Entre a aldeia, a cidade e o cosmos

Palavras indígenas

 

 

 

Os cincos líderes indígenas – Yanomami, Baniwa, Kaiabi, Guarani e Marubo – que falaram ao ISA têm em comum o desafio de promover condições adequadas para a interlocução com a sociedade nacional e o mundo globalizado. É assim que eles se revelam como tradutores ou mesmo intérpretes: buscam encontrar sentido local para práticas e instituições dos brancos ao mesmo tempo em que lutam para dar visibilidade, num plano mais amplo, a reivindicações, potencialidades e saberes de seus povos.

Imersos num trânsito constante por entre mundos, eles jamais deixam de lado a prudência quando se põem a meditar sobre o futuro: a convivência com os brancos pode ser positiva desde que não se perca de vista a qualidade e a singularidade inscritas nas formas de ocupação do território, na transmissão de conhecimentos e no xamanismo.

O abandono do cotidiano nas aldeias para tentar a sorte nas cidades é motivo de lamento nas falas da maior parte desses líderes. Lauro Marubo, atual chefe da aldeia Alegria e pajé rezador, adverte aos jovens que morar na cidade é perigoso, pois lá abundam espíritos maléficos que causam doenças e morte. Além do mais, morrer na cidade, não é aconselhável para os Marubo, pois suas almas não conseguiriam encontrar o caminho de volta.

André Baniwa, embora tenha se instalado há alguns anos com sua família em São Gabriel da Cachoeira (AM), onde atua como vice-presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), diz ter saudades da vida na comunidade do alto Içana. Para ele, viver na cidade e ocupar uma posição de liderança – falar em nome de índios de diferentes origens e assumir uma agenda apertada de viagens e reuniões – representam apenas um momento provisório de sua vida. Mais importante é garantir que seus filhos continuem a falar a língua paterna e a seguir as regras de conduta baniwa, de modo que, no futuro, possam voltar a viver na aldeia.

Já Mairawê Kaiabi, falando para aqueles que permanecem na aldeia, lamenta o fato de os jovens estarem se distanciando de práticas como o cultivo, a caça e a pesca para consumirem cada vez mais produtos vindos das cidades. Para ele, esse fato, que pode levar a um estado de subnutrição das crianças, não pode ser dissociado do desmatamento das cabeceiras do rio Xingu e, por conseguinte, da má qualidade das águas dos rios.

Timóteo Verá Popyguá construiu sua própria aldeia, Tenondé Porã, nos limites de uma grande metrópole, São Paulo. O seu maior problema tornou-se então garantir ali um espaço para viver, o que exige o envolvimento na luta pela preservação ambiental ameaçada pelo processo de expansão urbana. Timóteo pensa que o futuro dos Guarani nas redondezas de São Paulo passa, ademais, pela afirmação e divulgação de sua singularidade cultural. Isso justifica seus esforços de divulgar em CDs e espetáculos os cantos guarani, além de estimular os mais velhos a rememorá-los e ensiná-los aos mais jovens.

Esforço algo semelhante é o de André Baniwa, que tem buscado um diálogo entre velhos pajés e líderes religiosos e os mais jovens. Segundo ele, para além da escola diferenciada e dos projetos de piscicultura, é preciso incluir projetos para discutir a cultura e a religião baniwa. Isso implicaria um movimento de recuperação de certas narrativas, rituais e práticas, então “demonizadas” pelos missionários protestantes.

A necessidade de fazer com que os jovens voltem a se interessar pelo que dizem os velhos xamãs aparece fortemente nas falas de Lauro Marubo e Davi Yanomani, ainda que ambos não atribuam ao xamanismo o rótulo “cultura”.

Diante da sedução dos objetos da cidade, Lauro Marubo alega que todos eles têm doenças; os relógios causam febre e o papel provoca tontura. Ora, quem criou tudo isso não foram os brancos, mas sim os antigos pajés, que até hoje podem identificar a potência predatória das coisas e convencer os mais jovens a permanecerem nas aldeias.

Davi Yanomami, de sua parte, incita os jovens a se interessarem mais pelo xamanismo, pois só assim lhes será possível defender a floresta e garantir uma boa saúde para todos. Isso significa interagir com os espíritos xapiripë por meio da inalação de uma substância alucinógena, o yãkoana. Ao se distanciarem dos xapiripë, os jovens tornam o seu pensamento obstruído, esquecem dos ensinamentos dos antigos. Ao se interessarem em demasia pelas coisas dos brancos, perdem o acesso não apenas a um modo singular de viver, mas sobretudo a um modo singular de ver o mundo.

Por Renato Sztutman, antropólogo. Professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, pesquisador do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo/NHII-USP e colaborador do ISA. Texto publicado originalmente no livro Povos Indígenas no Brasil 2001-2005