De Povos Indígenas no Brasil

UMA FOTO, UMA HISTÓRIA | Cacique Babau Tupinambá

"Nós temos que ensinar a eles que o não é o complemento do sim"

por Cacique Babau Tupinambá

Cacique Babau Tupinambá segura imagem da repressão policial ocorrida nas manifestações dos 500 anos do descobrimento, no ano 2000. Foto: Luiza Calagian/ISA, 2017.
Cacique Babau Tupinambá segura imagem da repressão policial ocorrida nas manifestações dos 500 anos do descobrimento, no ano 2000. Foto: Luiza Calagian/ISA, 2017.


<link href="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/css/player.css" rel="stylesheet" type="text/css"/> <script src="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/js/soundcite.min.js" type="text/javascript"></script>

Nos anos 2000, os povos indígenas não festejaram 500 anos de Brasil. Enquanto o governo federal armava as comemorações pelo “descobrimento” no sul da Bahia, mais de 4500 indígenas, apoiados por quilombolas e pelo movimento negro, marchavam até Santa Cruz Cabrália, na Bahia, para protestar por seus direitos e contestar a história oficial. A repressão veio a galope, no simbólico dia 22 de abril.

Este verdadeiro vexame é lembrado por Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau Tupinambá, um dos participantes do movimento “Brasil: Outros 500” e liderança do povo Tupinambá, no sul da Bahia. Olhando a foto, Babau relembra o contexto político de dezessete anos atrás e reflete sobre os tempos atuais: para ele, as coisas só pioraram de lá pra cá. 

"Continua a mesma coisa, né? Piorou! Veja bem, essa foto foi do momento em que se ia fazer a comemoração em Porto Seguro e nós estávamos no movimento Brasil: Outros 500. Porque os quinhentos anos que se consolidaram ali, foram quinhentos anos de repressão e violação dos direitos indígenas no país. Nós não tínhamos nada a comemorar, mas sim pedir um novo quinhentos, diferente. Mas o amanhecer do dia da marcha se iniciou com bombardeio em cima de nós, porque o Fernando Henrique [Cardoso] estava em Porto Seguro fazendo um evento e disse que a gente 'poderia atrapalhar'. E aí, lá de Coroa Vermelha em direção a Porto Seguro, era helicóptero jogando bomba, polícia atirando de todos os lados. Teve todo tipo de ataque. Depois os índios resolveram desistir e ir embora. Mas ficou aquele ranço até hoje. 

Foi Fernando Henrique, entrou o governo de Lula e não mudaram tanto os ataques. Com Dilma também não; até o Exército foi mandado para as áreas [indígenas]. E ontem [25 de abril de 2017] vocês viram o ataque de tiros e bombas [em frente ao Congresso Nacional]. Ou seja: é um país que diz que é democrático mas não dialoga. Ou dialoga - que é exatamente o que aconteceu aqui [na foto] - desde que você concorde com ele. 

O Congresso Nacional e o Governo brasileiro querem dizer: 'Vamos ouvir os índios - desde que eles digam sim. Se disserem não, então não queremos ouvir'. É alguém que só tem um ouvido só. Só pro sim. Eles não aceitam um não de jeito nenhum. Então, nós temos que ensinar a eles que o não é o complemento do sim, que você pode ter direito de gostar ou não para você ter domínio sobre a sua existência. E isso aqui, essa foto, diz mais ou menos isso. 

O índio diz: 'Bom. Eu não posso ir. Ninguém pode me recuar, eu vou deitar, vou ficar deitado aqui. Passem por cima, mas nós estamos aqui'. Ficamos. E a luta continua. E nós continuamos retomando. 

E o Congresso querendo retirar direitos. Porque é um país que só quer sim - sim, sim, sim. A gente tem que dizer não para várias coisas. Não a abrir as portas do nosso país para que os outros explorem. Não à violência que é praticada governamentalmente contra a sociedade brasileira e contra os povos indígenas. 

Por que eles não dizem sim à preservação ambiental? Por que eles não dizem sim à construção de um país solidário, um país mais harmônico, com mais divisão de renda? Por que eles não dizem sim a essas coisas? Pra isso aí eles não querem comentar. Eles não dizem não, nunca vão dizer não! Mas eles também não comentam, porque só vale o sim deles.

E eles não dizem que o índio não tem direito à terra. Eles falam assim: 'Nós precisamos melhorar a legislação indígena! Precisamos evoluir! Nessa evolução, nós vamos discutir as demarcações' - para retroceder. Mas eles não dizem claramente que vão tirar. Então, me digam... é um fascismo, não? Nós vivemos num país fascista com um governo fascista. E isso é o que representa esta foto. 

E quando a gente grita por direitos - índios, negros, sem terra, sem teto -, leva bomba na cabeça. Porque o dinheiro está com eles. Com todos os impostos que nós pagamos, eles podem se armar e não gastar nenhum conto do bolso pra nos atacar. Essa é a realidade. 

Eu sou o cacique Babau Tupinambá, da aldeia Serra do Padeiro, sul da Bahia."

