Foto: Isaac Amorim Filho

Matis

  • Outros nomes
    Mushabo, Deshan Mikitbo
  • Onde estão Quantos são

    AM457 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Pano

A cerimonia dos Musha

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Os Matis, como vimos, também se referem a si mesmo como mushabo, “gente tatuada”, ou como wanibo, “gente da pupunha”, sem dúvida porque os espinhos utilizados para tatuar são obrigatoriamente aqueles da palmeira da pupunha. Deve-se acrescentar que musha também significa “espinho”.

As tatuagens matis, assim como as dos outros grupos Pano, são um poderoso denominador comum, pois o pertencimento a uma comunidade é definido precisamente pela existência das marcas faciais. Como as tatuagens apresentam apenas um único motivo gráfico, permitem que todos os Matis, independente de suas origens, se autodefinam como mushabo.

Desde as últimas décadas do século XX, os Matis deram uma nova significação aos seus ornamentos e, especialmente, às suas tatuagens; esta ligada à emergência de uma identidade coletiva “matis”. A reaparição do ritual dos musha em 1986, depois de um período de dez anos de abandono, estava relacionada com a afirmação de uma identidade distinta e oposta àquela dos nawa (os não-índios).

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Se a cerimônia da tatuagem dos jovens representa, sem dúvida, o eixo central em torno do qual se articula a vida ritual matis. Do ponto de vista do indivíduo, ela é, no entanto, uma etapa entre tantas outras do ciclo de formação da pessoa, que é visto como um processo contínuo e inscrito em uma duração que não se limita a sua vida física.

O ritual dos musha se caracteriza pela desmedida e pela distribuição de intensas atividades. Este pode durar até quinze dias e é sempre precedido por uma ou várias semanas durante as quais são realizados os preparativos da festa: os homens se encarregam de moquear a carne, já despidos de seus ornamentos habituais; e as mulheres, produzem a bebida e os potes novos indispensáveis para a cerimônia.

No decorrer da festa, ao invés de aparecer de modo isolado e momentaneamente, os mariwin, os espíritos ancestrais, aparecem em massa e durante todos os dias do ritual. À noite, ao invés de dormir, todos dançam dentro da maloca, imitando de maneira cômica os animais.

Enquanto dura a festa, todos se mobilizam e trabalham durante dia e noite, durante todos os dias. Pode-se fazer de tudo, menos se mostrar preguiçoso, chikeshek. Durante todo o período cerimonial, as drogas vegetais (tachik) e o estímulo físico ajudam a manter o ritmo e o descanso é (teoricamente) proibido. Para se livrar da tentação, as mulheres tiram suas redes desde o amanhecer até o crepúsculo. O repouso virá mais tarde, depois do momento culminante da festa: a tatuagem dos adolescentes (de ambos os sexos), que entram em período de reclusão (total durante cinco dias) que vai diminuindo gradualmente ao longo dos anos.

A tatuagem é feita com agulhas encharcadas de uma pasta negra, uma mistura de uma resina, mamon, de jenipapo, wisute, e de um composto obtido a partir da queima das folhas de nimen e de timpa (plantas não-identificadas). O processo, que é dito mais doloroso sobre a testa e a têmpora que sobre as bochechas, é vivido por meninos e meninas como uma prova difícil e perigosa, na qual se vê rostos ensangüentados, mas repletos de orgulho, pois provaram assim sua coragem para todos que ali estavam presentes e em particular para os anciãos, os mariwin. Estes últimos, ainda que estejam onipresentes ao longo de toda a cerimônia, não participam de modo direto do ato de tatuar, mas participam por meio de seus emissários metonímicos, os espinhos da pupunha e a resina mamon.

As tatuagens recém-feitas são bastante frágeis e exigem precauções. Depois da cerimônia, é preciso se banhar, dizem os Matis, para limpar o sangue dos ferimentos, e assim facilitar a fixação das marcas. Após a operação, não se pode sair da reclusão (durante os primeiros dias) a não ser em grupo e vestindo um chapéu bastante peculiar: para os meninos, o tukuru, para as meninas, o shaë.