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Dionísio é sepultado sob aplausos

25/02/2005

Fonte: O Globo, O País, p.14



Dionísio é sepultado sob aplausos

Uma cerimônia simples, com a presença de cerca de 200 pessoas, marcou ontem de manhã o enterro do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro Júnior, no Cemitério de Ricardo de Albuquerque. Durante o velório, políticos e ambientalistas defenderam uma investigação rigorosa do crime. O caixão foi coberto com as bandeiras do Brasil e de Nova Iguaçu. Antes de o corpo descer à sepultura, foi cantado o Hino Nacional e a vítima foi homenageada com aplausos.

Nenhuma autoridade do governo federal esteve no enterro. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse que não compareceu ao enterro de Dionísio porque acreditou que seria mais útil se começasse a agir e tomar as providências necessárias para agilizar as investigações. Ela lembrou que o ministério foi representado na ocasião pelo diretor do Ibama no Rio, Edson Bedim. Ainda assim, Marina telefonou para uma prima do ativista chamada Marisa para dar os pêsames e garantir que faria de tudo para garantir as investigações.

- Eu também não estava no enterro ou na missa de sétimo dia da irmã Dorothy Stang (assassinada no Pará) porque precisei ir logo para Brasília para tomar as decisões de governo. Quando eu falei com a prima do Dionísio, ficou claro para mim que a família estava muito mais interessada nas providências que eu tomaria do que na minha presença no enterro. Não troco nada do que acho que é certo fazer por uma foto no jornal - disse Marina.

Ontem, a ministra teve reuniões no Ministério do Planejamento para discutir o aparelhamento do Ibama. Também reuniu-se com sua equipe para discutir novos planos para reforçar as ações de preservação da Amazônia e combate à violência no local. Para resolver os problemas do Rio, Marina também teria conversado com o secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda.

- Tomei todas as providências que precisavam ser tomadas. Estamos fazendo um grande esforço para garantir que não haja qualquer tipo de impunidade nos crimes do Pará e do Rio - disse a ministra, que amanhã estará no Acre e na semana que vem, no Pará.

Prefeito e deputado pedem forças federais na reserva

Presente ao enterro, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, defendeu uma investigação rápida. Segundo Lindberg, o assassinato do ambientalista mostra que o poder público está ausente da região. Ele defendeu a ocupação da Reserva Biológica do Tinguá por forças federais:

- Os governos federal e estadual têm que usar todos os instrumentos possíveis para elucidar o crime. Até o Exército deve ser utilizado, se for necessário - disse.

O deputado federal Fernando Gabeira (PV) chegou ao velório nas primeiras horas da manhã. Ele contou que veio direto de Anapu, no Pará, onde acompanhou o sepultamento da missionária católica americana Dorothy Stang. Para Gabeira, o governo federal precisa imediatamente fazer na região da reserva uma operação para desarmar caçadores e extratores de palmito. O deputado defendeu ainda a presença de forças federais no Tinguá, a exemplo do que aconteceu no Pará:

- A Polícia Federal tinha que dar proteção aos funcionários federais que trabalham no local e o Exército deveria ocupar e mapear toda a região. Se deu certo no Pará, tem que dar certo aqui também.

Integrante da ONG Guardiões Ecológicos da Mata Atlântica (Gema), Sebastião Telles disse que foi preciso um homem morrer para que autoridades prestassem atenção no que acontece na Reserva Biológica do Tinguá.

- Perdemos um defensor, um amante da natureza e um grande líder que preservava uma parte do paraíso - disse Sebastião Telles.

Estiveram presentes ainda ao sepultamento a presidente da Feema, Izaura Fraga, o subsecretário de Direitos Humanos, Paulo Bahia, e policiais do 20 BPM (Mesquita).

Crime levou clima de medo a distrito do Tinguá


A população do pequeno distrito de Tinguá, em Nova Iguaçu, ainda tenta entender a morte do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro Júnior, assassinado terça-feira a poucos metros de sua casa e da entrada da Reserva Biológica do Tinguá, onde ontem foi posta uma Bandeira do Brasil. O clima de medo tomou conta do lugar e poucos falam sobre o crime. O vaivém de carros da polícia assusta os moradores. Homem de vida simples e hábitos constantes, Seu Júlio, como era conhecido o ambientalista, conquistou o carinho e o respeito dos que trabalharam ao seu lado.

- Ele morreu lutando pela vida - disse Rose Irene Borges Pinheiro, de 48 anos, membro de uma das ONGs que atuam na preservação da reserva.

Rose disse que já fez várias denúncias sobre a presença de caçadores na região e acredita que esse tenha sido o motivo da morte do amigo.

Dionísio percorria diariamente a Estrada da Administração - onde morava numa casa simples de dois quartos - orientando moradores e coibindo agressões à natureza. Um senhor que mora a cem metros do local onde o ambientalista foi morto contou que via televisão quando ouviu o disparo:

- Foi só um tiro. Fiquei assustado e, quando saí na rua para ver o que tinha acontecido, percebi que havia um homem morto. Não acreditei quando vi que era o Seu Júlio.
Serra da Bocaina é área de ação de palmiteiros


O assassinato do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro, terça-feira, na Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu, pode ser considerado como a extensão dos conflitos ambientais provocados pela ação dos palmiteiros e da violência que há muitos anos já existem na região entre Itatiaia, Rio Claro, Resende e Bananal (SP), na divisa com o Estado do Rio. O caso mais grave ocorrido, a 8 de outubro de 2002, foi a chacina na Serra da Bocaina de uma família inteira, que denunciara uma quadrilha de palmiteiros que agia nas matas entre Rio Claro e Bananal. Os assassinos não pouparam nem os filhos do casal, todos trucidados a golpes de foices.

