De Povos Indígenas no Brasil

Movimento das Kunhangue

Por Kerexu Yxapyry, liderança guarani; Jera Poty Mirim, liderança guarani; Juliana Kerexu Mariano, coordenadora da CGY e liderança guarani; Ivanildes Kerexu, articuladora da CGY e liderança guarani; Paulina Takua, liderança guarani; Eliane Gabriel de Castro, liderança guarani; Lauriene Seraguza, antropóloga; Liz Meira Góes, bióloga; Tatiane Klein, antropóloga

Texto publicado originalmente no livro Povos Indígenas no Brasil 2017-2022

Entre 2020 e 2021, as mulheres guarani mbya e ava guarani no Sul e Sudeste do Brasil organizaram onze encontros e duas grandes grandes assembleias – em uma mobilização sem precedentes por seus direitos

“Cada uma que está aqui é uma liderança”. Foi com essa frase que Neusa Poty Quadro, membra do Secretariado da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), iniciou uma de suas falas durante a II Kunhangue Nhemboaty, a segunda edição da assembleia das mulheres guarani – evento que reuniu mais de 250 mulheres guarani em novembro de 2021, na aldeia Sapukai, na TI Guarani do Bracuí, em Angra dos Reis (RJ).

Esse evento nacional encerrou um processo de dois anos, que contou com onze encontros regionais, em que mais de quinhentas mulheres guarani que vivem nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo organizaram-se para discutir os problemas que enfrentam em seus territórios, além de apresentar demandas para sua principal organização política – a CGY.

Foi por meio de reuniões e assembleias, chamadas em guarani de nhemboaty, que as conversas entre mulheres se fortaleceram nesses últimos anos, ressaltando a importância da participação política das mulheres tanto na liderança de suas comunidades quanto nos diferentes fóruns e espaços de mobilização do movimento indígena.

A primeira dessas reuniões foi um encontro nacional de mulheres guarani, ocorrido em março de 2020, na tekoa Jataity, em Santa Catarina, alguns meses após a CGY eleger pela primeira vez uma mulher à coordenação tenondé da organização. Como tenondé, liderança principal, a recém-eleita Kerexu Yxapyry estabeleceu uma missão: “Só vou se as mulheres vierem junto comigo”. E elas foram.

Em cada região de ocupação dos Guarani, as reuniões foram realizadas e conduzidas por lideranças mulheres, chamadas de kunhangue ruvixa, que organizaram os encontros de um modo particular. Em algumas regiões, os debates foram marcados por discussões sobre os saberes e práticas tradicionais guarani e o papel das kunhangue em sua perpetuação, valorizando a importância das mulheres na defesa dos territórios. Em outras, ganhou relevo a temática da violência contra a mulher e os modos específicos construídos pelas comunidades guarani para enfrentar essas situações e proteger suas mulheres e crianças.

Muitas dessas reuniões acabaram ajudando a fortalecer e até mesmo criar coletivos e fóruns das mulheres guarani nas regiões, por exemplo o Conselho de Mulheres Guarani do Vale do Ribeira (SP), o grupo Mborayhu Nhemohenhõi, no Oeste do Paraná, e o Coletivo Xondarias Jera Rete, no Paraná. Eliana Gabriel de Castro, que vive na TI Kuaray Raxa (PR) e integra o Jera Rete, testemunha: “O nosso Coletivo é informal; não tem CNPJ. Para poder fazer o encontro, a gente precisa de apoio e, quando a gente consegue fazer, é uma coisa muito bonita. A gente faz essa luta juntos, sem passar por cima das tradições indígenas, porque sabemos que existe direito da mulher indígena, mas também existe a nossa cultura. Eu vi muita mudança com essas organizações das kunhangue aqui no centro e litoral do Paraná”.

Parte dos encontros teve participação exclusiva para mulheres, contando com homens apenas nas tarefas operativas – como a construção de estruturas para acampamento, banheiros e na cozinha. A decisão das mulheres foi compreendida na maioria das regiões e contou com o apoio de lideranças homens: “Devemos respeitar as mulheres”, compartilhou o jovem Wera, um dos cozinheiros responsáveis pela alimentação de todas as participantes da segunda assembleia de mulheres guarani.

