From Indigenous Peoples in Brazil
News
Indígenas empreendem nos centros urbanos da Amazônia: 'É nossa história, nossa arte', diz artesão da etnia Waiwai
05/09/2021
Autor: Brenda Rachit
Fonte: G1 PA - g1.globo.com/pa
Dia da Amazônia: Contrários à exploração em áreas protegidas, indígenas têm no artesanato e em produtos medicinais opção contra garimpos, além de ser fonte de renda fora das aldeias.
Por Brenda Rachit, G1 PA - Belém
05/09/2021 08h00 Atualizado há 2 anos
Indígenas que vivem em centros urbanos de Belém e do interior do Pará refletem sobre questões que envolvem a pluralidade e força criativa, tão presente na identidade amazônica. Para eles, o tema fica ainda mais evidenciado neste domingo (5), Dia da Amazônia.
A arte e os saberes indígenas têm ocupado espaços, além das fronteiras das aldeias, e se transformaram em alternativas de sustento para comunidades que sofrem com falta de recursos financeiros e com o avanço das ações de exploração em áreas que deveriam ser protegidas.
Para os indígenas, a base do empreendedorismo é a prática de atividades sustentáveis, que mantém a preservação da natureza por meio do uso de matéria-prima extraída da floresta para subsistência. Os recursos são utilizados com o repertório cultural e ancestral que as populações tradicionais carregam.
De acordo com o Instituto Kabu, organização indígena, a produção é 'etnocomunitária', que é uma produção tradicional repassada pelos mais velhos aos mais jovens de forma utilitária e que parte da relação com a floresta e as formas de vida. Isso ocorre em diferentes etnias indígenas.
Tradição e sobrevivência
A realidade dos indígenas na Amazônia é diversa. No Pará, aqueles que vêm para a capital encontram muitos desafios. Rodrigo Nascimento é indígena da etnia Waiwai e vende artesanato para custear os estudos e as despesas da família, que hoje se fixou em Belém.
Rodrigo é da aldeia 'Mapuera', que fica no oeste do Pará. O município mais próximo é Oriximiná, que fica há três dias de canoa. O indígena veio a Belém estudar odontologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), logo depois trouxe a família para poder cuidar mais de perto dos dois filhos pequenos.
Em um momento de extrema necessidade financeira, o estudante pediu ajuda aos familiares que moram na aldeia, mas eles não tinham dinheiro pra ajudar. A família enviou o que tinha: artesanato.
"O curso de odontologia não é fácil, o material é muito caro. Eu não tenho mais meus pais, eu tenho irmãos, tios. Mandei mensagem pra minha família, porque eu estava precisando para comprar meu material e não tinha dinheiro. Liguei e eles falaram que na aldeia não tinha dinheiro, só artesanato. Eu não conseguia vender, porque não conhecia os professores, mas certo dia alguns deles começaram a ver meus produtos. Agora eu abri essa loja, não tinha nada de espaço, mas graças a Deus a gente conseguiu com a prefeitura", relata Rodrigo.
Rodrigo trabalha em parceria com a esposa e agora vendem os artesanatos dentro do Mercado de Carne, no complexo do Ver-o-Peso, principal cartão postal da capital do Pará. Ele se orgulha de se sustentar a partir de um trabalho que carrega tradições e cultura de origem.
"Tem gente que tem vergonha, mas eu não, porque isso aqui eu traço nas minhas costas. Eu sou indígena mesmo. Eu tô mostrando para os brancos o que a gente produz, a nossa arte"
O estudante enfatiza a importância de ser o próprio indígena a estar à frente da comercialização dos produtos. Segundo Rodrigo, quando o não indígena compra as artes pra revender, geralmente ele só repassa o artesanato, enquanto que o indígena tem propriedade para explicar o processo de produção, os elementos, a história que aquele objeto carrega.
O objetivo do artesão é expandir cada vez mais o trabalho desenvolvido e também ceder espaço para outros indígenas que produzem arte.
"O branco compra nossos produtos pra vender, aí não sabe explicar onde foi produzido, só se torna um objeto. A gente não, a gente vai explicar o processo. Isso aqui é nossa história, nossa arte. Então é muito importante a gente ocupar esses espaços. A gente tá se organizando cada vez mais", afirma o estudante Waiwai.
Sustento e defesa da floresta
Alessandra Korap, da etnia Munduruku, é da Federação Dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) e conta que, há dois meses, os produtos feitos nas aldeias estão sendo comercializados no centro do município de Itaituba, sudoeste do Pará.
