Foto: Paulo França, s/d

Huni Kuin (Kaxinawá)

  • Autodenominação
    huni kuin
  • Onde estão Quantos são

    AC10.818 (Siasi/Sesai, 2014)
    Peru2.419 (INEI, 2007)
  • Família linguística
    Pano

Atividades produtivas

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Trabalhos femininos

A culinária Kaxinawá é bem diversificada. Um mingau é feito pelas mulheres amassando grandes quantidades de banana madura e doce para o mingau - mani mutsa; prepara a macaxeira, às vezes com a folha verde da macaxeira amassada ou com nawanti ou xiwan, folhas do mato com gosto parecido com a chicória, um pouco ácido, ou ainda com amendoim tostado e moído, ou mesmo sem condimento. Ela cozinha também banana verde, e, se tiver milho, faz caiçuma (mabex) de milho tostado e moído, com ou sem amendoim.

Quando um dos homens da casa chega da caça, as mulheres queimam o pelo do animal e cortam-no na hora. Algumas partes são assadas, outras fervidas. No caldo são misturadas várias ervas, um tipo de coentro, um tipo de asafroa, um tipo de gengibre (xawaxuanti, xiada), pimenta (yutxi), às vezes urucum (maxe), outras não identificadas e sal. O peixe pode ser assado quando é grande, mas geralmente é preparado em caldo, ou quando miúdo, assado numa folha de bananeira com cogumelos. Outro prato da culinária Kaxinawá é beten, uma pasta feita de farinha (dudu) de milho, macaxeira ou banana assados e moídos, misturada com o caldo e a carne de caça pequena e, se tiver, palmito.A cozinha Kaxinawá é laboriosa e exige várias horas de trabalho por dia. As meninas entre oito e doze anos participam nas tarefas menores da cozinha, como descascar macaxeira ou cuidar do fogo, tendo que deixar os nenês com as irmãs menores. Outra tarefa comum para as meninas desta idade é pegar água no poço.

Além de preparar, durante o dia, a refeição para o final da tarde, a mulher vai diariamente ao igarapé, com seus filhos, sua mãe e uma ou duas das suas irmãs com seus respectivos filhos (meninos somente até a idade de sete anos; depois desta idade eles tomam banho com os homens no rio). As mulheres lavam as roupas, enquanto as crianças brincam na água.

Cada dois ou três dias a mulher vai, com outras mulheres que têm roçados vizinhos ao seu, colher banana e macaxeira. A mulher derruba a bananeira com alguns cortes de seu machado, depois de tirar o cacho. Para tirar a macaxeira, corta a planta, solta a terra ao redor da raiz com o machado, e tira com a mão, cuidando para não quebrá-la na metade. Depois de tirar as raízes ela corta dois pedaços e 15 cm do caule da planta, que enterra (este tipo de plantio não se chama bana, é plantar de novo, kaban); as folhas são levadas para casa para servir de condimento. Outros vegetais, como batata, inhame e outros tubérculos dependem da estação e não fazem parte da alimentação básica.

O plantio do amendoim é o único feito por homens e mulheres juntos. Normalmente o plantio é feito pelos homens e a colheita pelas mulheres. Outras exceções a esta regra são o algodão, o urucum e o feijão, que são plantados pelas mulheres. O plantio do amendoim na praia é uma festa. A metade da aldeia vai; crianças, homens e mulheres. Depois de limpar o terreno, os homens, em linha reta, enfiando um amendoim em cada buraco. Durante o trabalho canta-se os pakadin para o amendoim.

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Além do roçado, da roupa e da cozinha, a mulher trabalha o algodão. Cheguei quando algodão já tinha sido colhido e assisti aos processos de secar ao sol, abrir, bater, fiar, tingir e tecer. Nas semanas de trabalho feminino coletivo, todas (ou quase todas) as mulheres da aldeia aparecem de madrugada na casa da mulher cujo algodão será fiado neste dia. O tratamento preparatório do algodão terá sido feito antes por cada mulher individualmente ou com as mulheres de sua casa. Num dia é fiado todo o algodão de uma casa. Nestas semanas outras atividades ficam quase paradas, dependentes do desempenho das meninas. As mulheres explicaram-me que este ritmo puxado não era legal, que era para a venda senão o fariam com mais calma.

