão xamânica para que uma criança que havia morrido há dias fosse para o céu. Além das iguarias acima descritas – banho de ervas, rapé, chicha, macacos assados e outras iguarias, como milho e amendoim –, nesse ritual arrumou-se sobre uma esteira de folhas de palmeira vários adornos corporais: “penas para orelhas, pauzinhos para o nariz e lábios, cordas para os braços, pulseiras, um colar de discozinhos de madrepérola, um pente, uma pequena bolota de corante urucu e uma cuia de óleo” (:184).

Depois de duas rodadas de rapé, invocações e o uso incessante do maracá, chegaram os espíritos. Waitó aproximou-se deles cheio de respeito. Ele era o único a ter permissão de se levantar impunemente e andar ereto pela esfera sagrada. Waitó voltou-se para um desses espíritos, que Caspar supôs ser a criança falecida, lavou-o com água fresca e depois penteou-lhe os cabelos. Ofereceu-lhe então os enfeites para as orelhas, nariz e lábios, depois o colar, a pulseira e a braçadeira, sempre um depois do outro, para que o espírito tivesse tempo de pôr os enfeites. Para terminar, untou o Pabid com óleo. No fim, deu também de comer aos demais Pabid. Waitó estendia, com os dedos, um bocado de comida e oferecia aos seres invisíveis com muita paciência. Encheu, depois, com uma minúscula colher uma cuia de chicha e ofereceu a bebida aos hóspedes. Só não lhes serviu os macacos.

Afinal, os espíritos foram embora. Waitó os acompanhou, com os braços erguidos, até a saída, entoando uma canção. Mal desapareceram os Pabid, os índios se puseram a fazer movimentos apressados de comer e engolir, agitando as mãos no ar. Explicaram a Caspar que estavam comendo a respiração dos Pabid. “A cerimônia terminou depois de quase cinco horas. Os pajés esgotados e também os adeptos, finalmente, podiam refrescar-se num banho e saciar sua sede na chicha que os esperava nas vasilhas bojudas, repletas” (:185).

Fontes de informação

  • ALVES, Poliana M. Análise fonológica preliminar da língua tupari. Brasília : UnB, 1991. 96 p. (Dissertação de Mestrado)

 

  • CASPAR, Franz. A aculturação dos Tuparí. In: SCHADEN, Egon. Leituras de etnologia brasileira. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1976. p. 486-515.

 

  • --------. Die Tuparí ein indianerstamm in Westbrasilien. Berlin : Walter de Gruyter, 1975. 442 p.

 

  • --------. Tupari : unter indios im urwald brasiliens. s.l. : Friedr. Vieweg & Sohn Braunschweig, 1952. 218 p.

 

  • --------. Tupari: entre os índios, nas florestas brasileiras. São Paulo: Melhoramentos, 1953. 225p.

 

  • MINDLIN, Betty. Tuparis e Tarupás : narrativas dos índios Tuparis de Rondônia. São Paulo : Brasiliense ; Edusp ; Iamá, 1993. 123 p.

 

  • ------- e narradores indígenas. Moqueca de maridos. Mitos eróticos. Rio de Janeiro ; Rosa dos Tempos, 1997. 303 p.

 

  • PRATES, Laura dos Santos. O artesanato das tribos Pakaá Novos, Makurap e Tupari. São Paulo : USP, 1983. 149 p. (Dissertação de Mestrado)

 

  • O Tapir. Dir.: Raquel Coelho. Vídeo cor, 4 min., 1996. Prod.: School of Visual Arts; Raquel Coelho