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Linhagem matriarcal na etnia Jenipapo-Kanindé repassa liderança de mãe para filha

14/08/2018

Fonte: G1 https://g1.globo.com/



Há vinte e três anos, pela primeira vez, uma etnia indígena do Ceará escolhia uma mulher para representar as aldeias. Em 1995, os Jenipapo-Kanindé quebraram a tradição da sucessão masculina e nomearam Maria de Lourdes da Conceição Alves como sua líder. Desde então, a Cacique Pequena guia o povo em grandes batalhas pelo direito à terra, educação, saúde e cidadania. Hoje, a anciã de 73 anos prepara duas filhas para lhe sucederem quando ela "tombar e pai Tupã a levar".

129 famílias do município de Aquiraz são reconhecidas pela Funai como indígenas, esta foi a principal busca de Pequena para o seu povo desde o início. "Em 1995, fui à Brasília e tive a oportunidade de conversar com o presidente da Funai. Pedi que mandasse o povo dele na aldeia para fazer o estudo da nossa mãe-terra e de nós". Dois anos depois vieram os antropólogos que concluíram: "Nós era índio sim!", diz ela.

Durante 12 anos, Pequena acompanhou o processo das terras, delimitadas em 1999 e demarcadas em 2011. Para que os nativos da aldeia pudessem também estudar, ter atendimento de saúde, trabalho, energia elétrica e água encanada em suas casas, Pequena buscava apoio.

"Por aí afora, fui atrás de vários projetos para acontecer as coisas dentro da aldeia. Hoje tem colégio indígena dentro da aldeia, tem posto de saúde, CRAS, museu, casa de farinha e uma pequena pousadinha que nós temos para oferecer alimentação aos turista quando vêm. "

Há cerca de oito anos, Pequena adoeceu e ficou entre a vida e a morte. Neste momento, precisou escolher, entre os 16 filhos, quem assumiria sua missão quando partisse. Reunida, a família decidiu sobre a sucessão. "Disseram que, como eu era a primeira cacique mulher do Ceará, acharam melhor eu colocar duas filhas".

Sucessão feminina
Desde os 12 anos de idade, Juliana Alves foi conhecendo as lutas dos Jenipapo-Kanindé. Sua mãe, a Cacique Pequena, a levava para as Assembleias dos Povos Indígenas e pedia sua ajuda para escrever tudo o que era debatido nos encontros, a fim de que pudesse repassar as informações na aldeia.


Ouvindo os debates, ela ia tomando parte dos anseios de seu povo e foi sendo preparada para a liderança da aldeia, um projeto que sua mãe realizaria anos depois. "Ela tinha o pensamento de passar o cacicado para uma filha mulher".

Hoje, Juliana é a cacique-irê. Ela e sua irmã, Maria da Conceição, estão sendo preparadas, desde 2010, para assumir a liderança da aldeia e dar a continuidade à tradição de serem o único povo indígena do Ceará guiado por uma mulher.

Juliana também é diretora da escola indígena da aldeia, onde 14 professores formados pelo curso de Licenciatura Intercultural da UFC ensinam 78 alunos a valorizar as tradições. Uma de suas prioridades é que os jovens conheçam a cultura dos antepassados. "Para as noites culturais, os alunos gravam entrevistas com os troncos velhos, guardiões da memória sobre lendas da tribo, por exemplo", explica.

Os Jenipapo-Kanindé participam do Encontro Sesc Povos do Mar desde a primeira edição. No encontro com as comunidades litorâneas de todo o estado, a troca de experiências entre marisqueiros, pescadores e indígenas é um momento aguardado pela aldeia, principalmente os mais jovens. "O Povos do Mar fortalece a nossa luta", afirma Cacique Irê.

Serviço
Encontro Sesc Povos do Mar - 22/8 a 26/8

Encontro Sesc Herança Nativa - 26/8 a 29/8

Local: Sesc Iparana Hotel Ecológico (Rua José Alencar, no 150 - Praia de Iparana - Caucaia-CE)

Informações e programação: http://www.sesc-ce.com.br/povos-do-mar-heranca-nativa/ ou 0800.275.5250



https://g1.globo.com/ce/ceara/especial-publicitario/sistema-fecomercio/radar-do-comercio/noticia/2018/08/14/linhagem-matriarcal-na-etnia-jenipapo-kaninde-repassa-lideranca-de-mae-para-filha.ghtml
 

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