As txipax (adolescentes iniciadas) participam da atividade coletiva somente depois de terem aprendido em casa a arte de fiar. “Senão as outras riem”. Kensinger (antropólogo que trabalhou junto aos Kaxinawá nos anos 1950 e 60) diz que na época que aprende a fiar a txipax não come arraia (Kensinger, 1981).

Outra atividade feminina é o fabrico de cesto (txuxan), abanos (paiati) e esteiras (pixin). São cestos de uso doméstico: uns para guardar e servir comida, outros, grandes e abertos, para colocar o algodão, e outros ainda para guardar coisas pessoais: agulhas, fios, brincos, pasta de urucum, perfume, etc. Os motivos usados nestes cestos, têm o mesmo nome de alguns dos motivos usados na rede e na pintura facial e corporal.

Nem todos os cestos, porém, são feitos pelas mulheres. Os kakan, para transportar lenha, e o kuki, para transportar banana e macaxeira, ambos os modelos grandes, para pendurar na testa e carregar nas costas, são feitos pelos homens, apesar e usados pelas mulheres. O kunpax é uma cesta provisória, feita de folhas, no lugar onde a caça foi achjada pelo caçador. E o bunanti é uma caixa redonda de folhas de cana brava (hewe tawa) feita pelos homens para guardar suas penas.Os Kaxinawá fazem uma distinção fundamental entre “plantado” e “da mata”. Esta distinção aplica-se também ao material do qual o cesto é feito: “cesto que homem faz é com cana brava, que pega na mata; mulher só trabalha com cana plantada”. A mulher e para seu uso interno: “mulher não faz cestos para o uso externo da mulher e para seu uso inter

no: “mulher não faz o cesto para homem guardar suas penas de jeito nenhum. Não pode!” (Antônio).

Há uns vinte anos, a cerâmica ainda fazia parte das tarefas freqüentes da mulher e do aprendizado da menina. Agora as panelas de barro foram substituídas por panelas de alumínio. “Panela de alumínio é mais leve e não quebra”, é o argumento, “mas é caro e nunca é tão grande quanto a panela que a gente usava antigamente para fazer caiçuma. Não é bom para festa, panela assim tão pequena” (Maria D.).

Trabalhos masculinos

A principal atividade aprendida pelos meninos é a caça. Em 1955 Kensinger (1975:28) encontrou os Kaxinawá usando somente arco e flecha. Em 1963 todo mundo já estava usando espingarda, mas sempre com o arco ao lado. Era comum ver meninos, a partir de dois anos de idade, exercitarem-se com arco e flecha, feitos no tamanho deles pelo pai ou txai (avô materno). Vi poucos meninos com arco. Mas os velhos continuam levando arco e flecha nos seus passeios pela mata e cada casa tem seus arcos e os três tipos de flechas. Em muitas casas, os homens dividem uma espingarda. Vi um caso onde três homens usavam a mesma espingarda, porque um dos três tinha trocado a sua por um toca-discos.

Quando um menino chega na idade de oito ou nove anos ele começa a acompanhar o pai na caça. Somente depois da iniciação, o bedunan (adolescente iniciado) pode se aventurar sozinho ou na companhia de um irmão ou cunhado. A caça tem mais segredos que a pontaria e o olhar agudo. O rapaz aprende a observar os hábitos de cada tipo de animal, a reconhecer seus rastros (kene), a imitar os gritos e assobios.

Quando o rapaz aprende a caçar certo tipo de animal, deixará de comê-lo durante o período desta iniciação específica. O caçador também deve evitar comer a carne da parte inferior do animal: a cabeça é o melhor, mas não se come a cabeça do animal que se matou, somente a cabeça que o txai lhe dá. O aprendiz não come da primeira caça que matou, senão ficará panema; e somente depois de ter matado um animal grande, anta, veado ou queixada, ele é considerado um caçador de verdade. Nesta ocasião ele é espargido com o sangue do animal que matou (Kensinger, 1975: 29).

A sorte na caça é crucial para o prestígio, e as causas da falta de sorte nem sempre são claras. Por isso, existem muitos remédios (dau) e práticas ritualizadas para conseguir a condição de marupiara (bom caçador). O arco (kanu) é tratado com certa reverência: “Só mulher feliz pode tocar no arco”. Depois de ter morto uma caça grande, o caçador costumava passar o sangue do animal no arco; “com espingarda a gente não faz isso”.

