Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil - Instituto Socioambiental
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Todos os direitos reservados. Para reprodução de trechos de textos é necessário citar o autor (quando houver) e o nome do Instituto Socioambiental (ISA). Sugerimos o seguinte formato: Autoria: Julio Cezar Melatti, Fonte: Instituto Socioambiental | Povos Indígenas no Brasil , , Acessado em: 24/10/2017. Para reprodução em sites, dar o crédito e o link da seção do site Povos Indígenas no Brasil da qual foi retirada o texto. A reprodução de fotos e ilustrações não é permitida.

Marubo

Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil

Julio Cezar Melatti
Universidade de Brasília  
juliomelatti@unb.br

dezembro, 1998

Introdução

Tal como acontece em sua cosmologia, em que novos entes são formados pela agregação ou transformação de partes de seres mortos e mutilados, o povo Marúbo parece resultar da reorganização de sociedades indígenas dizimadas e fragmentadas por caucheiros e seringueiros no auge do período da borracha. Mas esse movimento de dispersão e reagrupamento pode remontar a tempos mais antigos, como sugerem nomes de seções marúbo em outros povos pâno vizinhos.

Nome e língua

Conhecidos por este nome, os Marúbo o aceitam, embora não constitua uma auto-denominação, a qual não parece existir. Sua língua se inclui na família Pâno. O etnólogo Philippe Erikson, apoiado nas semelhanças lingüísticas e culturais dos Marúbo com os Katukína-Pâno, Nukiní (Rêmo) e Poyanáwa, do Brasil, e ainda com os Kapanáwa, do Peru, classifica o conjunto de suas línguas como o ramo central da família Pâno.

Dizem os Marúbo que sua língua é a dos Chaináwavo. Essa afirmação coloca algumas questões relativas a seu passado, pois Chaináwavo é o nome de uma das suas seções (ver adiante), hoje extinta. Como seção, os Chaináwavo não podiam viver isolados, pois tinham de se casar com membros de outra seção; e ainda haveria pelo menos mais duas seções junto das quais deveriam estar: a de seus pais e a de suas mães. Falaria cada uma dessas seções uma língua? Falariam essas quatro seções uma mesma língua, diferente das de outros agregados de seções? Seriam os Marúbo atuais resultado de uma fusão de vários agregados de quatro seções, cada qual falante de uma língua e que acabaram por adotar uma delas? Ou ainda, haveria uma situação semelhante à do noroeste da Amazônia, em que cada grupo exogâmico teria uma língua diferente?

A atual língua dos Marúbo também dispõe de uma contrapartida ritual. Nos mitos e nos cânticos de cura há um vocabulário paralelo, que substitui muitas das palavras de uso cotidiano. Nos discursos formais, trocados entre o dono da casa e o visitante em momentos especiais, as frases são entoadas com uma musicalidade diferente daquela das situações profanas.

Atualmente os jovens do sexo masculino podem se comunicar também em português. Os mais velhos, uma vez que a região foi explorada no passado por caucheiros peruanos, conhecem algumas palavras de quêchua e de espanhol.

Localização

Os Marúbo vivem no alto curso dos rios Curuçá e Ituí, da bacia do Javari, na Terra Indígena Vale do Javari, junto com os Korubo, Mayá, Matis, Matsés, Kanamari, Kulina Pano, entre outros povos isolados. É uma região cheia de pequenas colinas, com cimos não raro ligados por cristas entre si, coberta pela floresta amazônica.

Para atingirem os centros urbanos, ou descem esses rios, alcançando, nas proximidades da desembocadura do Javari no Solimões, Atalaia do Norte (onde fica a sede de administração regional da Funai que deles se incumbe), Benjamin Constant e a cidade colombiana de Letícia, ou então, no sentido oposto, cruzam o divisor de águas que os separa do Juruá, para chegarem a Cruzeiro do Sul, no Acre. Aliás, esta última é bem mais próxima das terras marúbo; porém, dada a necessidade de fazer a viagem parcialmente por terra, só pode ser alcançada com cargas leves.

Desde o estabelecimento dos primeiros contatos com as frentes extrativas de caucho e de seringa, no final do século XIX, os Marúbo estão na mesma posição geográfica. No começo do século, havia alguns deles no rio Batã, um afluente do Jaquirana, ou seja, o alto Javari; mas talvez aí estivessem como agregados de seringalistas. A criação de postos da Funai no médio Curuçá (perto da foz do rio Pardo) e no médio Ituí (destinado ao atendimento dos Matis), atraiu parte da população marúbo mais para baixo.

