Foto: Marlinda Melo Patrício, 1999

Kuruaya

  • Outros nomes
    Xipáia-Kuruáia, Kuruaia
  • Onde estão
    PA
  • Quantos são
    159 (Funai/Altamira, 2010)
  • Família linguística
    Munduruku

Perspectivas

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O que é ser indígena urbano? Em que se pauta a diferença, quando a cidade é o lugar de morada? As duas questões podem ser entendidas pelo reconhecimento étnico e pela territorialidade. O reconhecimento étnico urbano não está pautado na terra, na cultura material ou na carga genética e sim no auto-reconhecimento e reconhecimento pelos pares e pelos outros, os não-índios. Em Altamira, oa índios fazem parte da paisagem sócio-cultural há mais de dois séculos, andam pelas ruas da cidade, fazem compras, vão ao banco e realizam todo tipo de negócio, como qualquer habitante.

Ter um projeto político comum pode ajudar a construir a identidade grupal. A partir da segunda metade da década de 1990 esta compreensão passou por redefinições e ampliações, pois os indígenas urbanos buscaram uma forma mais organizada para reivindicar alguns direitos. A atuação individual e solitária toma outros rumos quando se organizam no Movimento dos índios Moradores de Altamira e, posteriormente, se transformam em Associação dos Índios de Altamira (AIMA), legalizada em 2001. Os novos desafios passam por conseguir um lugar para a associação funcionar com o mínimo de infra-estrutura e treinamento para aprenderem manipular seus mecanismos bucrocráticos.

No dia 12/10/99, no evento "Grito dos excluídos da América Latina", organizado pelo CIMI, os indígenas se apresentaram para a cidade de Altamira. Conseguiram aprender com os mais velhos o canto, dança e confeccionar suas roupas com fibras de buriti e sarrapilheira, que foram pintadas com mistura de jenipapo verde pisado e misturado com casca de cajá, transformada em carvão. A apresentação obteve resultados bastante positivos, mostrou que o projeto comum era viável e que instituições, como Funai - que até então sabia que existiam, mas não os reconhecia -, Funasa, Secretaria de Educação, Prefeitura Municipal, Conselho Tutelar e Delegacia de Polícia percebiam que havia uma outra parcela social indígena que possuía os mesmos anseios dos cidadãos não indígenas e que não podiam ignorar suas presenças.

O final dos anos 1990 ficou marcado pela busca do reconhecimento étnico em Altamira, expresso pelas reivindicações e conquistas feitas em torno da saúde, primeiro para a melhoria do atendimento na casa de saúde indígena para os aldeados; segundo, a necessidade de fazer o levantamento das crianças indígenas que estavam sem registro, adultos sem carteira de identidade, carteira de trabalho, título de eleitor, CPF, aposentadoria, levantamento do número de índios urbanos e ribeirinhos e terceiros à necessidade de inclusão dos índios urbanos no atendimento dentro do projeto/Convênio entre FUNASA e Prefeitura de Altamira. Posteriormente, as ações da liderança urbanas levam
ao conhecimento de outros movimentos indígenas suas experiências, nos encontros, seminários e assembléias.

A provável realização de um Estudo Prévio no primeiro semestre de 2003 trouxe algumas esperanças de terem uma terra em Altamira, que envolve um processo bem diferente do que ocorre numa situação quando a terra a identificar é na floresta.

Quanto aos Kuruaya aldeados, hoje estão certos que a reconquista de suas terras, além de assegurar um futuro melhor para seus filhos, recuperou a auto-estima do grupo e reavivou sua identidade étnica. Mas também estão cientes que ainda há um longo caminho a ser percorrido. A criação da Associação do Povo Indígena Kuruaya (APIK), como entidade jurídica, trouxe esperança de aprimorar os mecanismos de negociação com outras instituições governamentais ou não-governamentais, particularmente no que concerne ao financiamento de seus projetos. No final de 2002, os Kuruaya estavam na expectativa de terem os projetos de cultivo de cacau e feijão aprovados.

A construção de outra aldeia também está prevista, como forma de ocuparem lugares estratégicos da Terra Indígena e de alocarem novos centros de poder que vão se configurando. A associação criou uma certa mobilidade política-social entre alguns indivíduos, na medida em que passaram a debater questões tanto dentro quanto fora de sua aldeia e se tornaram conhecedores das atividades que envolvem os projetos que visam financiamento.

Tanto no caso dos aldeados como também dos urbanos, a necessidade de escolarização e formação é urgente. Um projeto para atender a esta demanda está sendo desenvolvido pela Universidade Federal do Pará em parceria com o MEC, AIMA e o Departamento de Educação da Funai em Brasília e em Altamira.