 Kunhangue ruvixa

Não é de hoje que as mulheres guarani ocupam um papel central na política guarani e são inúmeras as histórias de grandes kunhangue ruvixa, lideranças mulheres, desse povo – que lutaram e lutam pelo reconhecimento de suas terras. Em São Paulo, as histórias da cacica Kerexu Jandira Augusto Venício, falecida em 2012, orientam até hoje as lutas de seus filhos, netos e bisnetos pela demarcação da TI Jaraguá. Foi Tataxῖ Maria Carvalho a liderança espiritual quem guiou seu grupo de parentes do Pará ao Espírito Santo em uma caminhada na busca pela terra sem males.

Mesmo assim, grande parte das mulheres participantes dos encontros compartilharam dificuldades para serem reconhecidas enquanto lideranças em suas comunidades, como relata Cristiane Kerexu Tatain, da aldeia Jataity: “As mulheres guarani, mesmo quando ocupam cargos de liderança, são invisibilizadas e sofrem perseguições por quererem estar à frente das lutas em seus territórios”.

Para além disso, em um levantamento de dados coletivo, constatou-se que, entre as cerca de 250 mulheres participantes do segundo encontro nacional – de diferentes idades e vindas de comunidades distintas –, a maioria relatava já ter sofrido algum tipo de violência. “Aguyjevete pra quem não bate, não estupra e não humilha” foi a palavra de ordem que emergiu a partir desses encontros.

Diante desse cenário, as mulheres guarani estabeleceram um conjunto de demandas à Comissão, entre elas, que em sua assembleia geral houvesse no mínimo um terço de participantes mulheres e que a organização realizasse um encontro específico para a discussão das violências de gênero, com participação homens e mulheres. Como resultado, em março de 2022, 16 mulheres foram eleitas como coordenadoras de diferentes regionais da CGY, além de quatro terem sido indicadas como articuladoras da organização.

Outra inovação trazida pelos encontros foi a participação de jovens comunicadoras guarani na comunicação da CGY: elas se engajaram na cobertura colaborativa dos eventos, produzindo fotografias e textos e, durante a segunda assembleia de mulheres, realizaram um vídeo-documentário em parceria com as cineastas Michele Concianza e Daniela João, do povo Guarani Kaiowá.

Para Nice Takua, da Tekoa Tangará (SP), e Genira Ara Jera, da aldeia Sapukai (RJ), os encontros trouxeram mudanças importantes para as mulheres e meninas guarani: “Nós mulheres somos as peças mais importantes do mundo. Precisamos fortalecer o encontro das mulheres para conscientizar jovens e mulheres de que há direitos nossos”, comenta Nice. “Estou muito feliz de ver as meninas jovens sentadas escutando e participando do encontro”, complementa Genira.

Já Dona Elsa Chamorro, uma xejaryi das mais prestigiosas lideranças da aldeia Ko’enju (RS), ressalta que o movimento das mulheres ajuda a fortalecer o bem viver guarani e a luta pela recuperação de suas terras: “O que a gente quer é que as nossas famílias vivam bem onde moram, seja nas terras demarcadas ou em terras de retomada”.

Abaixo reunimos¹ depoimentos de algumas das kunhangue ruvixa – que são lideranças em suas comunidades e foram responsáveis pela organização dessa série de encontros.

“Nosso objetivo é caminhar junto”

“Eu entrei na CGY, em 2019, na Assembleia em Morro dos Cavalos – e foi uma surpresa ser eleita para trabalhar com três homens. Sempre fui liderança no Morro dos Cavalos e conheço a Comissão por conta da luta pelo território. Então, conhecer a CGY como liderança de base e depois ser uma coordenadora é bem diferente. Quando fui escolhida, me propus a trabalhar desde que pudesse trazer o envolvimento das mulheres. As mulheres vinham timidamente, começando a participar e, nesses espaços, conseguiam dialogar, falar sobre si, falar sobre a mulher, falar sobre o que está fazendo na sua comunidade, na sua família. E nós temos muitas mulheres que são liderança, cacicas, líderes espirituais, que estão dentro das aldeias, e temos essa nova geração de mulheres, que estão fazendo faculdade. Essa nossa mobilização, nossos encontros, nossas conversas com as mulheres são para dizer, para todas as lideranças homens, que estão nessa luta há muito tempo que nós estamos aqui, nós permanecemos, nós resistimos. E, se existe povo Guarani, é porque existem mulheres dentro das tekoa mantendo isso: criando os filhos, educando os filhos, plantando! Nosso objetivo é caminhar junto: a mulher precisa do homem, o homem precisa da mulher e nós precisamos um do outro, porque, como povo, nós estamos todos inseridos nessas tekoa. Tradicionalmente nós somos as gestoras dos territórios: nós que planejamos a nossa terra, o nosso plantio, a sobrevivência e subsistência da comunidade — do modo tradicional. A gente precisa estar todo mundo junto, unido, mas as mulheres precisam ter esse reconhecimento, precisam dessa visibilidade, para que a gente consiga ter esse equilíbrio no nhandereko”. — Kerexu Yxapyry, tekoa Tataendy Rupa, TI Morro dos Cavalos (SC)