Antes do plantio a terra é brocada (derrubada da vegetação) e queimada, ambas as atividades feitas em grupo. A derrubada é um confronto direto com os yuxin da floresta, por isso nesse processo são dados gritos de guerra, os homens se pintam com urucum (vermelho é a cor dos yuxin da floresta), e cheiram rapé para ficarem mais fortes e corajosos. Enquanto os homens tocam fogo e gritam, com os rostos pintados de vermelho, uns cem metros afastados do lugar, as mulheres cantam para os yuxin, que lhes dêem fogo forte e roçados abundantes. Depois é oferecido um jantar coletivo com muita comida.

A maior parte das técnicas de pesca pertence igualmente ao domínio do homem. Os Kaxinawá usam dois tipos de timbó: a folha puikama e a raiz sika. O mais usado é o puikama, um arbusto plantado cujas folhas e flores colhidas pelas mulheres e amassadas pelos homens num pilão que serve somente a este fim. Desta pasta são feitas bolas (tunku) de um quilo que são guardadas em bolsas impermeabilizadas com borracha, ou em cestos cobertos com folhas de bananeira.

É este tipo de pesca feita também pelas mulheres. Quando as mulheres e avós da casa preparam uma pequena expedição com seus filhos, elas amassam uma quantidade para duas ou três bolas no pilão e vão até um igarapé pequeno. As bolas são diluídas (mutsa) na água e o veneno tem um efeito quase instantâneo sobre os peixes que, intoxicados, começam a pular e surgem à superfície. Crianças, velhos e mulheres andam na água com puçá e batem com força na água (kuxawe!:bate), pegam os peixes maiores com a mão, o que exige certa agilidade.

A pesca no lago é mais arriscada e feita somente por grupos de homens, e é utilizada a sika uma raiz altamente venenosa capaz de matar. O lago é o habitat de muitos animais e yuxin poderosos: o jacaré (kape), a anaconda (dunuan), a piranha (make), o yuxin kudu, monstro da água e o kuxuka, o boto, “que chora como gente, tem cara de gente, é gente, yuxin”.

A pesca com anzol era tradicionalmente feita pelos Kaxinawá. Mesmo antes do contato com os não-índios o anzol era cortado da junção do cúbito e do rádio do tatu, e a linha de pesca de envira.

No tempo que os Kaxinawá habitavam as terras mais altas e afastadas dos rios, a pesca era uma atividade secundária se comparada com a caça. Hoje em dia, porém, a pesca é tão importante quanto a caça e igualmente apreciada. O jacaré (kape), caçado de canoa no rio durante a noite (de lua nova ou minguante, por que a lua cheia – uxe badi: lua sol- ilumina demais) com bin (lanterna de caucho) e, quando tem pilha com nawan bin (lanterna), é uma carne muito apreciada assim com a carne mole e oleosa da arraia.

A coleta de frutos silvestres pode ser feita pelas mulheres, ou, se for preciso contar ou subir numa árvore, pelo homem, sua mulher e alguns filhos. Assim acontece com a coleta de açaí (pana), patoá (isa), sapota (itxibin), jaci (kuti), aricuri (xebum), bacaba (pedi isan) e palmito. Outros frutos são comidos quando encontrados no caminho: xena e xakapei: tipos de feijão silvestre que cresce em cipó, com uma polpa branca e doce ao redor das sementes. Comi também uma fruta de cor laranja (bumpe) e a fruta do murmuru (panikwa), além dessas existem outros frutos e cogumelos diversos que são coletados.

Os homens trazem frutas para casa geralmente quando não conseguem matar nada. O cacau é uma fruta muito apreciada. Não se usa a semente, somente a polpa branca e doce ao seu redor. O homem traz também o jenipapo, que as mulheres precisam para preparar a tinta para a pintura corporal.

Quanto a produção de borracha, os Kaxinawá produzem muito menos do que os seringueiros que vivem da borracha com dedicação exclusiva. Para os Kaxinawá do Purus (o que é diferente no Jordão e no Envira) a borracha só serve como pequena fonte de renda para, de vez em quando, poderem comprar munição ou sal quando passar um marreteiro (o que não é muito freqüente). A maior fonte de renda em Cana Recreio e em Moema é a tecelagem das mulheres. É com a venda de redes e capangas em Rio Branco, que a liderança abastece a cantina da comunidade.