O depoimento acima é parte da série “Uma foto, uma história” e foi registrado em 2017 durante o 14º Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF), por Luiza Calagian, Mario Brunoro e Rafael Monteiro Tannus.

Saiba mais sobre o povo Tupinambá

UMA FOTO, UMA HISTÓRIA | Anna Terra Yawalapiti

<link href="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/css/player.css" rel="stylesheet" type="text/css"/> <script src="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/js/soundcite.min.js" type="text/javascript"></script>

A imagem de uma mulher indígena fazendo frente a um cordão policial durante o 14º Acampamento Terra Livre, em frente ao Congresso Nacional, viralizou nas redes sociais em abril de 2017: foram mais de 6000 compartilhamentos no Facebook, alcançando mais de 100 mil pessoas. A mulher em questão era Anna Terra Yawalapiti.

Filha do chefe Pirakumã Yawalapiti, que faleceu em 2016 e é lembrado como uma das prestigiosas lideranças do Parque Indígena do Xingu (TIX), Anna Terra repetiu, inconscientemente, o gesto de seu pai durante a Mobilização Nacional Indígena de 2013, clicado pelo fotógrafo André D’Elia.

Neste depoimento sobre a fotografia de Pirakumã, ela conta o que viveu em 2013, quando o líder pedia calma aos policiais após ter sido agredido com cassetetes e spray de pimenta, revela o que a moveu na direção dos policiais na mobilização de 2017 e explica a importância do diálogo para a política xinguana.

Anna Terra Yawalapiti segura imagem de seu pai, Pirakumã Yawalapiti, no ano de 2013. Foto: Mario de Brunoro/ISA, 2017

Anna Terra Yawalapiti segura imagem de seu pai, Pirakumã Yawalapiti, no ano de 2013. Foto: Mario de Brunoro/ISA, 2017

“A única arma que eu tenho é a minha boca”

por Anna Terra Yawalapiti

“A gente sempre foi parceiro em todos os lugares: na cidade, na aldeia. Eu estou nessa por causa dele; ele que me puxou por esse caminho. Aqui foi o dia que ele levou também spray de pimenta, mas ele era muito guerreiro, ele não fugiu. Ele levou spray, mas ficou ali. E essa imagem, ela... penso nesse dia... Ali deixou de ser somente pai para mim. A partir dali, comecei a ver ele como meu guerreiro, meu protetor, meu cacique. O nosso embaixador do Xingu.

Eu estava junto, porque se for para ele morrer, eu também vou morrer junto do meu pai. Eu não vou fugir e deixar ele sozinho. Uma vez, também, aconteceu na aldeia que nossa casa pegou fogo e ele foi salvando as coisas. Ele queria ser o último, a última pessoa a sair. Eu fiquei com ele e ele me mandava embora: ‘Vai embora, vai embora!’. E eu: ‘Não pai, eu vou ficar aqui. Só vou embora se você sair’. Quando ele viu que a casa estava desabando e que eu não ia embora, ele saiu. Mas a gente sempre foi companheiro. Quando ele era vivo, sempre fomos. Essa imagem marcou muito para a gente, para a família, até agora. A gente tem esse banner até hoje, e com ele que eu carrego toda a esperança. Eu sinto que ele está comigo através desse banner.

Essa imagem pra mim significa a força indígena: a gente nunca vai desistir. Que nem ontem... Eu fui, não porque eu queria aparecer. Se for pra morrer, eu vou. Quando eu percebi que uma das meninas do nosso grupo não tinha voltado do local, a responsabilidade estava na minha mão e eu voltei. Foi um momento tão rápido, que eu não estava com aquela ideia de ir lá e parar aquilo. Aquilo tudo veio do desespero de pensar que uma das meninas do nosso grupo estava ali. Ou estava na água, ou então tinha sido levada para dentro. Assim aconteceu. Quando vi, já estava ali conversando com eles. Nem parei pra pensar que eles poderiam jogar gás de pimenta, bomba, sei lá… [fazer] qualquer coisa comigo. Não parei. Eu só fui chegando, fui gritando, pedindo para eles pararem. Quando fui ver eu já tava lá.

Nós, os povos do Alto Xingu, entre nós, não temos essa cultura de guerrear. Somos nove etnias. A nossa governança sempre foi através de diálogo. A gente nunca anda com arco e flecha, com faca... a gente não faz isso. A gente vai na mata, assim, só se for para caçar. Se for para pegar algum remédio, a gente leva um facão só para tirar um remedinho mesmo. Mas a gente nunca andou armado, nem nada disso. Então, a gente geralmente usa só o diálogo para poder resolver as coisas.

Ele e o Raoni [Metuktire] sempre fizeram um diálogo com policiais, com autoridades, para permitirem que todos os índios entrassem naquele local. Então, é o que eu usei também. Eu falei: ‘A única arma que eu tenho é a minha boca’. Agora... a gente já teve vários diálogos com eles. Até nós, que somos mansinhos, também já estamos começando a ficar com raiva. Então, se for pra gente guerrear, a gente não vai desistir não! Não é uma pimentinha no olho que vai fazer a gente desistir”.