“Sempre, sempre eram só homens falando”

“Sempre foram homens na aldeia que tinham o direito e a função de serem os -uvixa, os líderes. Na minha época, de bem menina, ainda tinha cacique, vice-cacique, cabo e capitão. As palavras ‘cabo’ e ‘capitão’ não eram da minha língua, não eram da nossa cultura guarani e, aí, eu fazia essas ponderações, principalmente pra minha mãe: 'Da onde que vem essa palavra cabo e capitão?’ Na minha experiência essas duas pessoas, principalmente, faziam coisas bem ruins. E uma das coisas que eu sempre presenciei muito era uma questão com as mulheres. Quando era criança, tinha constantemente reuniões gerais, nhemboaty guaxu como diziam, e sempre, sempre eram só homens falando. Acredito muito que a participação das mulheres na Comissão Guarani Yvyrupa, a participação das mulheres no trabalho político interno, só vai fortalecer. Não exterminar os homens ou mandar todo mundo pra cadeia, ou coisa do tipo. Vai fortalecer o nhandereko de novo, o nosso modo de ser guarani”. — Jera Poty Mirim, tekoa Kalipety, TI Tenondé Porã (SP)

“O mundo existe através das mulheres”

“Minha luta começou muito cedo. Quanto é necessário se enraizar, reforçar, pra essa grande árvore, que é a ancestralidade que está aí, do ser mulher? Os encontros foram de muito acolhimento, abraços, muitas lágrimas, mas essas lágrimas que caíram, que caem no chão, vão se transformar nessa árvore grandiosa, que vai florescer muito e vai dar muitos frutos. A gente pensa muito nesse futuro, nessas meninas, que estão crescendo, que vão crescer e que vão estar também nesse caminho. Esses encontros, eu sinto que são muito necessários pra que outras mulheres, kunhanguera, possam ver que não são só elas, mas que tem uma rede. Quando teve o encontro nacional lá na aldeia Sapukai, foi um momento de cura coletiva, foi um momento de choro, de dores, mas no final, quando a gente sentava no chão e começava a se abraçar e todo mundo cantando aquele canto, foi sentido essa cura. É muito necessário esse olhar, mas antes é muito necessário esse fortalecimento do pulmão do movimento das mulheres, que é muito no sentido de abrir um leque e ver que a questão das mulheres não é só algo de trazer pra questão de direito de gênero, mas de todo um contexto de que o mundo existe através das mulheres. Se a gente não souber fortalecer essa estrutura das mulheres, vai chegar uma hora que elas não vão aguentar, vão quebrar, cair abaixo. E depois? Como que a gente vai conseguir fazer? Sinto muito orgulho dessas mulheres, que têm essa força gigantesca pra caminhar e trazer outras mulheres pra caminharem juntas”. — Juliana Kerexu, tekoa Takuaty, TI Ilha da Cotinga (PR)

“A gente fez com que muitas mulheres vissem que não estavam sozinhas”

