Foto: Ugo Maia Andrade,1998

Tumbalalá

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    BA1.195 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística

Organização social e política

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Como acontece para os demais grupos indígenas do Nordeste brasileiro, os Tumbalalá apresentam pouca distinção em relação à população regional de não-índios no que refere à organização social. Basicamente, os núcleos domésticos são autônomos e cooperam economicamente entre si através do plantio de "meia", seguindo critérios de afinidade, compadrio ou parentesco, mas via de regra ocorre a sobreposição de unidades domésticas e econômicas. Os casamentos entre primos de algum grau são comuns, mas não parece constituir-se numa preferência ou norma implícita, embora a prática de troca de membros através do matrimônio seja mais recorrente entre algumas famílias que em outras, não sendo difícil mapear a manutenção desta prática por quatro gerações seguidas. Essas famílias formam os núcleos endogâmicos mais evidentes que constituem hoje a base para a formação de unidades políticas distintas entre os Tumbalalá, ainda que a pertença a um núcleo político não seja regida criticamente por critérios fixos nem pelo parentesco, ressaltando a agência individual no momento da escolha.

A organização política, recém implantada, segue os passos da instituição das figuras líderes do cacique e do pajé. O papel da chefia, exercido pelo cacique, é válido para os assuntos que se referem aos interesses coletivos, mas não tem importância na esfera doméstica das famílias, atuando ele como um representante externo e principal articulador interno da mobilização coletiva, já que não há formalmente a figura de conselheiros.

Para entendermos a conformação política dos Tumbalalá através de seus grupos políticos é necessário compreender o papel que a atividade ritual do toré possui para eles. Enquanto um complexo culto dirigido aos encantados e organizador de relações e representações sobre o universo indígena do Nordeste, o toré forma hoje o núcleo denso da alteridade dos grupos indígenas desta região, além de ser o espaço principal de desenvolvimento de relações interétnicas. E foi exatamente através do espaço do toré que os Tumbalalá construíram sua história enquanto uma comunidade de identidade indígena distinta das demais vizinhas com as quais mantêm relações, focando neste ritual tanto o episódio da revelação da aldeia tumbalalá nos anos 40 pelos encantados, quanto o amadurecimento político do grupo e sua posterior mobilização coletiva ao fim dos anos 90 do último século.

Em suma, é o toré que vem facultando a participação dos Tumbalalá em circuitos regionais de trocas rituais e políticas que, por sua vez, permitiram a etnogênese tumbalalá enquanto fenômeno histórico marcado pela dupla comunicação interétnica e sobrenatural, domínios homólogos, já que os encantados que freqüentam as atividades rituais tumbalalá são também aqueles provenientes das aldeias dos grupos com os quais eles historicamente mantém relações, quando não são ex-lideranças destes grupos que "foram para o encanto", viraram encantados e continuam a desempenhar seu papel de conselheiros, agora no plano sobrenatural. Tamanha importância reservada ao domínio ritual faz com que os grupos políticos tumbalalá sejam melhor entendidos enquanto núcleos político-rituais, já que não se caracterizam nem pela formalização da autoridade exclusivamente política, nem pela oposição sistemática e rígida entre eles.

A rigor, há dois núcleos político-rituais que desenvolvem separadamente as atividades rituais nos terreiros de toré do São Miguel e da Missão Velha, mas cooperam politicamente entre si nas questões decisivas. O fato de serem abertos e não definidos dificulta a rotulação de facções para eles. São ainda desiguais em termos de prestígio e poder, tanto internamente quanto frente às agências e agentes de apoio com os quais os Tumbalalá travam relações. Sua estrutura política informal, gravitando em torno das figuras de suas respectivas lideranças, facilita o trânsito das pessoas entre eles, o afrouxamento nos critérios de pertença e o baixo nível de conflito.