De Pueblos Indígenas en Brasil

News

"Usamos a floresta com muita sabedoria"

06/08/2015

Fonte: Página 20 (Rio Branco - AC) - www.pagina20.net



O XXI Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) reúne 29 estudantes de sete povos indígenas no Centro de Formação dos Povos da Floresta


"Usamos a floresta com muita sabedoria porque é da terra que tiramos o nosso sustento", explica Lucas Sales Kaxinawá, Agente Agroflorestal do povo Huni Kui, e autor de uma das cinco monografias que serão concluídas no XXI Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas deste ano, que acontece entre os dias 13 de julho e 12 de agosto, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), localizado no Km 7 da Transacreana em Rio Branco, espaço que pertence a Comissão Pró-Índio do Acre CPI/AC .

Nesta edição do curso participam 29 agentes agroflorestais indígenas (AAFIs), representantes de 15 terras indígenas e sete povos: Jaminawa/Arara, Shawãdawa, Katukina, Kaxinawá, Manchineri, Puyanawá e Yawanawá. Nesta sexta-feira, dia 7 de agosto, será realizada a formatura de cinco AAFIs, todo eles Huni Kui - Lucas Sales, Francisco Rosenir Txanu, Raimundo Paulo Ixã, Valdo Pereira Shane e Amiraldo Sereno Yãki.

Com o patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental, o curso é realizado pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), conta com a parceria da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), e com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Renato Gavazzi, coordenador pedagógico do curso, explica que ele foi pensado como uma ação educacional para a gestão dos territórios indígenas: "Propiciamos a discussão relacionada ao uso e a conservação dos recursos naturais. Os AAFIs também são responsáveis em discutir os seus planos de gestão". Ele explica que nos cursos "são desenvolvidas atividades com a proposta de formar indivíduos que atuem na implementação e no manejo de diferentes modelos da agrofloresta dentro do principio da agroecologia nas terras indígenas, fortalecendo os processos de gestão territorial e ambiental em suas comunidades".

As aulas desse curso possibilitam a troca de saberes entre os Agentes Agroflorestais e a equipe da CPI-Acre em diversas áreas do conhecimento como agrofloresta, avicultura, informática meliponicultura, matemática, arqueologia, ecologia indígena, cartografia indígena, além de promover o uso de GPS para o monitoramento ambiental. São realizadas atividades de implantação e manejo de horta orgânica, que são modelos demonstrativos do Centro de Formação. Nas aulas de Arte e Ofício, os AAFIs confeccionam esculturas que representam mitos indígenas e aspectos da natureza reaproveitando madeira.

Armédio Carneiro Alvez, Agente Agroflorestal do povo Katukina, de 34 anos, que vive na aldeia Varinawa, na Terra Indígena Campinas/Katukina, acredita que o "papel do AAFI é trabalhar com o plano de gestão territorial e a vigilância da terra indígena. Também temos que fazer articulação política, reuniões na comunidade e educação ambiental".

"Não é só plantar, fazer viveiros e manejar. Tem que trabalhar na orientação e conscientização da comunidade", explica o AAFI Erivaldo Sérgio ou Bina Huni Kui (nome indígena), de 32 anos, que mora na aldeia Pinuya, na Terra Indígena Colônia 27. "O nosso projeto é ver todas as famílias trabalhando com sistemas agroflorestais, avicultura, piscicultura e frutíferas. Esse é o meu sonho, o meu povo feliz e com riqueza de alimentos", completa.

Desde a sua criação em 1994, o Centro de Formação dos Povos da Floresta deu aos Agentes Agroflorestais Indígenas a possibilidade deles experimentarem novas práticas de manejo sustentável dos recursos naturais, alem de valorizar e recuperar as práticas tradicionais no manejo da paisagem. "O surgimento do curso de formação também está relacionado com a criação do Centro de Formação. O primeiro curso ocorreu em 1996, dois anos após a compra do sítio. A gente pegou uma área muito degradada, que era pasto, e em quase 20 anos ela foi quase totalmente reflorestada com a implementação de SAFs pelos AAFIs", lembra Renato Gavazzi, explicando que a agrofloresta não pode ser ensinada apenas através de um discurso: "É necessário ter uma prática. Temos aqui algo materializado que é uma floresta produtiva que foi implementada e manejada por nós. Aqui temos um manejo específico, que não pensa só na produtividade. A gente pensa também na paisagem, para criar um lugar agradável e bonito oferecendo alimento e moradia para os animais. O tucano tem o direito de colocar o seu ninho num pau velho de uma árvore".

O coordenador pedagógico do curso também acredita que um dos resultados da formação é ver hoje muitas das terras indígenas do Acre com seus quintais e sistemas agroflorestais, com enriquecimento das capoeiras, e com produção e manejo de quelônios, por exemplo. "O desafio é continuar trabalhando no fortalecimento dos povos indígenas para que tenham autonomia para discutir os seus territórios, e para que possam implementar modelos de desenvolvimento relacionados ao seu próprio contexto".

Maria Emília - Assessoria CPI-AC

http://www.pagina20.net/meio-ambiente/usamos-a-floresta-com-muita-sabedoria/
 

The news items published by the Indigenous Peoples in Brazil site are researched daily from a variety of media outlets and transcribed as presented by their original source. ISA is not responsible for the opinios expressed or errors contained in these texts. Please report any errors in the news items directly to the source