Demografia

O quadro abaixo dá uma idéia do crescimento da população marúbo ao longo do último quarto do século XX. Foi copiado, com adaptações, de levantamento do antropólogo Walter Coutinho Jr., que distribuiu os grupos locais em quatro setores, entre os quais existe um acentuado intervalo espacial:

a) no rio Ituí, logo acima da foz do rio Novo de Cima, próximo de um posto da FUNAI originalmente criado para a atração dos Matís;

b) no mesmo rio, acima da confluência com o Paraguaçu, até as cabeceiras, inclusive a concentração de malocas da sede missionária de Vida Nova;

c) no rio Curuçá, logo acima da foz do Pardo, onde estava um posto de atração, até uma concentração de grupos locais conhecida por São Sebastião, abaixo da foz do Arrojo;

d) no igarapé Maronal, afluente do alto Curuçá. A coluna referente ao ano de 1998 se deve a censo do etnólogo Javier Ruedas.

Rios

Setores

Anos

 

 

1975

1978

1980

1985

1995

1998

Rio Ituí

a) Foz do Rio Novo de Cima

21

26

65

114

88

b) Acima foz do Paraguaçu

227

253

254

289

344

380

Rio Curuçá

c) Entre fozes Pardo e Arrojo

91

66

53

86

133

182

d) Igarapé Maronal

141

110

116

149

204

231

 

Outros

10

12

5

23

37

Total

 

397

462

460

594

818

918

Em 2000, a população total era 1,043. Mas não há nenhuma especificação assim como as diferentes regiões relacionadas. Os casamentos interétnicos, com brancos ou índios de outras etnias, constituem uns poucos casos.

Histórico do contato

Pode-se dividir o contato dos Marúbo com os brancos em três fases. A primeira, a partir do final do século XIX, é marcada pelo contato com os peruanos que desciam os rios à procura do caucho, vegetal de terra firme que era derrubado para dele extraírem o látex, e com os brasileiros, que subiam os rios em busca da seringueira, árvore mais freqüente na várzea e, portanto, no baixo curso, que não era abatida, bastando fazer-lhe incisões no tronco para lhe coletarem a seiva. Parece ter sido um período de grande desorganização dos povos indígenas da bacia do Javari. Aplicava-se o sistema amazônico do aviamento, de adiantamento de artigos industrializados que deviam de ser pagos com produtos da floresta. Não era um comércio livre, pois cada rio era como que "propriedade" de um seringalista, que tinha junto a sua foz seu "barracão", isto é, seu armazém, seus funcionários administrativos e seguranças, que não permitiam aos seringueiros por aí passarem sem fazerem suas transações. Não eram apenas os índios os explorados: em 1900 o seringalista que dominava o rio Ituí reprimiu violentamente os seringueiros que dele tentavam fugir com a borracha. Integrantes da Missão Novas Tribos do Brasil, que começaram a trabalhar com os Marúbo em 1952, ainda encontraram entre eles notas de compras de 1906.

Entretanto, com a queda dos preços da borracha em 1912, a região começou a ser abandonada pelos empresários da borracha e pelos que para eles trabalhavam. Houve quem deixasse sua empresa para seu gerente, mas mesmo assim a retirada da população continuou. Apareceram aventureiros, que mantinham não somente o tipo de exploração até então imposta mas ainda acrescentavam a má fé nas relações com os índios. Até que os Marúbo se viram abandonados. Voltaram a viver isolados dos brancos, durante os anos 30 e 40. É provável que foi o tempo em que os Marúbo, então retraídos ao alto Curuçá, voltaram a se organizar, articulando os diferentes agregados de seções. Eles atribuem a João Tuxaua, falecido recentemente, a pregação e estabelecimento da paz no seio do povo marúbo. Foi essa a segunda fase da história do contato.

A terceira fase se inicia quando os Marúbo, na falta dos instrumentos de metal, que haviam se acabado, voltam a procurar os brancos, na direção sul, do rio Juruá. Estabelecem contato com o seringal de Boa Fé, na foz de seu afluente, o rio Ipixuna. Aí passam a trocar pélas de borracha e couros de animais silvestres por artigos industrializados. Essa relação atrai a Missão Novas Tribos do Brasil, que entre eles se estabelece.

