Foto: Isaac Amorim Filho

Matis

  • Outros nomes
    Mushabo, Deshan Mikitbo
  • Onde estão Quantos são

    AM457 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Pano

Sho, a substância xamânica

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O sho é uma substância característica – e mesmo a fonte de poder – dos xamãs e dos homens importantes.

Ambivalente por excelência, essa substância apresenta aspectos ora positivos, ora nefastos. Em forma benéfica, transmite-se formalmente, durante rituais, ou “por contágio”, quando alguém se deita na rede de outrem, por exemplo. Da mesma maneira, o sho patogênico também pode ser enviado voluntariamente (por meio de pequenas zarabatanas), ou involuntariamente, pela exalação, por exemplo. Os Matis podem, portanto, imputar doenças aos brancos sem realmente culpá-los e buscar vingança.

Intimamente ligado ao sistema de sabores, o sho apresenta-se sob duas formas básicas: bata sho (doce) e sho comum, amargo (chimu). A forma doce, de essência feminina, protege, ao passo que a forma amarga, masculina é perigosa. Diz-se que estar doente ou sofrer é literalmente “ficar amargo”, chimwek.

Os “brancos” (nawa), que consomem muito sal (alimento bata), mas também muita pimenta-do-reino (alimento chimu), são conhecidos por seu forte teor em sho comum (chimu) – daí as epidemias de que são sabidamente responsáveis – e, principalmente, em bata sho – daí a sua relativa “imunidade” às doenças. Os Matis não conseguem o equilíbrio entre o bata e o chimu como os “brancos”, privilegiando o último.

Antigamente, com o intuito de melhorar suas proezas na atividade da caça e, principalmente, aumentar a eficácia de suas zarabatanas, os homens se abstinham, tradicionalmente, de todo alimento bata (comida doce, tal como mamão, abacaxi, cana de açúcar), mantendo um regime alimentar e um ritmo de vida regidos pelo signo do chimu. Este é um termo polissêmico que, além do amargo, designa a dor, o gume e outras qualidades extremamente valorizadas, mas cujo excesso provoca o sofrimento e a morte.

Os caçadores ingeriam vários tipos de substâncias amargas ou ácidas (pimenta crua, chás de cipós amargos, curare pësho, vários vegetais não identificados); injetavam o kampo, veneno de sapo emético sob a pele; introduziam líquido irritante (buchete) sob as pálpebras; açoitavam-se uns aos outros, em suma, cultivavam o picante e o amargo - o chimu. Seu teor em sho era máximo, o que os deixava orgulhosos e deveria torná-los melhores caçadores, mas, ao mesmo tempo, segundo a teoria indígena, expunha-os às doenças.

Tumi, o Matis considerado como tendo mais sho verdadeiro (chimu, “amargo”), foi para a cidade tratar e uma infecção benigna, muitos achavam que estava perdido, afirmando que não sobreviveria ao excesso de nawan sho (“sho dos brancos”, por demais doce/salgado). Sua mulher chorou lágrimas de luto por ele. Protegidas por uma alimentação bata, as mulheres, ao contrário, são consideradas menos ameaçadas pelos brancos, o que talvez explique seu papel preponderante nos primeiros contatos, colocando-se na dianteira, e muitas vezes, tomando a iniciativa do diálogo (CEDI, 1981: 85). De qualquer modo, o simbolismo matis aproxima, incontestavelmente, o bata do feminino e do estrangeiro e opõe esses termos ao chimu, ao masculino e ao endógeno [interno] (Erikson, 1990).

Talvez, desde a catástrofe demográfica ocorrida no início dos anos 80, a atitude dos Matis em relação ao sho tenha se modificado. Decidiram de comum acordo vetar totalmente e abandonar a maior parte das práticas destinadas a obtê-lo, pois todos achavam que era muito perigoso mantê-las.

Embora fossem centrais na vida cerimonial e ritual matis, certas práticas dolorosas, chimu, tiveram de ser abandonadas porque se percebeu que podiam tornar os jovens vulneráveis demais às doenças e à morte (Erikson, 1987). A pimenta-malagueta não foi mais plantada nas roças e colírio buchete deixou de ser usado. Os rituais em que os ancestrais açoitavam as crianças ou em que os adolescentes eram tatuados também caíram em desuso. O número de adornos enfiados na pele (espinhos labiais e nasais), também vetores de sho, foi reduzido como que para demonstrar que seus portadores já não podiam agüentar muitos deles.

Tudo o que diz respeito ao sho pode voltar-se contra as pessoas e, portanto, em caso de um infortúnio, são elas que se voltam contra o sho e os produtos destinados a obtê-lo. A geração anterior ao contato já havia abandonado o tabaco (ampushute) e os alucinógenos (kawaro). Depois da tragédia das epidemias, foi preciso moderar também o consumo de produtos amargos destinados ao aumento da caça. Dentre eles, sentiu-se mais falta, sem dúvida, do tachik, cipó do qual se obtinha uma bebida estimulante.

[De acordo com Hilton Nascimento, é notável que, nos últimos anos, algumas dessas práticas chimu voltaram a ter uso corrente entre os Matis. Esse é o caso da aplicação do colírio buchete; da “injeção” de kampo; do açoitamento de jovens e crianças; das visitas freqüentes dos mariwin às malocas, que ocorrem principalmente na época de abundância de milho; e do ritual de tatuagem. Com relação ao tachik, somente os mais velhos voltaram a usar, pois os mais jovens não mostram interesse em seu consumo - talvez por não se sentirem seguros em utilizá-lo constantemente].

Antes, os Matis procuravam isolar-se para preservar sua saúde e buscavam o contato com os “brancos” para conseguir sho amargo (cipó tachik e utensílios chimu) e ao mesmo tempo, evitavam o bata sho (que corriam o risco de contrair durante tais expedições).

Atualmente, preservam a saúde às expensas de seu isolamento, aceitando, ao contrário, instalar-se na órbita dos remédios da Funai.

Foi, claramente, o medo da morte e não o desejo de simplificar a vida que decretou o abandono do sho. Contudo, não há dúvida de que o desaparecimento brutal dos mais velhos, que poderiam encorajar os jovens a se submeter às regras necessárias à sua aquisição, favoreceu essa nova situação. Alguns adolescentes agora afirmam que os velhos não sabiam de nada, que o açúcar e o sal (alimentos bata) são bênçãos e que, nos dias de hoje, felizmente, as picadas de cobra já não são tão chimu como antigamente. Em compensação, alguns adultos jovens demonstram uma enorme nostalgia pelo passado, sentindo saudades de uma época em que, segundo afirmam, podiam caçar o dia inteiro e dançar a noite toda sem sentir o menor cansaço; época em que, graças ao sho, a caça não era tão rara quanto agora (a atual escassez da caça – inegável desde a sedentarização – ainda é relativa).

Se o excesso de sho continua a ser invocado quando tocamos na questão das epidemias, hoje fala-se de um outro fator: o cheiro dos cartuchos de dinamite utilizada na época pelos pescadores, que teriam causado, entre outros danos, a morte de todas as preguiças dos arredores.

De uma maneira geral, podemos também dizer que o sho espanta menos do que antes. É possível constatar hoje em dia que as injeções de kampo voltaram a ter uso corrente. Do mesmo modo, enquanto no final dos anos 80 se negava , hoje admitem que alguns homens têm sho e até poderiam, se quisessem, utilizá-lo em detrimento de outrem. Alguns caçadores já não hesitam mais em, novamente, armazenar vários potes de curare [veneno de caça]. Podemos dizer que o aumento demográfico está sendo acompanhado de uma certa retomada de autoconfiança.