O depoimento acima é parte da série “Uma foto, uma história” e foi registrado em 2017 durante o 14º Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF), por Letícia Leite, Mario Brunoro e Rafael Monteiro Tannus.

== UMA FOTO, UMA HISTÓRIA | Crisanto Xavante ==


<link href="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/css/player.css" rel="stylesheet" type="text/css"/> <script src="https://cdn.knightlab.com/libs/soundcite/latest/js/soundcite.min.js" type="text/javascript"></script>

Nos anos 1970 e 1980, o povo Xavante, conhecido por suas longas andanças pelo Cerrado, começou um novo movimento: ir a Brasília, a recém-fundada capital federal, pressionar o Estado pela demarcação de suas terras. A perseverança de seus caciques em retirar as fazendas que invadiam as terras Xavante levou à demarcação de dez áreas: à época da foto, na década de 80, seis já haviam sido reconhecidas: Areões, Pimentel Barbosa, São Marcos, Sangradouro, Marechal Rondon e Parabubure.

Seguindo seus tios, caciques de seu povo, Crisanto Xavante é um dos que repete, até hoje, essas viagens rumo a Brasília - agora, para garantir que os direitos indígenas, conquistados por outras gerações, não sejam destruídos. Nesse depoimento, ele comenta a imagem e a história de Celestino na luta pela Terra Indígena Parabubure, relembra sua própria trajetória no movimento indígena e explica a importância de dar atenção à realidade das aldeias.

Do povo Xavante, Crisanto segura a fotografia do cacique Celestino, em uma das primeiras idas dos Xavante a Brasília. Foto: Luíza Calagian, 2017 <p style="text-align: right;">Do povo Xavante, Crisanto segura a fotografia do cacique Celestino, em uma das primeiras idas dos Xavante a Brasília. Foto: Luíza Calagian, 2017

“Xavante foi um símbolo de deixar o protocolo”

por Crisanto Xavante

“O cacique Celestino representa para nós essa busca de um objetivo impossível que virou possível: desapropriar uma vila já constituída, a Fazenda Nova Xavantina. Lógico que, olhando ele, me vêm outras lideranças: o cacique Aniceto, o cacique Damião, que retomou Marãiwatsédé.

Eles representam muito para nós, porque o cacique Celestino está com essa borduna e o cacique Mário Juruna já usava, naquele período, um objeto moderno, o gravador. E o Damião é a junção de tudo isso: o conhecimento que ele aprendeu na aula com os missionários salesianos, que começa sua saga desde São Marcos até hoje a Marãiwatsédé.

Acho que, quando se trata dos Xavante - sem desmerecer nosso grande líder Raoni [Mektutire], Alvaro Tukano, Ailton Krenak, que foram da Constituinte também -, Xavante foi um símbolo de deixar o protocolo. Quando eu falo protocolo, não é sair igual o [ex-]presidente Lula abraçando. Não. Protocolo de lei mesmo. Essa turma chegava dizendo: ‘Nós queremos nossa terra’; ‘Esse presidente da Funai que é general não serve para nossa causa, não entende a nossa realidade’.

Tem uma história com o Ministro do Interior da época, que era um general. O tio Mário [Juruna], tio Celestino, cacique Aniceto - são todos primos - ouviram que eles eram empecilhos ao desenvolvimento nacional, da pecuária, ao avanço das cidades. Eles então abriram a porta do Ministério, no Rio de Janeiro, e disseram:

‘Como que é? Gravamos isso aqui. Você tá dizendo que somos empecilho? Vocês chegaram da Europa! Vocês são invasores. Nós queremos apenas nosso pedaço de terra, que vocês não estão deixando ser área contínua. São Marcos significa o que pra você? Parabubure significa o que pra você? Vocês estão colocando a gente em ilha! Nós queremos nosso sossego, nossa cultura preservada, continuar diferente’. Então é isso que nós representamos.

Pras lutas modernas, vou falar um pouco de mim. Aos meus 23 anos fui vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), levei um dossiê Cinta Larga na Organização dos Estados Americanos (OEA), não consegui chegar na Organização das Nações Unidas (ONU), mas me dediquei nesses 14 anos ao movimento indígena. Agora estou um pouco afastado, olhando mais em casa. Porque não adianta fazer verão lá fora se em casa estão passando fome, não sabendo se defender.

Então eu estou vindo aqui como qualquer um. Não penso em subir no palco, fazer carta. Se me chamarem, eu vou, ajudo, mas, por enquanto, o foco é na aldeia. Queremos que as crianças se recuperem, que os Xavante não sejam notícia como um povo que está morrendo de fome. Nós estamos tentando resgatar tudo isso gradativamente. 

E a gente vê indo embora de uma hora pra outra nossos direitos. Estão acabando com nossos órgãos indigenistas, tanto na área social, como na fundiária e na saúde. Então essa é a razão desse acampamento, dessa presença massiva de cada povo do Brasil inteiro [em Brasília]”. 

O depoimento acima é parte da série “Uma foto, uma história” e foi registrado em 2017 durante o 14º Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF), por Luíza Calagian, Mario Brunoro e Rafael Monteiro Tannus.

 



</p>