Pouco mais tarde, madeireiros que subiam o Javari e seus afluentes também entram em contato com os Marúbo.

Como o transporte da madeira só podia ser feito rio-abaixo, como as pélas de borracha também eram mais comodamente transportadas em embarcação do que às costas, como os missionários acabaram por construir um campo de pouso junto ao rio Ituí e mantinham uma cantina, o contato com o Juruá perdeu o interesse, embora nunca tenha sido abandonado.

Se, por um lado, os Marúbo parecem ter resultado do apaziguamento e articulação dos remanescentes de alguns povos indígenas culturalmente semelhantes desorganizados pelo contato com os brancos, por outro, a mais conhecida das relações intertribais que mantiveram foi de caráter hostil com os Matsés, que, por volta de 1960 atacaram um pequeno grupo de indivíduos marúbo que procuravam ovos de tracajá nas praias do Curuçá, matando um homem e raptando três mulheres. Essa incursão provocou um revide dos Marúbo, que fizeram uma expedição que matou, asseguram, quatorze Matsés, com armas de fogo, pois já tinham restabelecido o contato com os brancos. Vários anos após terem sido os Matsés contatados pelos brancos, foi possível a duas das mulheres raptadas voltarem aos Marúbo, tendo a terceira provavelmente falecido.

A maloca

Quem chega pela primeira vez a um lugar habitado pelos Marúbo cometerá um engano se tentar estimar a população pelo número de construções. Na verdade, a única construção habitada é a casa oblonga que está no centro, no alto da colina, coberta de palha de jarina da cumeeira ao chão. Aí os moradores dormem, preparam alimentos, comem, recebem visitas, entoam cânticos de cura, assistem ao xamã. A maloca tem até um mito de origem, o do herói Vimi Peya, que aprendeu a fazê-la depois de viver um período no fundo das águas, com os jacarés. Apesar de cada exemplar variar no tamanho, a maloca é sempre feita da mesma maneira, com os mesmos encaixes e amarrações.

As construções que ficam ao redor, onde o declive se acentua, erguidas sobre pilotis, com assoalho e paredes de casca de paxiúba, teto de palha, servem mais como depósitos e são de propriedade individual. Geralmente, o que se guarda nos depósitos são itens adquiridos dos civilizados: ferramentas de ferro, armas de fogo, panelas de alumínio, cabos de aço para amarrar toros de madeira, tigelinhas de lata para látex, faca de fazer incisão no tronco de seringueira, roupas e tecidos, máquinas de costura e outros.

As roças se estendem a partir da colina onde se ergue a maloca, para os vales e colinas vizinhas. Notam-se várias tonalidades de verde conforme os vegetais cultivados: nas partes altas, nas cristas que ligam as colinas, de um e de outro lado dos caminhos, há faixas de mandioca e mamoeiros; nas depressões, milho e bananeiras.

A maloca abriga várias famílias elementares sob a liderança do dono da casa. Este, como qualquer outro homem, pode estar casado também com uma ou mais irmãs de sua esposa. Com ele pode morar o irmão de sua esposa, filhos casados ou sobrinhos (filhos da irmã) casados com suas filhas. Cada mulher e seus filhos ocupam o espaço quadrado, de mais ou menos três metros de lado, marcado por quatro pilares da casa, dois centrais e dois laterais, onde dispõem suas redes, erguem um pequeno jirau para guardar objetos, alguns metidos nas palhas da parede, e mantêm um fogo de cozinha no lado desse quadrado voltado para o centro da maloca. O homem que tem mais de uma esposa pode estar ora no espaço de uma, ora no de outra. O dono da casa costuma ter uma rede em um canto junto à porta principal. Os dois compridos bancos que fazem um corredor pelo qual deve passar quem entre por essa porta servem de assento aos homens da casa nas duas refeições diárias, uma antes de sair para as atividades do dia e outra ao retornar, nas conversas noturnas, quando tomam rapé e ayahuasca, e assistem a sessões xamânicas. As mulheres comem no centro da casa sentadas em esteiras sobre o chão. Junto à porta dos fundos há no chão um tronco escavado, de uns três metros, como um cocho, onde as mulheres trituram grãos e frutos com ajuda de uma pedra chata retangular. Na ausência dos homens, algumas mulheres se aproximam das portas, as únicas entradas de luz, para furar pedacinhos de conchas de caramujos de que fazem contas para diferentes pendentes e colares.