“A gente está nessa luta, nessa preocupação, há muito tempo. Eu já me preocupei bastante com a questão das mulheres dentro da aldeia, que sofrem caladas. Eu mesma já passei por isso há muito tempo. Eu mesma fui ensinada a obedecer. A minha mãe sempre falava que quando eu casasse, tinha que obedecer e ela já passaria toda a responsabilidade para o meu marido, que aí o dever era eu obedecer e pronto. Hoje entendo assim: a colonização foi chegando – porque a gente tem 522 anos de contato com jurua – e foi gerando isso. A gente acha que é uma tradição, mas não é uma tradição; foi uma coisa imposta pelos colonizadores e foi se criando como se fosse uma cultura, uma tradição, porque foi conforme o não indígena pensava. Os pajés, xeramõi, sempre colocam que os homens e as mulheres têm que se respeitarem; isso é o que eles colocam na casa de reza. Hoje vou nessa linha dos xeramõi kuery, que falam que agressão, pode ser verbal ou não, machuca e dói na alma. É algo que adoece. Falando dos encontros, é uma luta constante. Não é um encontro de alguns dias que vai mudar, mas acredito que algumas mulheres que já estavam nesse movimento antes dos encontros, que já faziam parte dessa preocupação, conseguiram entender melhor; tinha outras pessoas também pensando igual a elas, querendo combater esse mal. A gente fez com que muitas mulheres vissem que não estavam sozinhas. Teve muitas mulheres que depois de saírem de lá viram que tinha outras mulheres pra acompanhar nessa luta. Agora os próprios avakue estão vendo que a gente estava querendo fazer o bem em prol de todo mundo: não só para as kunhangue mas para os homens também. A gente precisa aprofundar o que a gente já começou e não parar; eu acredito que se a gente não parar, vai dar certo.” — Ivanildes Kerexu, TI Boa Vista (SP)

“Somos capazes de estar na frente do movimento e no meio de qualquer organização”

“Nós, da aldeia Y’hovy, fomos muito corajosas pra trazer a questão do suicídio e também a questão LGBT – sem deixar de falar da violência doméstica. Foi um encontro muito produtivo e o compartilhamento das dores, das dificuldades, do sofrimento, da experiência entre as mulheres foi muito maravilhoso. Tivemos a liberdade de expressar o nosso sentimento, de dividir uma com a outra. Entre nós, sabemos ouvir uma à outra; dar atenção, prestar atenção no que a outra mulher está falando. É importante para nós nos organizarmos enquanto mulheres: é uma forma de mostrar a cara, trazer mais participação, dar mais voz, para que as mulheradas tenham mais espaço, pra que possam estar tomando frente na luta, no movimento do nosso povo. Mostrar que as mulheres, sempre estiveram aí, assegurando todas as coisas dentro de suas comunidades e como a base pra tudo, para a luta. Enquanto os homens saem da aldeia e vão pra cidade, vão viajar, são as mulheres que estão dentro da aldeia, na base, fazendo proteção da aldeia, protegendo as crianças. Nós, mulheres, sempre estivemos nessa luta. Só que muitas vezes isso não é valorizado. Hoje em dia, as coisas só existem quando são ditas. Nós, mulheres, começamos a falar; pedindo espaço, mais valorização e pra estarmos organizadas e unidas para poder socorrer uma de nós, quando estivermos passando por uma violência, por algum tipo de agressão, estarmos prontas pra ajudar, aconselhando o casal ou, se não tiver escolha, para poder recorrer às leis dos brancos. Depois que aconteceu o primeiro encontro nessa região, as coisas melhoraram bastante. Por isso é necessário que esses encontros sigam acontecendo, pra mostrar o nosso valor, pedir o respeito e mostrar a capacidade de estarmos onde quisermos. Somos capazes de estar na frente do movimento e no meio de qualquer organização. A gente não quer ser superior aos homens, mas a gente quer uma igualdade. Porque sem nós os homens não existiriam. Somos mulheres que cuidamos no ventre durante nove meses e depois parimos essas vidas e vamos dando vidas para outras pessoas. A gente cuida, zela para que cresça com saúde; depois que cresce, cuidamos da educação dos nossos filhos e também dos filhos das outras mulheres, porque nós vivemos em uma aldeia, em uma comunidade, onde convivemos umas com as outras. Nós é que carregamos a responsabilidade dos valores ancestrais do nosso povo.” — Paulina Takua, tekoha Y’hovy, TI Tekoha Guasu Guavira (PR) (agosto, 2022)

Notas

¹ Todas as falas apresentadas neste texto foram registradas com o apoio de Jéssica Maíra Gabriel, do Secretariado da CGY, e das comunicadoras guarani Andrieli da Silva Timóteo, Elida Yry, Gessica Tseremey Wa, Juliana Mindua, Letícia Para Mirim, Sheila Takua Silva, Mirian Mendonça Martins, Nina Vera Rios, Selma Djaxuka, Suellen Ara e Patrícia Ywa. Os depoimentos de Kerexu Yxapyry e Jera Poty Mirim também foram registrados em vídeo e compõem o documentário Movimento das Kunhangue (Brasil, 24’, 2022).