Palmiteiro morreu em tiroteio com PMs

Há dois anos, policiais militares do Batalhão Florestal de Valença, numa operação na Serra do Mar, entre Piraí e Mangaratiba, enfrentaram um tiroteio com os palmiteiros. Um dos bandidos morreu.

- Não são apenas os palmiteiros. Nossos policiais enfrentam um grande risco na repressão aos caçadores e pescadores clandestinos, na Represa da Light, em Piraí. Os bandidos usam armas pesadas como calibre 12 - disse o sargento Alarcon.

No entanto, é na Serra de Itatiaia onde atuam os palmiteiros mais violentos da região, segundo disse o policial. Eles agem nas matas de Penedo e dentro da reserva do Parque Nacional de Itatiaia. No ano passado, o técnico ambiental e coordenador do PreviFogo Marcos Botelho foi expulso das matas ao ser atacado a tiros junto com dois funcionários e policiais militares por um grupo de palmiteiros. Desde o início do ano, os agentes florestais do Ibama do Parque Nacional de Itatiaia passaram a apenas denunciar a ação das quadrilhas ao Batalhão Florestal depois que uma medida administrativa os proibiu de usar armas.

Lula pede rigor nas investigações


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou ontem rigor nas investigações do assassinato do ambientalista Dionísio Ribeiro Júnior, morto na terça-feira à noite na Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu. Em nota oficial, Lula lamentou o episódio e recomendou às autoridades que prendam o mais rapidamente possível os criminosos. "Foi com tristeza e consternação que o presidente recebeu a notícia da morte do ambientalista", afirmou o documento divulgado pelo Palácio do Planalto.

Ação contra a caça ilegal

O Ibama e o Grupo de Defesa da Natureza estão mapeando pequenos bares na área em volta da Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu, que oferecem em seu cardápio carne de animais silvestres caçados ilegalmente na região. Segundo o administrador da reserva, Luís Henrique Santos Teixeira, não há estatísticas sobre o patrimônio biológico da unidade, mas apreensões feitas nos últimos anos mostram que o Tinguá é alvo de três tipos de caça: para venda dos animais, para venda da carne e para a subsistência da população carente.

- Nós apreendemos todo tipo de equipamentos: gaiolas, armadilhas, armas de fabricação artesanal. A reserva tem 27 mil hectares, mais dez quilômetros de entorno. É muito difícil controlar a entrada ilegal de pessoas na área. Mas sabemos que há muitos bares pequenos neste entorno que vendem carne de caça. Estamos fazendo um mapeamento para realizar uma operação contra esse tipo de comércio. Mas há também uma população muito carente que invade a reserva para conseguir proteína necessária à sua sobrevivência. O problema é sério - afirmou Luís Henrique.

A caça ilegal na reserva do Tinguá vem sendo denunciada há pelo menos quatro anos. Em 2001, um relatório feito pela Comissão de Meio Ambiente da Alerj já informava sobre os vários tipos de crime praticados contra a fauna local. Segundo a presidente da ONG Defensores da Terra e coordenadora da comissão da Alerj, Laraf Moutinho da Costa, foi verificada ainda a existência de caça como lazer na região:

- Houve até casos de policiais militares da reserva que tinham o hábito de caçar na região. Na verdade, a caça ali é um fenômeno cultural. Verificamos que os moradores do entorno aproveitavam o fim de semana para um programa à beira do Rio Tinguá, ouvindo funk em altíssimo volume e invadindo a reserva para caçar a carne do churrasco - disse Laraf.

Uma outra atividade ilegal também entrou na mira das autoridades: a prefeitura de Nova Iguaçu interditou ontem à tarde a Pedreira Vigné, na Avenida Abílio Augusto Távora, no Bairro da Luz. A área é residencial e, segundo o município, a emissão de pó de pedra no ar está acima dos limites aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS), levando perigo à população. A interdição é temporária e a empresa tem 30 dias para apresentar à Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo dados provando que a atividade não acarreta qualquer dano à saúde dos moradores.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Luiz Henrique Zanetta, caso nenhuma medida seja tomada nesse prazo, a empresa pode ser interditada definitivamente. A pedreira funciona há mais de 20 anos e a sua interdição foi uma das promessas de campanha do prefeito Lindberg Farias. Procurados no local, os responsáveis pela empresa não atenderam aos repórteres.

Comissão fará dossiê para ministra

A Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa vai preparar um dossiê, a pedido da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, com um levantamento de ameaças e denúncias relacionadas à questão ambiental no estado. O deputado estadual Carlos Minc (PT), presidente da comissão, informou que a Alerj listou cerca de 500 casos nos últimos dois anos, a maioria relacionada a roubo de fauna e flora, agressão a lagoas e ameaças a moradores e ambientalistas.

O coordenador da ONG SOS Mata Atlântica, Mario Mantovan, afirmou ontem que a grande preocupação do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro era com a fragilidade da gestão da Reserva Biológica do Tinguá:

- É um parque de mentira, em uma cidade sitiada. O Dionísio é mais um mártir do Rio, sacrificado pela ausência do estado na área ambiental. O Rio coleciona mártires.

A OAB-RJ enviou ontem ofício às ONGs Justiça Global e Grupo de Defesa da Natureza e ao Ministério do Meio Ambiente, manifestando indignação pelo assassinato do ambientalista. Hoje, integrantes das comissões de Direitos Humanos, de Meio Ambiente e de Segurança da Alerj visitam a Reserva do Tinguá, para ouvir funcionários e moradores.

O Globo, 25/02/2005, O País, p.14
 

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