Ela diz que anda muito pelas aldeias e via a beleza de tudo que era produzido, ao mesmo tempo em que percebia as necessidades financeiras das comunidades. Foi quando surgiu a ideia de potencializar o trabalho dos produtores indígenas. A Associação de mulheres Munduruku Wakoborūn organizou, então, um espaço pra comercializar os produtos das aldeias em Itaituba.
O 'Centro de Artesanato Munduruku' reúne acessórios, artesanato e também remédios, feitos com técnicas e saberes dos povos tradicionais. Os recursos obtidos com a venda dos produtos se traduzem em qualidade de vida para as aldeias.
Alessandra conta que o custo com combustível é muito alto e os artesãos não tem condições de sair das aldeias por conta própria para vender os produtos. Muitos fazem 'vaquinha' para conseguir alimento.
A indígena conta que na região dos Munduruku a questão do garimpo é muito forte e ela lamenta que a terra seja estigmatizada pela extração do ouro e as consequências socioambientais.
Segundo ela, a abertura de oportunidade para que indígenas produzam e vendam o fruto do trabalho nas aldeias garante autonomia e independência, além de ser uma alternativa pra quem se vê refém do trabalho nos garimpos.
"Quando entreguei o dinheiro para elas (artesãs), elas ficaram felizes porque poderiam trabalhar e estar perto dos seus filhos. Os homens disseram que ao invés de irem pro garimpo, agora iam poder trabalhar sem destruir a nossa terra. Queremos defender o rio, defender o território, mas também mostrar um caminho financeiro", relata.
Arte Kayapó
O maior destaque do trabalho dos Kayapós são as mulheres artesãs. Elas que fazem tecido, cesto para carregar mandioca, bolsas, pulseiras, colares, entre outros produtos.
O artesanato Kayapó tem ganhado visibilidade por meio da parceria entre aldeias, localizadas nas terras indígenas Baú e Menkrangnoti, no sul do Pará. As aldeias se organizaram e fundaram o Instituto Kabu, que reúne ao todo 12 comunidades indígenas.
A arte das indígenas Kayapós está exposta em Belém do Pará pela primeira vez. A exposição "Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" reúne fotografias, produtos, instrumentos indígenas que já são vendidos e expostos em Brasília, desde 2019, e também são vendidos de forma online, em loja virtual".
Irenó Kayapó é uma das artesãs parceiras do Instituto Kabu e trabalha há 4 anos com essa produção. Ela conta como as vivências da infância refletem no processo criativo e na manutenção da tradição indígena.
"Desde criança a gente brincava, mas não de boneca. A gente vê as nossas mães começar a pintar, pintar a gente. Eu via as pinturas e comecei a me interessar, a copiar".
O vice-presidente do Instituto Kabu, Mydjere Mekrãgnotire, explica que nas aldeias quase todos são artesãos e eles perceberam que as obras eram um produto com potencial de comercialização, que poderiam ter um alcance maior pra captar recurso e fomentar a independência dos indígenas a partir do próprio trabalho.
Foi quando pensaram em levar a tradição para fora das aldeias. Mydjere relata que houve muita procura pelo produto, então dobraram os artesãos e começaram a se organizar.
Segundo o Instituto, todo o material foi pensado de forma colaborativa. O design proposto para cada produto foi apresentado e aprovado pelos principais caciques das aldeias participantes.
A produção é 100% indígena, mas o trabalho é dividido entre homens e mulheres. Culturalmente, alguns produtos são feitos exclusivamente pelos homens, como cocares e alguns instrumentos.
O nome da exposição que mostra um pouco do trabalho das Kayapós carrega a identidade das mulheres. 'Menire' é como elas se identificam e, geralmente, o termo vem seguido de adjetivos como 'fortes', 'trabalhadoras' e 'belas', características que as acompanham desde o nascimento até quando a idade pede que elas se afastem do trabalho pesado e transmitam os saberes e conhecimentos daquele povo aos mais jovens.
A ocupação dos indígenas em espaços de visibilidade para o trabalho feito nas aldeias estabelece uma relação que vai além do valor de venda dos produtos, como afirma o coordenador comercial e tecnológico do Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), Thiago Albuquerque.
"Quando se tem um fundo de base, trabalhando todo um conteúdo, um histórico, uma produção específica, a questão do valor negociado chega a ser 5% do produto. Isso vai fazer com que gere negócios e continue a produção nas aldeias. Quando essa comercialização é feita nos grandes centros e esse produto passa a ser exportado, a gente consegue fazer com que a manutenção desse trabalho continue existindo. Então, é um empreendedorismo pulsante indígena", explica.
