Foto: Carlos Augusto Freire, 1994

Tupiniquim

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    ES2.901 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística

No século XX: o sistema de índio

Os Tupiniquim reconheciam como ocupações mais de vinte localidades, entre aldeias constituídas por algumas casas vizinhas, lugares com poucas casas esparsas - a grande maioria - e locais onde havia se instalado apenas uma família. Foram identificadas pelos índios as localidades de Caieiras Velhas, Irajá, Pau-Brasil, Comboios - entre ocupações atuais -, e Amarelo, Olho d'Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê (ou Tombador), sertão e litoral do Gimuhúna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana e Córrego do Morcego - extintas.

A região em que viviam os Tupiniquim era de mata virgem antes da exploração madeireira, e a comunicação entre as localidades se fazia por trilhas no meio da floresta. Entretanto, em sua maior parte, as famílias indígenas eram encontradas dispersas pela mata, plantando nos trechos de capoeira, com a eventual agregação de parentes e afins. A forma como as famílias ocupavam o espaço e as trocas comerciais tornavam duas localidades quase que uma área só, pois a distância entre os núcleos reduzia-se, fortalecendo os laços comunitários que se manifestavam nos rituais religiosos, ou na realização de algumas formas de cooperação econômica (mutirão, adjutório). Eram famílias voltadas para a produção direta, formando uma unidade social. O conhecimento e domínio de um território funcionava como fator de identificação e troca, com a base física comum, inalienável, dando sentido à relação entre os grupos domésticos.

As aldeias tinham a disposição de ruas, e em Caieiras Velhas havia um pátio largo, onde uma pequena capela secular fechava a área. As casas eram de pau-a-pique e sapê, cercadas pelo mato ou capoeira, utilizados na medida da necessidade. Com freqüência os Tupiniquim mudavam de casa e roçado, seja pela realização de um casamento ou em busca de melhores condições de sobrevivência.

As casas e os roçados podiam ser feitos em qualquer lugar, só não podiam medir, dizer aquilo é meu. Havia regras de acesso à terra - não se permitia cercá-la ou detê-la exclusivamente. Todavia, com os casamentos preferenciais entre moradores de localidades vizinhas, e as sucessões, os grupos domésticos acabavam identificados aos roçados, como acontecia nas aldeias de Cantagalo e Araribá.

Havia uma posse comunal da terra nessas aldeias, pois os cultivos em extensões podiam ser utilizados à vontade por cada grupo familiar. Existiam também os domínios de caráter comunal - matas, rios, fontes - que possibilitavam a reprodução das famílias Tupiniquim. Em suma, o sistema de posse comunal de terras e outros domínios, aliado à apropriação doméstica e individual do produto do trabalho, permitia a sobrevivência dos Tupiniquim.

Na economia doméstica das localidades próximas ao rio Piraquê-Açu, a pesca e a coleta nos manguezais tinham um papel relevante. Pescavam de linha ou usavam inúmeras armadilhas produzidas artesanalmente, como o quitambu (cercado de espinho) e o jequiá (cesto de varas flexíveis, afunilado). Pegavam também caranguejos, mariscos e muitas ostras. Da casca da ostra mantinham um secular processo de fabricação de cal, comercializada em Santa Cruz junto com mariscos, farinha, lenha e artesanato constituído por colheres de pau, gamelas, esteiras, remos e peneiras, além de cestos, samburás e balaios, produzidos com o cipó imbé.

Independente do comércio em Santa Cruz, tinham um sistema de produção econômica em que um caçava, outro pescava, e outro ainda fazia farinha, trocando os produtos entre si, numa divisão de trabalho informal. Era o sistema de índio, noção que os Tupiniquim utilizam para divulgar e normatizar as práticas indígenas.