Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1991

Araweté

  • Autodenominação
    Bïde
  • Onde estão Quantos são

    PA467 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Tupi-Guarani

Parentesco

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Como parece ser o caso em toda sociedade não-industrial, pequena e morfologicamente simples, a vida cotidiana araweté reserva às categorias e atitudes de parentesco um papel maior. As formas de cooperação econômica, os arranjos residenciais, os alinhamentos políticos, tudo isso é função das relações de parentesco, por consangüinidade ou afinidade, entre as pessoas. O casamento não é uma simples união entre dois indivíduos, mas uma aliança entre suas respectivas parentelas, que pode (e idealmente deve) consolidar-se por outras uniões matrimoniais entre esses grupos de parentes.

Os Araweté se casam muito cedo, as mulheres por volta dos 12 anos, os homens, dos 15; as uniões são muito instáveis até o nascimento do primeiro filho (o que se dá por volta dos dezesseis anos para as mulheres), quando então se tornam sólidas e dificilmente se rompem antes da morte de um dos cônjuges. Como não se concebe a vida de uma pessoa adulta fora do estado matrimonial, dificilmente alguém fica solteiro por muito tempo: pessoas mais velhas, assim que enviúvam, costumam formar uniões com jovens que ainda não atingiram a idade de casar com alguém de sua faixa de idade. É assim relativamente comum ver homens de sessenta anos morando com meninas de dez anos, ou de mulheres de 50 anos com rapazolas de doze. Trata-se de arranjos sobretudo econômicos, em que o casal funciona como uma unidade de residência, de produção e consumo alimentar; mas os jogos sexuais não estão excluídos.

O termo genérico para "parente" é anî, que em sua acepção mais restrita denota os irmãos de mesmo sexo que ego; meus parentes são meus di, meus "outros-iguais", gente semelhante a mim. O termo para "não-parente" é tiwã, cuja determinação genealógica mais próxima são os primos cruzados de mesmo sexo; os tiwã são amite, gente "diferente". Tiwã é um termo ambíguo. Ele traz uma conotação agressiva ou 'picante', e não se costuma usá-lo como vocativo para um outro Araweté. Ele indica uma ausência de relação de parentesco, um vácuo que pede preenchimento. Um tiwã é uma possibilidade de relação: um cunhado ou um amigo potenciais. Os tiwã se tratam apenas por nomes pessoais. Tiwã é o vocativo com que os Araweté tratam os brancos cujo nome desconhecem; e é o termo de tratamento recíproco entre um matador e o espírito do inimigo morto. Aplicado a não-Araweté, ele particulariza a 'relação' genérica negativa que há entre os bïde e os awî. Chamar alguém pelo vocativo awî é impensável, pois awî são seres "para matar" (yokã mi), com os quais não se fala; chamar um inimigo de tiwã, assim, é criar este mínimo de relação que reconhece ao outro a condição de humano (bïde).

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A terminologia de parentesco araweté é extensa, e se organiza segundo princípios bastante diferentes daqueles que subjazem a nossa forma de classificar os parentes. Basta aqui observar que os Araweté chamam de "irmão", "irmã", "filho", "filha", "pai", "mãe", uma quantidade de pessoas que para nós seriam consideradas como primos, sobrinhos ou tios, e às vezes simples parentes distantes. Em princípio, todas as mulheres classificadas como "mãe", "irmã" ou "filha" são proibidas a ego dos pontos de vista sexual e matrimonial; digo "em princípio" porque essa norma se aplica com rigor apenas para as parentas mais próximas destas categorias, as primeiras delas sendo a mãe, irmãs ou filhas 'reais' - aquelas consideradas como tendo gerado ego, ou tendo sido geradas pela mãe ou esposa de ego. O casamento com a filha da irmã (a sobrinha uterina) é considerado permissível, e mesmo desejável, embora a maioria dos Araweté entenda que este tipo de união só é realmente apropriado quando se trata de uma "sobrinha" distante. O casamento com a sobrinha uterina, chamado em antropologia de casamento avuncular (do latim avunculus, "tio materno", pois se trata de uma união entre um tio materno e sua sobrinha uterina), é bastante comum entre os povos Tupi-Guarani e Caribe da América do Sul.

Ao contrário da maioria das sociedades indígenas brasileiras, os Araweté não consideram que todos os membros do grupo sejam aparentados; para uma pessoa qualquer, muitos dos demais moradores da aldeia do Ipixuna são tiwã, não-parentes. A presença de tantos tiwã em uma sociedade de duzentas pessoas se explica em parte pela separação longa entre os grupos meridional e setentrional de Araweté, antes do contato; os tiwã eram em geral qualificados como iwi rowãñã ti hã, "gente do outro lado da terra", isto é, de um outro bloco de aldeias.

