Foto: Museu do Índio, S/d.

Terena

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    MS, MT, SP26.065 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Aruak

Aldeias e território

O padrão de localização das aldeias (oneó) Guaná ou Chané se alterou ao longo dos anos em função da limitação territorial imposta a estes grupos após a guerra com o Paraguai. Antes da guerra, quando a disponibilidade de terras era ainda grande, a distribuição das aldeias Guaná não diferia muito do padrão, digamos "clássico", descrito por Sanches Labrador (El Paraguai Catolico: 275-276). Esse padrão combinava – como já indicavam os primeiros cronistas, ainda no século XVII, para os Guaná do Chaco meridional – uma agricultura bem desenvolvida com a caça, a pesca e, já no Brasil, a criação de gado vacum e cavalar – com os quais aprenderam a lidar no longo período de convivência que mantiveram com os Mbayá-Guaicuru.

Este modo de ocupação – com a fixação da aldeia em um ponto privilegiado do território – exigia uma área de extensão considerável, posto que as roças (cawané), pertecentes a um mesmo grupo de parentesco (liderado por um "capitão" ou chefe da família extensa), iam se distribuindo em matas de "galeria" contíguas, ao longo dos anos.

Historicamente, aldeias Guaná possuíam, em média, de 30 a 40 casas (ovocuti) e, segundo Sanches Labrador, cada casa media "de 16 a 20 jardas de comprimento por 8 de largura" e na qual viviam um "capitão... junto com seus irmãos e seus parentes...[e] cada casa tem cinco portas". Se considerarmos que casas nestas dimensões (15 x 7 metros no mínimo!) abrigariam entre 20-30 pessoas (cinco grupos domésticos, delimitados pelas suas "portas"), então podemos estimar a população das aldeias no Eêxiva em cerca de 600 a 1.200 pessoas – cifras que, como vimos no tópico anterior, se manteriam no Brasil até a primeira metade do século XIX.

Os grupos domésticos (compostos por marido, mulher, filhos, genros e, eventualmente, cativos de outros grupos indígenas, os chamados cauti) de cada casa possuíam áreas contíguas de roças. Nenhum dos cronistas, do Chaco ou do Brasil, menciona as dimensões das roças Terena antes da guerra do Paraguai. Porém, os Terena atuais afirmam que as roças "de toco" de seus avós possuíam, em média, seis "tarefas" (uma "tarefa" é igual a 30 "braças" quadradas ou cerca de 3.600 m²) por grupo doméstico (ou seja, cerca de 2,16 ha). Esta cifra é perfeitamente compatível com os instrumentos então utilizados pelos Guaná para suas lides agrícolas – equipmentos bem mais desenvolvidos do que, por exemplo, aqueles utilizados pelos Guarani, seus vizinhos meridionais e também dependentes da agricultura.

A escolha do local para o estabelecimento das aldeias Guaná deveria levar em conta a disponibilidade de matas que denunciavam solos propícios para a formação das roças e áreas de caça, coleta e pesca (lagoas ou rios de porte), necessários para o período de seca (e de entressafa dos produtos cultivados). Ao lado disso, o território desse grupo deve possuir área necessária para a criação de bois e cavalos em regime extensivo.

Dados estes critérios – e limitações impostas pelas condições ecológicas do planalto pré-pantaneiro brasileiro –, a única região propícia ao estabelecimento das aldeias Guaná seria aquela do interflúvio Miranda-Aquidauana-Taquari. Ademais, barreiras e limites sociais impuseram a fixação da maioria dos grupos Guaná naquela região. Ao sul (nas cabeceiras do Miranda e serra de Maracajú) e a leste (os chamados “campos de Vacaria”, além Aquidauana), os limites para expansão dos Guaná seriam dados, de um lado, pelos índios “Coroados” (Ofayé-Xavante) e, de outro lado, pelos Kaiowá-Guarani (interflúvio Brilhante-Dourados-Apa). Ao norte, a barreira era dada pelo Pantanal e os índios Guató, inimigos históricos dos Guaná – como mencionam vários cronistas (por exemplo, Castelnau, 1949) e estudiosos clássicos (como Metraux,1946).