Três elementos parecem marcar a maloca como uma unidade social: cada qual tem seu "dono" (aquele que promoveu sua construção), seu trocano (instrumento de percussão constituído de um tronco de madeira com uma cavidade retangular profunda) e faz seus convites para refeições e ritos.

Entretanto, como notou o etnólogo Javier Ruedas, malocas próximas entre si têm-se articulado, nos últimos anos, em unidades mais amplas. E são esses conjuntos maiores, cada qual com seu nome em português e seu líder geral, que interagem com as agências externas, como Funai, Fundação Nacional de Saúde, Médicos sem Fronteira, Conselho Indígena do Vale do Javari e outras.

As seções

Os Marúbo se dividem em dezoito seções, grupos que reúnem parentes por linha feminina de gerações alternadas. Embora os Marubo prefiram pensar em termos dessas seções, para nós é mais fácil agrupá-las duas a duas, tomando cada par como um clã matrilinear. Em outras palavras, o sistema de seções opera entre os Marubo com no seguinte exemplo: uma mulher pertencente à seção "Gente da Arara Vermelha" dá à luz filhos e filhas da seção "Gente da Saracura"; as filhas dela, por sua vez, voltarão a gerar filhos e filhas da seção "Gente da Arara Vermelha"; e assim as gerações irão se alternando ao longo do tempo. A "Gente da Saracura" não pode se casar com a "Gente da Arara Vermelha".

Os termos de parentesco se aplicam segundo essa alternância de gerações. Um integrante da "Gente da Saracura" tem sua mãe na "Gente da Arara Vermelha", e chamará de "mãe" a todas as outras mulheres desta seção, sejam elas mais velhas ou mais novas que ele, sejam da primeira ou da terceira geração acima ou abaixo da dele. Existe um termo de parentesco, take, que uma pessoa aplica a qualquer membro de sua própria seção, de um ou de outro sexo. Entretanto, mesmo se usar para com eles de termos menos inclusivos, há de se notar que eles se aplicam a parentes de mais de uma geração. Assim, o termo para "irmã mais velha" é usado também para referir-se à avó materna, enquanto o para "irmã mais nova" também pode ser aplicado, por uma mulher, à filha de sua filha.

Os nomes pessoais são transmitidos geralmente dentro da mesma seção, de avó materna ou suas irmãs para a filha da filha e de avô paterno (que nem sempre é da mesma seção) ou seus irmãos para o filho do filho.

Dizem os Marúbo que o casamento preferível é com a filha do koka, categoria que inclui os tios maternos ou os sobrinhos sororais mais velhos do que aquele que emprega este termo. Os koka de um homem "da "Saracura" pertencem à "Gente da Arara Vermelha", e as filhas desses koka são de outras seções.

Há dois aspectos que devem ser ressaltados no casamento marúbo:

a) um homem, ao casar-se com uma mulher, se torna pretendente também das irmãs dela, que vêm a se tornar suas esposas ou dos irmãos dele; a intromissão de algum outro que não faça parte desse grupo de irmãos, ou de sua seção, é vista com hostilidade;

b) parece haver uma certa ascendência de um homem sobre os irmãos mais novos de sua esposa, o que por vezes contribui para constituir o núcleo em torno do qual se forma um grupo doméstico - o dono da casa com sua(s) esposa(s), secundado pelo irmão dela(s) e sua(s) esposas(s) - ou equipes de extração de madeira.

Distinções de idade e de gênero

Os ritos de passagem de idade não são muito evidentes, mas parece haver uma distinção entre os homens quanto ao uso do rapé e da ayahuasca, pois, mesmo que já sejam casados e tenham filhos, só passam a fazê-lo depois de uns trinta anos. Antes disso, limitam-se a servir os mais velhos dessas substâncias.

Além de ocupar de modo diferencial os espaços da maloca, homens e mulheres se distinguem quanto à participação nas atividades produtivas, cabendo aos primeiros a derrubada da mata, o aceiro da roça, a abertura das covas das bananeiras com os bastões de cavar, a caça, a confecção de canoas, trocanos, banquinhos, cochos-pilão. Cânticos de cura e xamanismo, atividades a que não podem faltar o tabaco e a ayahuasca, são da alçada dos homens.