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O ideal verbalmente expresso define os primos cruzados como os cônjuges por excelência. O casamento com a filha do irmão da mãe é chamado "casamento do iriwã", um pássaro que em um mito se casa com a filha da cobra jararaca, seu tio materno; o casamento com a filha da irmã do pai é o "casamento do gavião-real", conforme outro mito. é comum que os adultos determinem os cônjuges futuros das crianças, emparelhando-as a seus primos cruzados. De 1983 a 1991, observei que apenas um pequeno número desses casais chegou a estabilizar-se; mas muitos dos primeiros casamentos deram-se entre primos cruzados.

Outra forma de compromisso matrimonial é aquela em que um tio materno ou uma tia paterna reserva uma criança para futuro cônjuge, pedindo-a à própria irmã (mãe da criança) ou irmão (pai da criança). Esses casamentos (e aqueles os com primos cruzados) são vistos como uma forma de se manterem juntos parentes próximos, ou mais precisamente como o resultado da ligação afetiva entre irmão e irmã. "Desejam-se" (pitã) os filhos dos irmãos de sexo oposto, para si mesmo ou para os próprios filhos - assim, dizem os Araweté, "não nos dispersamos". Observa-se por fim uma tendência à repetição de alianças entre parentelas, gerando redes de aparentamento muito intrincadas.

Não conheço palavra específica para "incesto". Há um termo, que não sei traduzir, que qualifica uniões não muito próprias, awîde. Ele se aplica a casamentos entre irmãos distantes e a uniões entre tios e sobrinha reais. Menos adequados que os casamentos com tiwã, os casamentos awîde não são a rigor incestuosos. O incesto (que se descreve como um "comer" a mãe, a irmã, etc.) é algo muito perigoso: o casal culpado morre de ha'iwã, definhamento que sanciona toda infração cósmica; e pior que tudo, os inimigos se abatem sobre a aldeia. As aldeias de incestuosos, diz-se, costumam acabar tão crivadas de flechas inimigas que os urubus sequer conseguem bicar os cadáveres.

O tom das relações interpessoais é bastante relaxado, e as posições de parentesco são pouco diferenciadas em termos das atitudes. Uma única relação é definida como envolvendo "medo-vergonha", por definição: entre irmão e irmã. (Digo "por definição" porque outras situações envolvem "medo-vergonha" temporário e extrínseco. Assim, todo jovem que vai residir uxorilocalmente sente-se constrangido diante dos sogros, mas isso rapidamente se dissipa). Isso não significa evitação: irmãos de sexo oposto visitam-se freqüentemente, demonstram grande estima recíproca, e são o principal apoio moral de uma pessoa. Uma mulher recorre ao irmão mais que ao marido, em uma briga com estranhos; se estoura uma querela conjugal, são sempre os irmãos de sexo oposto que acorrem a consolar os cônjuges. Essa solidariedade é respeitosa, e as brincadeiras de fundo sexual tão apreciadas pelos Araweté jamais têm por objeto um germano de sexo oposto.

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O ataque de inimigos sobre uma aldeia tornada "mole" (time) e desprevenida sanciona outra falta grave às normas sociais: a hostilidade física ou mesmo verbal entre irmão e irmã. Vemos assim que as infrações simétricas da distância própria entre irmão e irmã - amor demais ou de menos, digamos - atingem a sobrevivência do grupo inteiro, o que sugere a centralidade desta relação na vida social araweté.

Irmãos de mesmo sexo são igualmente solidários, e são os parceiros de trabalho mais comuns. A liberdade entre eles é grande, embora não chegue nunca à camaradagem jocosa dos apihi-pihã (ver abaixo). Irmãs, sobretudo, são extremamente unidas. Note-se contudo que a ordem de nascimento, marcada aliás na terminologia de parentesco, gera uma diferença que se exprime na autoridade dos mais velhos sobre os mais jovens.

As relações conjugais araweté são notavelmente livres, mas ambivalentes. O contato corporal público é admitido, e quando as coisas vão bem os casais são muito carinhosos. Por outro lado, cenas de ciúme são freqüentes. Os maridos de mulheres jovens são muito ciosos, e vigiam de perto as esposas. Quando a união consolida-se com o nascimento de filhos, são as mulheres que passam a demonstrar ciúme, especialmente se mais velhas que o marido. A violência física (não muito violenta, na verdade) é comum entre casais jovens, e em geral as mulheres são mais agressivas. Fora da relação conjugal (e das raríssimas sovas dadas em filhos pequenos) não há qualquer espaço para a violência na sociedade araweté, que não se traduza imediatamente em choque armado. Por isso o casamento fica sobrecarregado, canalizando tensões que pouco têm a ver com ele. Isso responde, entre outras coisas, pela alta instabilidade conjugal.

A diferença de idade entre os cônjuges é um traço comum nas sociedades tupi-guarani. Ela se acha também entre os Araweté, mas trata-se de uniões secundárias e temporárias, nas quais os velhos iniciam sexualmente meninas pré-púberes, e as velhas acolhem rapazes sem esposa disponível.

