De Povos Indígenas no Brasil

“A mulher é como árvore: cada galho tem o seu clã, sua etnia, seu povo. Essa árvore tem uma raiz muito grande. Mesmo que tentem torrar nossa raiz, essa árvore cada vez tá crescendo!”

Alessandra Munduruku


Alessandra Munduruku, aldeia Praia do Índio (PA), durante a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas em 2019, em Brasília (DF). Foto: Selma Gomes/ISA.Alessandra Munduruku, aldeia Praia do Índio (PA), durante a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas em 2019, em Brasília (DF). Foto: Selma Gomes/ISA.


Meu nome é Alessandra, sou do povo Munduruku, moro no Médio Tapajós, na aldeia Praia do Índio, no município de Itaituba, no estado do Pará.


O que que te trouxe pra Marcha?

O que me trouxe mais nessa Marcha é fazer mais aliança com outras mulheres, né?! A gente conversa muito com os homens, então nesse momento eu achei que é importante conversar, dialogar com as outras mulheres. O que que as mulheres estão sentindo? Ouvir também, não só falar. E é importante as mulheres, porque a mulher é como árvore, né, cada galho tem o seu clã, sua etnia, seu povo. Então, essa árvore ela tem uma raiz muito grande. E essa raiz quando entra dentro da terra, ai que o governo quer chegar, tirar e cortar tudo, mas a gente é muito bem resistente, desde mais de 500 anos aí. Mas a gente continua sendo resistente, então mesmo que tentem tirar nossa raiz, a nossa raiz tá lá fora né. E essa árvore cada vez tá crescendo. E a importância das mulheres estar aqui presente é isso né: saber, conhecer, ver a cultura deles, porque eles sofrem igualmente a gente. Uns tão no Cerrado, outro tão na Amazônia, outros em outros lugares diferentes. Então esse momento é uma troca de experiência, uma troca de resistência, uma troca de saberes. Falar sobre território, falar sobre espírito, falar sobre o corpo. Então está tudo junto, as mulheres são tudo isso.

E por que que você acha que as mulheres indígenas se diferenciam do movimento indígena geral?

Nunca deixamos de acompanhar os homens, né?! Os povos indígenas sempre teve o movimento indígena. Mas agora as mulheres, uma entendendo a outra, isso é muito importante porque as mulheres estão entrando pra frente, as mulheres estão botando o corpo delas pra frente, as mulheres hoje estão subindo na plenária, falando na assembleia, até mesmo na base que antes não falava. Porque no nosso povo, a dificuldade de nós mesmas, das mulheres, é muito grande. Hoje as mulheres, poucas mulheres que falam, mas a gente como liderança que está na frente, que já tão mais avançadas e as outras que estão surgindo, é uma experiência que elas dizem "ah eu também quero começar a falar, eu não quero perder, eu não quero ter medo, eu quero falar também porque eu também tô sentindo, então eu também tenho o direito de falar igualmente o cacique, igualmente o pajé, igualmente uma criança". As crianças também têm que lutar. E esse momento das mulheres tá junta, é uma ligação, é uma união, né?! As mulheres agora, elas têm que avançar. Elas não têm que deixar os homens decidir sozinhos não, elas tem que dizer "epa, não pode decidir tudo, não pode dialogar com as empresas, não pode colocar garimpo dentro, porque nós vamos ser afetados também, nossos filhos vão sofrer". Então esse é o momento das mulheres tá junto.


A entrevista acima foi registrada em 2019, durante a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília (DF), por Selma Gomes, Beatriz Murer, Daniele Leal, Mariana Furtado e Silvia Futada.