Às mulheres cabem o cuidado das roças, a colheita da banana e da macaxeira, a confecção de cerâmica, das maqueiras (redes de dormir de malhas largas) de tucum, das saias justas de algodão. Também a cozinha, notável pela variedade e elaboração dos pratos, bem como a ordem e ocasião apropriada de sua apresentação. Elas dedicam uma boa parte de seu tempo à confecção de contas de caramujo aruá, de que fazem os colares, pendentes, talabartes, indispensáveis ao modo de bem se apresentar dos Marúbo. A pintura corporal, tanto a de caráter estético como a de finalidade mágica, é feita pelas mulheres.

Atividades de subsistência e comerciais

A clareira para as novas roças é aberta coletivamente pelos homens da maloca e depois dividida entre as famílias elementares, que plantam os três vegetais básicos na alimentação - o milho, a macaxeira (aipim) e a banana - além do mamão, goiaba, bem como os destinados a outras finalidades, como o tabaco, a urtiga, o algodão. Uma vez que os vegetais têm ciclos diferentes, a roça produz por muito tempo: o milho tem crescimento rápido, sendo colhido três meses após o plantio; a macaxeira leva pelo menos um ano para dar suas raízes; as bananeiras, uma vez colhidos os primeiros cachos, deixam brotos que produzirão outros mais. O mamoeiro dura alguns anos. Talvez o vegetal cultivado de ciclo mais longo seja a pupunheira, que só ganha altura após ter sido a roça abandonada e produz seus frutos por muitos anos. À medida que novas roças se fazem necessárias, elas vão sendo abertas em locais mais afastados da maloca. Mas não é apenas a distância das roças que leva à construção de outras: a deterioração das palhas da cobertura e a impermeabilização do teto pela fuligem provocada pelos fogos de cozinha, que impede a fumaça de sair, também são outras razões, além da morte do dono da casa, pelo menos no passado.

As caçadas, hoje feitas com armas de fogo, incidem sobretudo sobre o macaco preto (Ateles sp.?) e o barrigudo (Lagothrix sp.), as duas únicas espécies de primatas que consideram comestíveis. Também é freqüente o caititu (Tayassu tajacu), mais raros a anta (Tapirus terrestris), o porco-queixada (Tayassu pecari). No período menos chuvoso não é difícil o caçador voltar com uma paca (Cuniculus paca). Dentre as aves, são freqüentemente abatidos o cujubim (Pipile sp.) e o mutum (Crax sp.).

A pesca individual se faz com anzol, e a coletiva, com ajuda de um entorpecente cultivado, cujas folhas são pisadas com terra em buracos, de modo a se fazerem pequenas bolas com a mistura, que são dissolvidas na água.

A estação menos chuvosa, de maio a setembro, sujeita a eventuais "friagens" (períodos de cerca de três dias de queda acentuada de temperatura), é o tempo de extrair o látex das seringueiras, tendo cada homem adulto seu tapiri para defumar a borracha e suas "estradas" (caminhos que, saindo do tapiri e a ele retornando, ligam as seringueiras). A estação chuvosa é o tempo de extrair madeira. Esses dois produtos florestais são negociados com os comerciantes embarcados, os "regatões", que ora freqüentam ora não as malocas marúbo, dependendo do rigor com que a Funai proíbe seu acesso. Os missionários também mantêm uma cantina em Vida Nova porém não compram borracha nem madeira. Embora vendam seus artigos a preço de custo, fazem-no a troco de dinheiro, o que os Marúbo só conseguem com o trabalho para os próprios missionários, que não têm muito a oferecer. Por isso, os Marúbo têm de recorrer aos comerciantes embarcados ou procurar as cidades.

O cosmos

É pela mitologia que os Marúbo descrevem o Universo e contam como se formou. De um modo geral, os seres são sempre feitos de partes de outros seres, a começar pela superfície terrestre, composta de partes moles dos corpos de animais mortos, enrijecidas pelos seus ossos. Também a água dos rios e os seus peixes são feitos a partir de outros seres, bem como os vegetais da floresta. Do mesmo modo surgiram as plantas cultivadas, segundo um dos três diferentes mitos que contam sua origem. O Universo se compõe de várias camadas, as superiores chamadas céus e as inferiores, terras. É na terra que está acima das demais, a da Névoa, que vivem os seres humanos.

