Foto: Kimiye Tommasino, 2000.

Kaingang

  • Outros nomes
    Guayanás
  • Onde estão Quantos são

    PR, RS, SC, SP45.620 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística

Cosmologia e mitologia

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A dispersão de grupos kaingang pelos campos e matas de seu território tradicional não impediu e não impede que estes índios reconheçam um sistema cosmológico comum. Efetivamente, ainda hoje os grupos kaingang, além de um registro mitológico comum, compartilham crenças e práticas acerca de suas experiências rituais – o profundo respeito aos mortos e o apego às terras onde estão enterrados seus umbigos são expressões incontestáveis do valor estruturante da cosmologia para estes índios.

Poucos são os estudos que se dedicam exclusivamente à analise dos mitos kaingang. Há, no entanto, referências recorrentes aos mitos coletados por Borba (1882), Nimuendajú (1913) e Schaden (1956). O primeiro registro da mitologia kaingang devemos a Telêmaco Borba, que publicou, em 1882, o mito de origem do povo kaingang e o mito da origem do milho. O primeiro narra a história dos irmãos mitológicos Kamé e Kairu que, após o grande dilúvio, saíram do interior da serra Crinjijimbé. “Em tempos idos, houve uma grande inundação que foi submergindo toda a terra habitada por nossos antepassados. Só o cume da serra Crinjijimbé emergia das águas. Os Caingangues, Cayrucrés e Camés nadavam em direção a ela levando na boca achas de lenha incendiadas. Os Cayrucrés e os Camés cansados, afogaram-se; suas almas foram morar no centro da serra...” Depois que as águas secaram, os Caingangues se estabeleceram nas imediações de Crinjijimbé. Os Cayrucrés e Camés, cujas almas tinham ido morar no centro da serra, principiaram a abrir caminho pelo interior dela; depois de muito trabalho chegaram a sair por duas veredas” (Borba 1908:20-21).

Embora Telêmaco Borba tenha convivido por muitos anos com os Kaingang da região Norte do atual Estado do Paraná – o que lhe permitiu o registro de mitos e histórias  bem como a elaboração de um pequeno dicionário da língua kaingang – ele, acompanhando seus contemporâneos do século XIX, não reconheceu a existência de um sistema de metades entre estes índios.

Nimuendajú (1913) foi o primeiro a afirmar que os Kaingang estão articulados através do reconhecimento de um sistema de metades. Diz ele: “Telêmaco Borba não compreendeu bem esta divisão em dois clãs (...) A divisão em Kañeru e Kamé é o fio vermelho que passa por toda a vida social e religiosa desta nação..” (Nimuendajú 1993[1913]:60). A divisão em metades Kamé e Kairu, o fio vermelho a que se refere Nimuendajú, aparece no mito de origem através da trajetória dos irmãos mitológicos Kamé e Kairu. São estes heróis culturais que dão o nome às metades kaingang, são eles que, no transcorrer do mito, criaram os seres da natureza. “Kanyerú fez cobras, Kamé, onças. Este fez primeiro uma onça e a pintou, depois Kanyerú fez um veado. Kamé disse à onça: ‘Come o veado, mas não nos coma’. Depois ele fez uma anta, ordenando-lhe que comesse gente e bichos. A anta, porém, não compreendeu a ordem. Kamé repetiu-lhe ainda duas vezes em vão; depois lhe disse, zangado: ‘Vais comer folhas de urtiga, não prestas para nada!’. Kanyeru fez cobras e mandou que elas mordessem homens e animais” (Nimuendajú 1986:87).

Os irmãos mitológicos KaméKairu não apenas criaram os seres da natureza, mas também as regras de conduta para os homens, definindo a fórmula de recrutamento das metades (patrilinearidade) e estabelecendo a forma como as metades deveriam relacionar-se (exogamia). “Chegaram a um campo grande, reuniram-se aos Kaingang e deliberaram casar os moços e as moças. Casaram-se primeiro os Kairucrés com as filhas dos Kamés, estes com as daqueles, e como ainda sobravam homens, casaram-se com as filhas dos Kaingang” (Borba 1908:22).

O dualismo expresso no mito de origem kaingang, conforme analisado à luz da contribuição de Nimuendajú, apresenta duas propriedades classificatórias fundamentais. Em primeiro lugar, o dualismo Kamé e Kairu oferece um sistema de classificação abrangente, totalizante – os seres da natureza, incluindo os homens, possuem a marca das metades e carregam valores a elas associados, tais como: forte/fraco, alto/baixo,  ímpeto/persistência. Em segundo lugar, o dualismo kaingang, em seu registro mitológico, oferece uma fórmula de organização social através do estabelecimento de regras de descendência e de casamento.

Tanto na versão do mito de origem coletada por Borba, quanto naquela coletada por Nimuendajú, a complementaridade entre os irmãos mitológicos Kamé e Kairu é explícita: os Kamé trabalhavam durante o dia para fazer os animais que pertencem a esta metade, os Kairu, inversamente, trabalhavam à noite; o sol pertence a metade Kamé, a lua à metade Kairu. Não obstante, a complementaridade esteja efetivamente expressa nos episódios do mito de origem, há momentos desta narrativa que apontam para a assimetria, para uma relação hierárquica entre as metades. Em primeiro lugar, Kamé foi o primeiro a sair do interior da terra após o dilúvio – esta é uma característica importante para o desenrolar da experiência ritual, como veremos adiante. Em segundo lugar, os episódios que envolvem a criação dos animais apresentam Kamé e Kairu com diferentes poderes. Para combater o ming (a onça ou tigre, como dizem), criado por Kamé:“Kairucré estava fazendo outro animal; faltava ainda a este os dentes, língua e algumas unhas, quando principiou a amanhecer, e, como de dia não tinha poder para faze-lo, pôs-lhe às pressas uma varinha fina na boca e disse-lhe: Você, como não tem dente, viva comendo formigas - ; eis o motivo porque o Tamanduá, ioty, é um animal inacabado e imperfeito”(Borba 1882).

Kairu, neste mito, é desastrado em suas tentativas de imitar Kamé, o resultado de sua criação é inacabado e imperfeito. No caso da criação dos animais, não se trata de uma oposição complementar, ou de uma simples inversão, mas de uma oposição que avalia de forma desigual as criações de Kamé (perfeitas e perigosas) e de Kairu (imperfeitas e inacabadas). Caso em confronto, as criaturas Kamé saem vencedoras – mais uma vez, os Kamé saem na frente.

Complementaridade e assimetria são características expressas nos mitos kaingang. Narrativas atualizadas empregam esta fórmula para tratar de temas do catolicismo popular. A perfeição contraposta à imperfeição aparece como eixo organizador das narrativas sobre figuras do cristianismo (como os santos católicos ou como São João Maria do Agostinho, o Monge do Contestado). Além de uma fórmula comum, as versões atualizadas dos mitos kaingang apresentam, sempre, a participação de animais que, como nos mitos de origem, pensam, falam e agem como os humanos.