A mostra 'Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" fica aberta em Belém até o dia 10 de setembro, no Espaço São José Liberto.
https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2021/09/05/indigenas-empreendem-nos-centros-urbanos-da-amazonia-e-nossa-historia-nossa-arte-diz-artesao-da-etnia-waiwai.ghtml
Por Brenda Rachit, G1 PA - Belém
05/09/2021 08h00 Atualizado há 2 anos
Indígenas que vivem em centros urbanos de Belém e do interior do Pará refletem sobre questões que envolvem a pluralidade e força criativa, tão presente na identidade amazônica. Para eles, o tema fica ainda mais evidenciado neste domingo (5), Dia da Amazônia.
A arte e os saberes indígenas têm ocupado espaços, além das fronteiras das aldeias, e se transformaram em alternativas de sustento para comunidades que sofrem com falta de recursos financeiros e com o avanço das ações de exploração em áreas que deveriam ser protegidas.
Para os indígenas, a base do empreendedorismo é a prática de atividades sustentáveis, que mantém a preservação da natureza por meio do uso de matéria-prima extraída da floresta para subsistência. Os recursos são utilizados com o repertório cultural e ancestral que as populações tradicionais carregam.
De acordo com o Instituto Kabu, organização indígena, a produção é 'etnocomunitária', que é uma produção tradicional repassada pelos mais velhos aos mais jovens de forma utilitária e que parte da relação com a floresta e as formas de vida. Isso ocorre em diferentes etnias indígenas.
Tradição e sobrevivência
A realidade dos indígenas na Amazônia é diversa. No Pará, aqueles que vêm para a capital encontram muitos desafios. Rodrigo Nascimento é indígena da etnia Waiwai e vende artesanato para custear os estudos e as despesas da família, que hoje se fixou em Belém.
Rodrigo é da aldeia 'Mapuera', que fica no oeste do Pará. O município mais próximo é Oriximiná, que fica há três dias de canoa. O indígena veio a Belém estudar odontologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), logo depois trouxe a família para poder cuidar mais de perto dos dois filhos pequenos.
Em um momento de extrema necessidade financeira, o estudante pediu ajuda aos familiares que moram na aldeia, mas eles não tinham dinheiro pra ajudar. A família enviou o que tinha: artesanato.
"O curso de odontologia não é fácil, o material é muito caro. Eu não tenho mais meus pais, eu tenho irmãos, tios. Mandei mensagem pra minha família, porque eu estava precisando para comprar meu material e não tinha dinheiro. Liguei e eles falaram que na aldeia não tinha dinheiro, só artesanato. Eu não conseguia vender, porque não conhecia os professores, mas certo dia alguns deles começaram a ver meus produtos. Agora eu abri essa loja, não tinha nada de espaço, mas graças a Deus a gente conseguiu com a prefeitura", relata Rodrigo.
Rodrigo trabalha em parceria com a esposa e agora vendem os artesanatos dentro do Mercado de Carne, no complexo do Ver-o-Peso, principal cartão postal da capital do Pará. Ele se orgulha de se sustentar a partir de um trabalho que carrega tradições e cultura de origem.
"Tem gente que tem vergonha, mas eu não, porque isso aqui eu traço nas minhas costas. Eu sou indígena mesmo. Eu tô mostrando para os brancos o que a gente produz, a nossa arte"
O estudante enfatiza a importância de ser o próprio indígena a estar à frente da comercialização dos produtos. Segundo Rodrigo, quando o não indígena compra as artes pra revender, geralmente ele só repassa o artesanato, enquanto que o indígena tem propriedade para explicar o processo de produção, os elementos, a história que aquele objeto carrega.
O objetivo do artesão é expandir cada vez mais o trabalho desenvolvido e também ceder espaço para outros indígenas que produzem arte.
"O branco compra nossos produtos pra vender, aí não sabe explicar onde foi produzido, só se torna um objeto. A gente não, a gente vai explicar o processo. Isso aqui é nossa história, nossa arte. Então é muito importante a gente ocupar esses espaços. A gente tá se organizando cada vez mais", afirma o estudante Waiwai.
Sustento e defesa da floresta
Alessandra Korap, da etnia Munduruku, é da Federação Dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) e conta que, há dois meses, os produtos feitos nas aldeias estão sendo comercializados no centro do município de Itaituba, sudoeste do Pará.
Ela diz que anda muito pelas aldeias e via a beleza de tudo que era produzido, ao mesmo tempo em que percebia as necessidades financeiras das comunidades. Foi quando surgiu a ideia de potencializar o trabalho dos produtores indígenas. A Associação de mulheres Munduruku Wakoborūn organizou, então, um espaço pra comercializar os produtos das aldeias em Itaituba.