Os humanos têm várias almas, que, entretanto, podem resumir-se a duas: a da direita ou do coração e a da esquerda. Após a morte, a última fica vagando por esta camada, mas a outra é encaminhada para o Caminho da Névoa (Vei Vai), que percorre, passando por muitas provas ou perigos, aos quais não pode sucumbir, sob pena de aí ficar para sempre, até chegar ao lugar onde vivem as almas de membros de sua seção. Aí tem sua pele trocada por Roka (macaco parauacu), e passa a uma vida farta, saudável e feliz. O termo que designa o céu onde se faz essa troca é o mesmo aplicado ao parente a quem se dá o nome: shokó.

Os Marubo surgiram do chão, cada seção de um buraco diferente, estimulada por algo que acontecia na superfície: queda de folhas, penas, pingos de seiva. Isso aconteceu junto ao estuário mitológico aonde vão ter as águas dos rios que conhecem. Daí foram subindo ao lado do rio, até chegarem à região onde hoje vivem. Ao longo desse percurso foram aprendendo sua cultura: qual a pupunha comestível, qual a secreção de perereca mais apropriada para eliminar a preguiça e o panema, como ter relações sexuais, a proibição do incesto, os termos de parentesco, a maneira adulta de chorar, as plantas cultiváveis, os cânticos de cura, os nomes pessoais. No início os vivos podiam ir e vir por um caminho chamado Yové Vai até o Shoko Nai. Porém, uma mulher maltratada pelo marido conseguiu de certos espíritos o fechamento desse caminho e a abertura do Vei Vai. Isso acabou separando definitivamente os humanos comuns dos espíritos yové.

Ritos

Aqueles donos de maloca que granjearam prestígio pelo seu modo de agir comedido e pacífico, que promovem festas e a paz e são procurados como conselheiros merecem o título de kakáya.

Talvez os ritos menos formais e freqüentes sejam as refeições e as festas de beber, para as quais uma maloca convida os vizinhos, quando há de carne de caça de sobra ou macaxeira, milho ou pupunha disponíveis. Mais elaborada e mais rara é a festa Tanaméa, em que a maloca anfitriã limpa os caminhos até as malocas convidadas, e abre algumas clareiras para nelas receber com bebida os convidados que se aproximam. A entrada destes na maloca anfitriã é agressiva, escavando o pátio externo e destruindo as palhas das paredes. Em compensação, os moradores da maloca podem tomar dos convidados os enfeites que trazem.

Anualmente se realiza em cada maloca a festa da colheita do milho, em que a aplicação de urtigas ou de picadas de tocandeira nos homens e as brincadeiras que imitam as diferentes fases da atividade venatória de modo a propiciar os resultados da caçada coletiva predominam sobre boa parte do rito.

O transporte de novo trocano desde a mata, onde foi confeccionado, até o interior da maloca constitui também uma ocasião ritual. O pesado instrumento é amarrado ao centro de um longo tronco, cujas extremidades os homens colocam aos ombros. Os carregadores, apoiados em bastões, além de terem de andar pelo caminho escorregadio, enlameado pelas chuvas, devem suportar também as cócegas que lhes fazem as mulheres que os classificam como maridos.

No que tange ao ciclo de vida, o rito mais visível é o funerário, que no passado envolvia a cremação, a pulverização dos ossos e sua ingestão pelos parentes dentro de um alimento pastoso, seguido do desfile com partes do corpo do morto no sentido de ajudar a sua "alma do coração" a encontrar o caminho das provas post-mortem. Atualmente, o cadáver é envolvido na sua rede e levado pelas pessoas que mantém com o defunto as relações mais distantes para o cemitério, bem afastado da maloca, onde é depositado numa sepultura, sobre a qual se constrói um pequeno tapiri.

Magia

Os ritos que mais freqüentemente se realizam estão no âmbito da magia e se apresentam sob duas formas: os cânticos de cura e as sessões xamânicas. Qualquer homem maduro se sente na obrigação de entoar os primeiros, sentado com outros em banquinhos em torno da rede do doente, quando este é um parente próximo. Mas há reconhecidos especialistas nesses cânticos, os kenchintxô ou "curadores". São cânticos que duram pelo menos quarenta e cinco minutos, repetidos ou substituídos por outros a intervalos pelo número de vezes que a gravidade do mal o exigir.

