Foto: Isaac Amorim Filho

Matis

  • Outros nomes
    Mushabo, Deshan Mikitbo
  • Onde estão Quantos são

    AM457 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Pano

Ornamentos faciais

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O contato perturbou inegavelmente a relação dos Matis com seus ornamentos. Alguns caíram em desuso, enquanto novos elementos foram incorporados e passaram a ser usados como adornos tradicionais, isto é, somente eram utilizados a partir de uma idade certa.

Os mais velhos se queixavam dos jovens que se pareciam às mulheres e aos nawa, não-índios. Antigamente, diziam eles, os adultos usavam todo o conjunto de ornamentos. Desde as últimas décadas, são raros aqueles que não abandonaram seu uso. No entanto, não é porque o ideal de ornamentação não é mais realizado que os Matis perderam a memória da ordem, descrita abaixo, dentro da qual os ornamentos devem ser adquiridos e acumulados.

 

A seqüência dos ornamentos

Os jovens matis sofrem sua primeira perfuração no lóbulo da orelha a partir da idade de quatro ou cinco anos. Em seguida, pode-se inserir uma vareta bem fina, o primeiro paut (“pingente de orelha”). Progressivamente, ao longo dos anos, o diâmetro dos paus de madeira vai aumentando até que se possa, assim que o buraco alcançar a medida de um dedo, substituir por um disco circular, chamado de tawa.

Alguns anos depois da perfuração da orelha, aproximadamente aos oito anos, perfura-se o nariz para introduzir o primeiro par de demush (“vibrissa”, pêlos que crescem na face de um mamífero), agulhas finas e pretas feitas das fibras de uma palmeira. Assim como na perfuração anterior, o processo continua durante vários anos. O número de demush aumenta até recobrir quase totalmente a narina (uma dezena em cada).

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A etapa seguinte consiste na abertura do septo nasal para inserir o pingente chamado detashkete. O princípio do alargamento progressivo continua, mas como no caso dos paut (“pingentes de orelha”), somente os homens alcançam o último estágio de substituição das varetas e introduzem o mais sofisticado detashkete, artefato feito de uma parte da concha dos moluscos gastrópodes.

Em seguida, no tempo da puberdade, chega o momento de furar o lábio inferior. As mulheres começam a usar o kwiot (“enfeite labial”), de madeira clara, na época dos primeiros relacionamentos sexuais e são bastante cuidadosas com ele. Inversamente, os homens dão menos atenção aos seus, que são bem menores. Os chefes de família geralmente usam mais o enfeite labial feito de madeira negra. Sem dúvida, os homens dão menos importância a esses enfeites, pois eles possuem um outro ornamento que é posto no lábio superior. Sabe-se que, para esse povo, o baixo é feminino e o alto, masculino (a rede do homem é sempre colocada em cima da da mulher).

Dois ou três anos depois do primeiro kwiot, algumas vezes antes, seguindo a periodicidade dos rituais, chega o tempo dos primeiros musha, as “tatuagens”: duas linhas paralelas sobre as têmporas e as bochechas são desenhadas na ocasião de um ritual, que é o momento culminante da vida cerimonial matis. No ritual, jovens de ambos os sexos são tatuados simultaneamente e de modo idêntico: o motivo é o mesmo para todos.

Entre os 16 e 20 anos, plenamente adultos, os homens furam o rosto, na área da covinha que separa a região maxilar e as bochechas. Depois disso é possível a introdução dos mananukit, varetas relativamente grossas e longas feitas de madeira de palmeira preta. Como no caso dos enfeites kwiot, o número de mananukit utilizado era bem maior do que o que há hoje em dia.

No decorrer da segunda cerimônia de tatuagem, cada jovem é tatuado com uma série de linhas paralelas (de seis a oito) na bochecha esquerda, e depois na direita. O número de linhas desenhadas sobre a bochecha não é o mesmo em cada lado do rosto.

Nota-se que ao longo de um mesmo ritual certos jovens são tatuados nas têmporas e na testa, enquanto os mais velhos são submetidos à operação nas bochechas. Os Matis insistem entretanto em uma diferença: a primeira operação (testa/têmporas) é mais dolorosa que a segunda (bochechas).

A aquisição gradual dos ornamentos vem pontuar, literalmente, as etapas do amadurecimento individual, segundo uma ordem pré-estabelecida. Não há nada de surpreendente com relação a isso, já que os Matis possuem uma visão bastante linear da existência – a qual é vista como uma sucessão de etapas pré-ordenadas, uma evolução progressiva em direção a uma velhice altamente idealizada.

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Os processos de amadurecimento e as questões de idade relativa possuem aqui uma grande importância, pois explicam que cada coisa deve vir a seu tempo: todo alimento, todo saber é igualmente hierarquizado. As carnes, por exemplo, são introduzidas progressivamente na alimentação; deve-se saber caçar com zarabatana antes de passar a caçar com o arco; deve-se saber fazer uma rede antes de aprender a fazer cerâmica etc. As técnicas e o saber devem ser adquiridos gradualmente; e a aquisição dos ornamentos não foge a essa lógica. Impostos segundo uma ordem pré-determinada, os ornamentos constituem classes de idade de fato, dando um contorno eminentemente concreto à predominância hieráquica que os Matis reconhecessem na senhoridade, sublinhando a importância que atribuem aos processos de amadurecimento e às questões de idade relativa.