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Entre afins de mesmo sexo e geração, as relações são pouco marcadas. Não há evitação de qualquer espécie, nem solidariedade especial, como se observa em tantas sociedades indígenas. "Cunhados são como irmãos", dizem os Araweté: saem para caçar juntos, podem ficar muito amigos, ou podem se ignorar. Como parte dos laços de solidariedade entre irmão e irmã, eles estão entre os convidados mais freqüentes ao pátio de uma pessoa. Note-se entretanto que o costume de irmãos de sexo oposto virem consolar os cônjuges nas brigas conjugais traduz uma óbvia tensão latente entre cunhados de mesmo sexo, que nunca vi passar de admoestações curtas mas veementes por ocasião das desavenças conjugais - ocasião, portanto, em que o marido da irmã e a irmã do marido fazem valer seus direitos fraternais contra os respectivos cunhados. Dois cunhados ou cunhadas podem ter relações sexuais com uma terceira pessoa, mas não podem entrar em relações de amizade sexual cerimonial (apihi-pihã) enquanto estiverem ligados como afins: partilha de cônjuges e afinidade se excluem.

Entre afins de sexo oposto e mesma geração as relações são livres. A relação de dois irmãos de mesmo sexo frente aos cônjuges respectivos é concebida como sendo de sucessão potencial: com a morte de um dos irmãos, é comum que o outro herde seu cônjuge. As relações sexuais entre, por exemplo, um homem e a esposa de seu irmão são semi-clandestinas, e no máximo tacitamente toleradas pelo irmão; caso tornem-se conspícuas, um dos envolvidos termina propondo uma troca de cônjuges, o que é freqüente. Essa relação de equivalência diacrônica entre irmãos de mesmo sexo se opõe à partilha simultânea de cônjuges entre os apihi-pihã.

Entre as gerações consecutivas, o quadro de atitudes é variado, dependendo da fase do ciclo de vida e da situação residencial. Há pouca ênfase em estruturas de autoridade baseadas na diferença geracional. Entre pais e filhos concebe-se uma comunidade de substância, e suas relações são afetivamente intensas. Há uma muito vaga idéia de que os filhos são "coisa do pai", as filhas "coisa da mãe", o que traduz apenas a identidade de gênero e suas conseqüências econômicas, pois a teoria da concepção é patrilateral e a organização de parentesco, cognática.

A vida social Araweté manifesta uma forte tendência matrilocal, a qual rege as soluções residenciais. O laço mãe-filhos é mais intenso que o laço pai-filhos, e especialmente a relação mãe-filha. É difícil caracterizar com precisão situação pós-marital. Há algum desacordo quanto à norma. Os homens jovens dizem que o ideal é a virilocalidade; os mais velhos afirmam que, tradicionalmente, os rapazes domiciliavam-se no setor ou na aldeia da esposa, e que só após o nascimento do primeiro filho é que podiam voltar à aldeia de origem (se conseguissem convencer a esposa). Inclino-me pelo parecer dos mais velhos, embora tanto eles quanto os rapazes estejam certamente exprimindo as normas do modo que mais lhes favorece. A uxorilocalidade é efetivamente um princípio conceitual básico para os Araweté. Ela é explicada, caracteristicamente, com argumentos psicológicos: afirma-se que as mães não querem se separar das filhas, e que, ademais, sogra e nora nunca se dão bem, sobretudo se moram na mesma seção residencial. Seja qual for a solução adotada, uxorilocal ou virilocal, o que se tem é sempre uma residência conceitualmente matrilocal: o cônjuge de fora é definido como morando haco pi, "junto à sogra", e o de dentro como ohi pi, "junto à mãe".

A situação real depende de vários fatores, notadamente do peso político das parentelas envolvidas, do número e composição de sua prole, das alianças passadas. Hoje em dia, diz-se, não importa muito a solução residencial, uma vez que há uma só aldeia. O fator que continua determinante é a alocação da força de trabalho. A uxorilocalidade é uma situação essencialmente econômica: o genro passa a trabalhar com o sogro, ou melhor, na roça de milho da sogra. Por isso, um casal-cabeça de família extensa só permite a saída de uma filha para casar se conseguir reter um filho (atrair uma nora), ou se casar mais uma filha, repondo o genro 'perdido'. A boa administração da família consiste em arrumar casamentos que mantenham o máximo número de filhos, de ambos os sexos, na unidade familiar de origem (e sobretudo na roça materna). Como isso é mais ou menos o que todos procuram fazer, o sistema deriva em direção à uxorilocalidade.

Não há regras de evitação entre afins de gerações adjacentes, embora prevaleça certa reserva, e uma comensalidade obrigatória. Conflitos entre sogro e genro são raros, mas ocorrem, sobretudo se o segundo mostra-se negligente no trabalho agrícola (em especial na fase da derrubada). Já os casamentos virilocais são em geral tensos na relação com o casal mais velho; nos dois únicos casos em que as esposas tinham mãe viva, os choques entre sogra e nora - na verdade entre as mães dos cônjuges - eram costumeiros.

Quando eu perguntava se um rapaz, ao mudar-se de aldeia para casar, não ficava intimidado e com saudades de casa, respondiam-me sempre que sim, mas que, além de terem-se parentes na aldeia da esposa, logo criavam-se laços de apihi-pihã entre o recém-casado e os tiwã de lá.