Antes de cantar pela primeira vez e nos intervalos, os curadores bebem ayahuasca e tomam rapé. Têm uma seqüência padronizada: uma introdução narra como se formou o espírito da doença, constituído de partes de diferentes seres; uma narrativa de como a doença entrou no enfermo; a invocação de seres e qualidades que entram no corpo do enfermo para combatê-la, entre os quais tem papel preponderante o espírito feminino Shoma; e a recuperação do doente. Uma outra maneira de entoar cânticos de curar é sobre um pote de mingau cujo conteúdo será depois consumido por aqueles que desejam os efeitos esperados. Também sobre um pote é possível entoar cânticos maléficos, sendo o conteúdo aplicado secretamente na pessoa que se deseja enfeitiçar.

Freqüentes também são as sessões xamânicas, mas somente nas malocas onde vivem um dos poucos xamãs marúbo (na década dos oitenta não passavam de três), chamados romeyá ou "pajés". O xamã, quando vai atuar, começa a tomar rapé e ayahuasca a partir das sete horas da noite, junto com os homens que constituem a assistência, todos sentados nos compridos bancos da entrada da maloca. Por volta das onze horas da noite, o xamã, agora numa rede pendurada junto à porta, recebe o primeiro espírito; e assim vai recebendo sucessivamente outros espíritos até por volta das cinco da manhã, quando termina a atividade. Cada espírito que o xamã recebe utiliza-se do corpo deste para falar, conversar, dançar.

Enquanto isso ocorre, a alma do xamã visita a maloca onde vive o espírito, depois que caminhar por um dos vários caminhos cósmicos. A sessão xamânica não tem um fim meramente de curar doentes ou achar coisas perdidas, como alguns espíritos se dispõem a fazer. É um ato de comunhão com seres de caráter benevolente, os yové, de outras camadas do cosmos, que gratifica, apóia, ensina e até diverte os homens que estão junto ao xamã, e as mulheres e crianças, que o escutam de suas redes.

Nota sobre as fontes

O registro da etnografia marúbo teve início com Delvair Montagner e Julio Cezar Melatti, que realizaram vários períodos de pesquisa de campo nos anos 70 e 80. A classificação das doenças e dos remédios pelos Marúbo e seus ritos de cura foram abordados na tese de doutorado de Montagner, defendida na Universidade de Brasília, e resumida posteriormente no livro A Morada das Almas, publicado pelo Museu Goeldi. Os artigos publicados por essa pesquisadora tratam também dos adornos, da cerâmica e da culinária marúbo. Os artigos de Melatti abordam questões relativas a parentesco, mitologia e contato interétnico. Ele redigiu ainda o capítulo sobre os Marúbo no volume Javari, publicado pelo CEDI, entidade hoje incorporada ao Instituto Socioambiental. Os dois pesquisadores escreveram juntos artigos referentes à construção e simbologia da casa e aos cuidados com as crianças.

Um relatório pessoal de Terri Valle de Aquino e outro, aprovado pela presidência da FUNAI, de Walter Coutinho Jr., referentes à identificação e a delimitação da Terra Indígena do Vale do Javari, trazem dados substanciais sobre os problemas marúbo com respeito à terra, à saúde, educação, comércio, demografia.

Mais recentemente Delvair Montagner tem-se dedicado à elaboração de vídeos. Assessorou o vídeo Marubo, de Nilson Araújo, que dá uma idéia geral do modo de vida desse povo, e dirigiu Meninos Nus, sobre as crianças indígenas, e Passado Presente, depoimentos de três mulheres raptadas pelos Matsés, entre as quais uma marúbo.

Duas novas pesquisas sobre os Marúbo estão em andamento: uma, sobre as relações políticas internas, por Javier Ruedas, doutorando da universidade norte-americana de Tulane; a outra, sobre música, por Guilherme Werlang Couto, doutorando da universidade escocesa de Saint Andrews.

O Pastor John Jansma se dedica ao aprendizado da língua marúbo desde os anos 60, com o fim de traduzir de textos bíblicos, pregar o evangelho e elaborar de cartilhas de alfabetização. Com pesquisa de caráter mais acadêmico, Raquel Costa está elaborando uma tese de doutorado sobre a língua marúbo.

Fontes de informação

  • COSTA, Raquel Guimarães Romankevicius. Case marking in Marubo (Panoan) : a diachronic approach. Santa Barbara Papers in Linguistics, Santa Barbara : UCSB, v. 10, 2000.

