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Lençol freático está ameaçado

30/10/2005

Fonte: CB, Cidades, p. 30



Lençol freático está ameaçado
Ocupações irregulares, poluição e exploração inadequada da água subterrânea do DF aceleram contaminação das reservas e expõem população a doenças. Existem cerca de 8 mil poços irregulares em toda a região

Helena Mader

Coliformes fecais, agrotóxicos, benzeno ou chorume. Os riscos de contaminação do lençol freático aumentam com a proliferação de poços irregulares e a exploração indevida das águas subterrâneas. Os recursos hídricos ocultos no subsolo do Distrito Federal correm perigo e os abusos expõem a população a doenças. Os danos ao meio ambiente desenham um prognóstico assustador. A longo prazo, o uso indevido de cisternas e poços também pode comprometer o abastecimento de água em todo o DF.
Lençol freático é o reservatório natural de água subterrânea que se acumula entre as rachaduras das rochas. A água de rios, lagos e principalmente da chuva infiltra no solo e reabastece o lençol. Essa recarga é essencial para a manutenção dos recursos hídricos. Mas a extração de água subterrânea no Distrito Federal acontece em um ritmo muito mais acelerado que a capacidade de reposição. De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, existem cerca de 8 mil poços irregulares no DF. Apenas 20% das cisternas em funcionamento têm licenciamento e autorização do poder público.
Para o gerente regional do Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Ibama), Francisco Palhares, o número de reservatórios de água subterrânea pode chegar a 16 mil. Ele explica que o tipo de solo de Brasília facilita a contaminação do lençol freático. "O solo tem rachaduras geológicas que permitem uma contaminação bem mais profunda. Se o chorume dos aterros sanitários alcançar o subsolo, por exemplo, substâncias tóxicas podem se alastrar pelas águas subterrâneas", explica Palhares.
Além da exploração sem critérios do lençol freático, outro fator contribui para o desgaste dos recursos hídricos. Com o crescimento populacional acelerado, várias regiões foram ocupadas sem o aval de órgãos ambientais. Condomínios horizontais se alastraram por áreas de preservação, à beira de córregos e mananciais. O asfalto e o concreto impedem que a água da chuva infiltre no solo e recomponha o lençol freático. Dessa forma, o nível de águas subterrâneas está cada vez mais baixo.
A média anual de precipitação no Distrito Federal é de 1,5 m, mas apenas 12% da água das chuvas infiltra no solo e serve como recarga das fontes. "Há poucos anos esse percentual era bem mais expressivo. Com o adensamento populacional e a impermeabilização do solo, a quantidade de água que infiltra no solo e recarrega o lençol freático é cada vez menor", explica o professor da UnB e especialista em hidrogeologia Elói Campos.
Bombeamento
Em Planaltina, cidade que se destaca pela produção de grãos, os agricultores usam a água bombeada de poços, córregos ou do rio Jardim para irrigar as plantações. Além de colocar em risco o sistema de recarga de aqüíferos, o trabalho dos produtores também oferece riscos de contaminação das águas subterrâneas. Os agrotóxicos e pesticidas usados no combate às pragas chegam ao leito do rio e ao lençol freático. Com o desenvolvimento da agricultura, as matas ciliares e a vegetação próxima aos córregos foram retiradas, o que deixa os recursos hídricos ainda mais vulneráveis. O trabalho dos agricultores está colocando em risco o meio ambiente da região. Para evitar que os danos se estendam e prejudiquem o bioma, uma equipe da Embrapa Cerrados começou a medir o nível do lençol freático da área e a quantidade de substâncias tóxicas nas águas subterrâneas. Os pesquisadores querem saber se os defensivos agrícolas já contaminaram os mananciais e se o uso indiscriminado de poços teve reflexos no lençol.
A equipe da Embrapa faz medições mensais da altura da lâmina de água em poços subterrâneos de diferentes profundidades. "Ainda não constatamos uma oscilação considerável no nível de água do lençol freático. Mas, para evitar que os danos ambientais cresçam, vamos começar a desenvolver um trabalho de educação ambiental com os produtores da região a partir do ano que vem", explica a bióloga Lucília Parron, coordenadora do projeto.