O 'Centro de Artesanato Munduruku' reúne acessórios, artesanato e também remédios, feitos com técnicas e saberes dos povos tradicionais. Os recursos obtidos com a venda dos produtos se traduzem em qualidade de vida para as aldeias.
Alessandra conta que o custo com combustível é muito alto e os artesãos não tem condições de sair das aldeias por conta própria para vender os produtos. Muitos fazem 'vaquinha' para conseguir alimento.
A indígena conta que na região dos Munduruku a questão do garimpo é muito forte e ela lamenta que a terra seja estigmatizada pela extração do ouro e as consequências socioambientais.
Segundo ela, a abertura de oportunidade para que indígenas produzam e vendam o fruto do trabalho nas aldeias garante autonomia e independência, além de ser uma alternativa pra quem se vê refém do trabalho nos garimpos.
"Quando entreguei o dinheiro para elas (artesãs), elas ficaram felizes porque poderiam trabalhar e estar perto dos seus filhos. Os homens disseram que ao invés de irem pro garimpo, agora iam poder trabalhar sem destruir a nossa terra. Queremos defender o rio, defender o território, mas também mostrar um caminho financeiro", relata.
Arte Kayapó
O maior destaque do trabalho dos Kayapós são as mulheres artesãs. Elas que fazem tecido, cesto para carregar mandioca, bolsas, pulseiras, colares, entre outros produtos.
O artesanato Kayapó tem ganhado visibilidade por meio da parceria entre aldeias, localizadas nas terras indígenas Baú e Menkrangnoti, no sul do Pará. As aldeias se organizaram e fundaram o Instituto Kabu, que reúne ao todo 12 comunidades indígenas.
A arte das indígenas Kayapós está exposta em Belém do Pará pela primeira vez. A exposição "Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" reúne fotografias, produtos, instrumentos indígenas que já são vendidos e expostos em Brasília, desde 2019, e também são vendidos de forma online, em loja virtual".
Irenó Kayapó é uma das artesãs parceiras do Instituto Kabu e trabalha há 4 anos com essa produção. Ela conta como as vivências da infância refletem no processo criativo e na manutenção da tradição indígena.
"Desde criança a gente brincava, mas não de boneca. A gente vê as nossas mães começar a pintar, pintar a gente. Eu via as pinturas e comecei a me interessar, a copiar".
O vice-presidente do Instituto Kabu, Mydjere Mekrãgnotire, explica que nas aldeias quase todos são artesãos e eles perceberam que as obras eram um produto com potencial de comercialização, que poderiam ter um alcance maior pra captar recurso e fomentar a independência dos indígenas a partir do próprio trabalho.
Foi quando pensaram em levar a tradição para fora das aldeias. Mydjere relata que houve muita procura pelo produto, então dobraram os artesãos e começaram a se organizar.
Segundo o Instituto, todo o material foi pensado de forma colaborativa. O design proposto para cada produto foi apresentado e aprovado pelos principais caciques das aldeias participantes.
A produção é 100% indígena, mas o trabalho é dividido entre homens e mulheres. Culturalmente, alguns produtos são feitos exclusivamente pelos homens, como cocares e alguns instrumentos.
O nome da exposição que mostra um pouco do trabalho das Kayapós carrega a identidade das mulheres. 'Menire' é como elas se identificam e, geralmente, o termo vem seguido de adjetivos como 'fortes', 'trabalhadoras' e 'belas', características que as acompanham desde o nascimento até quando a idade pede que elas se afastem do trabalho pesado e transmitam os saberes e conhecimentos daquele povo aos mais jovens.
A ocupação dos indígenas em espaços de visibilidade para o trabalho feito nas aldeias estabelece uma relação que vai além do valor de venda dos produtos, como afirma o coordenador comercial e tecnológico do Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), Thiago Albuquerque.
"Quando se tem um fundo de base, trabalhando todo um conteúdo, um histórico, uma produção específica, a questão do valor negociado chega a ser 5% do produto. Isso vai fazer com que gere negócios e continue a produção nas aldeias. Quando essa comercialização é feita nos grandes centros e esse produto passa a ser exportado, a gente consegue fazer com que a manutenção desse trabalho continue existindo. Então, é um empreendedorismo pulsante indígena", explica.
A mostra 'Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" fica aberta em Belém até o dia 10 de setembro, no Espaço São José Liberto.
https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2021/09/05/indigenas-empreendem-nos-centros-urbanos-da-amazonia-e-nossa-historia-nossa-arte-diz-artesao-da-etnia-waiwai.ghtml
The news items published by the Indigenous Peoples in Brazil site are researched daily from a variety of media outlets and transcribed as presented by their original source. ISA is not responsible for the opinios expressed or errors contained in these texts. Please report any errors in the news items directly to the source