 

  • --------. Padrões rítmicos e marcação de caso em Marubo. Rio de Janeiro : UFRJ, 1992. 287 p. (Dissertação de Mestrado)

 

  • COUTINHO JÚNIOR, Walter. Relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Vale do Javari : GT Portarias n. 174/95 e 158/96. Brasília : Funai, 1998. 159 p.

 

  • COUTO, Guilherme Werlang da Fonseca Costa. Emerging peoples. s.l. : Univers. of St. Andrews, 2001. (Tese de Doutorado)

 

  • ERIKSON, Philippe et al. Kirinkobaon kirika ("Gringos' Books") : an annotated panoan bibliography. Amerindia, Paris : A.E.A., n. 19, 152 p., supl., 1994.

 

  • GAUDEDA, Natália. A origem da maloca. s.l. : s.ed., 1996.

 

  • LIMA, Edilene Coffaci de. Katukina, Yawanawa e Marubo : desencontros míticos e encontros históricos. Cadernos de Campo, São Paulo : USP, v. 4, n. 4, p. 1-20, 1994.

 

  • MELATTI, Júlio Cezar. Enigmas do corpo e soluções dos panos. In: CORREA, Mariza; Roque de Barros (Orgs.). Roberto Cardoso de Oliveira : homenagem. Campinas : Unicamp, 1992. p. 143-66.

 

  • --------. Marubo. In: MELATTI, Júlio Cezar (Coord.). Javari. São Paulo : CEDI, 1981. p. 36-59. (Povos Indígenas no Brasil, 5)

 

  • --------. A origem dos brancos no mito de Shoma Wetsa. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, n. 84, p. 109-73, 1985.

 

  • --------. Os padrões Marubo. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro ; Fortaleza : UFCE, n. 83, p. 155-98, 1985.

 

  • --------. Shoma Wetsa : a história de um mito. Ciência Hoje, Rio de Janeiro : SBPC, v. 9, n. 53, p. 56-61, mai. 1989.

 

  • --------. Wenía a origem mitológica da cultura Marubo. Brasília : UnB, 1986. 101 p. (Série Antropologia, 48)

 

  • MONTAGNER, Delvair. A morada das almas : representações das doenças e das terapêuticas entre os Marúbo. Belém : MPEG, 1995. 132 p. (Coleção Eduardo Galvão)

 

  • --------. O mundo dos espíritos : estudo etnográfico dos ritos de cura Marubo. Brasília : UnB, 1985. 601 p. (Tese de Doutorado)

 

  • --------. Mani Pei Rao : remédio do mato dos Marubo. In: BUCHILLET, Dominique (Org.). Medicinas tradicionais e medicina ocidental na Amazônia. Belém : MPEG ; Cejup, 1991. p. 463-90.

 

  • --------. Simbolismo dos adornos corporais Marúbo. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, n. 31, n.s., p. 7-41, 1986.

 

  • MONTAGNER, Delvair; MELATTI, Júlio Cezar. A criança Marubo : educação e cuidados. In: ALENCAR, Eunice Soriano de (Org.). A criança na família e na sociedade. Petrópolis : Vozes, 1982. p. 38-51. (publicado originalmente na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília : Mec-Inep, n. 143, p. 291-301, 1979).

 

  • --------. A maloca Marúbo : organização do espaço. Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, n. 29, p. 41-56, 1986.

 

  • --------. Relatórios sobre os índios Marúbo. Brasília : UnB, 1975. (Série Antropologia, 13)

 

  • RICCIARDI, Mirella. Vanishing Amazon. Londres : Weidenfeld and Nicolson, 1991. 240 p.

 

  • Marubo : uma tribo na Amazônia. Dir.: Nilson Araújo. Vídeo Cor, Betacam, 27 min., 1991. Prod.: CPCE

 

  • Meninos nus. Dir.: Delvair Montagner. Vídeo Cor, Betacam/Betacam SP, 9 min., 1995. Prod.: CPCE

 

  • Pau-Brasil. Dir.: André Luís. Vídeo Cor, HI-8 e U-Matic, 5 min., 1992. Prod.: CPCE

 

  • Pintura corporal : uma pele social. Dir.: Delvair Montagner. Vídeo Cor, HI-8/Betacam SP, 20 min., 1994. Prod.: CPCE

 

  • Yoranawa : gente de verdade. Dir.: André Luís. Vídeo Cor, HI-8 e Betacam SP, 17 min., 1993. Prod.: CPCE; Cosai; Ministério da Saúde