Regiões ricas desperdiçam
O desperdício de água acontece não apenas em áreas abastecidas por poços subterrâneos. As regiões mais ricas do Distrito Federal, abastecidas por redes adutoras, consomem água muito acima da média recomendada por organismos internacionais. Quem usa água para lavar carros, calçadas ou encher piscinas contribui para o esgotamento dos recursos hídricos. Um morador do Park Way consome em média mil litros de água por dia, valor 10 vezes superior ao consumo per capita no Paranoá. No Lago Sul, o consumo é cinco vezes maior do que o aconselhado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Sérgio Augusto Ribeiro, da WWF, explica que o consumo é diferenciado de acordo com fatores sócio-econômicos. "Toda a sociedade deve repensar o consumo d'água para evitar o desperdício e minimizar os riscos de desabastecimento no futuro", explica Sérgio.
A WWF fez um levantamento da situação das bacias do Distrito Federal e constatou que a maioria dos rios que cruzam a região está sofrendo com erosões, impermeabilização, despejo de esgoto e desmatamento.
A bacia do Rio Preto é a que tem a menor porcentagem de vegetação nativa e já apresenta impactos visíveis da produção agropecuária e da agricultura extensiva. Na bacia do Paranoá, os danos ambientais são causados pela instalação de condomínios horizontais e pela contaminação das águas. O estudo da ONG mostrou que a bacia do Rio Samambaia é a mais atingida, com 95% de área antrópica e grande quantidade de pivôs centrais, que irrigam a produção de agricultores. O levantamento mostrou que é preciso diminuir ao máximo as fontes de pressão sobre os recursos hídricos e restaurar o meio ambiente.

Quase 100% das cisternas sob suspeita
A perfuração de poços artesianos sem critérios técnicos ou autorização dos órgãos competentes coloca em risco o meio ambiente e a saúde da população. A contaminação do lençol freático por substâncias tóxicas ou coliformes fecais é uma realidade em locais onde não há redes de abastecimento. A proximidade de fossas sépticas e cisternas é um perigo constante.
De acordo com o professor da UnB e especialista em hidrogeologia Elói Campos, quase 100% dos poços rasos no Distrito Federal têm indícios de contaminação. "O ideal é que haja sistema de coleta de esgoto onde há utilização de poços artesianos ou rede de abastecimento de água onde há fossas sépticas. É recomendável fazer a desinfecção periódica de poços e cisternas", aconselha o especialista.
Elói Campos explica que o risco de contaminação de águas subterrâneas é decorrente de fatores como a topologia da área e a ocupação populacional. Em áreas de borda de chapada, por exemplo, o perigo de que substâncias poluentes cheguem às águas subterrâneas é muito maior. O declive do terreno contribui para que as substâncias se espalhem com mais facilidade. Locais planos são mais propícios à concentração de líquidos e à conseqüente infiltração no solo.
De acordo com uma pesquisa realizada pela equipe do especialista, os locais de Brasília onde há maiores riscos de contaminação de águas profundas são aqueles onde o abastecimento é feito exclusivamente por poços profundos. Sobradinho II, expansões do Gama e de Santa Maria, além de regiões com grande concentrações de condomínios horizontais, como o Jardim Botânico e o Grande Colorado, reúnem a maioria dos poços irregulares.
Abastecimento
O presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Fernando Leite, explica que a empresa já assumiu a responsabilidade pelo abastecimento de 67 dos cerca de 400 condomínios horizontais do DF. "Melhoramos os reservatórios, trocamos bombas e asseguramos o controle de qualidade da água nesses condomínios. Enquanto não instalamos redes adutoras nesses locais, estamos trabalhando para melhorar o atendimento, com controle rígido do desperdício", explica Fernando Leite.
A Caesb produz 8 metros cúbicos de água por segundo. O consumo em todo o Distrito Federal varia entre 6m3 e 7m3 por segundo. Como a operação do sistema já está próxima da margem de segurança, a empresa espera que o sistema Corumbá IV entre em operação para ampliar o fornecimento. A expectativa é de que isso ocorra em no máximo três anos. Com a inauguração, a capacidade de produção de água no Distrito Federal vai dobrar.
Sérgio Augusto Ribeiro, coordenador da campanha Água para Vida, Água para Todos, da organização não-governamental WWF, teme que, com a inauguração do novo sistema, haja uma dependência muito grande de Corumbá IV. O ambientalista defende ainda a manutenção de 27 áreas de preservação de mananciais. "Mesmo que essas áreas não sejam mais usadas para captação, elas devem ser preservadas. Se houver uma urgência, as áreas estarão intactas e poderão ajudar no fornecimento da cidade", explica.
Chorume
O risco de contaminação do lençol freático é ainda maior em regiões que abrigam aterros sanitários. Na Vila Estrutural, onde já há abastecimento por meio de redes adutoras, há risco real e iminente de que o chorume do lixão chegue às águas subterrâneas. No ano passado, uma equipe da UnB começou a monitorar o subsolo com o auxílio de poços perfurados na área do aterro e no Parque Nacional. O depósito de dejetos não tem impermeabilização adequada, o que facilita a infiltração do chorume. "Nas chácaras próximas à Estrutural, já verificamos que houve contaminação. A longo prazo, as substâncias tóxicas podem se propagar pelo lençol freático", explica o pesquisador Sérgio Koide, da pós-graduação em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos da UnB.

CB, 30/10/2005, Cidades, p. 30
 

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