Foto: Maira Soares Ferreira, 2008

Kalankó

  • Outros nomes
    Cacalancó
  • Onde estão Quantos são

    AL390 (Funasa, 2009)
  • Família linguística

Festas e rituais

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Há entre os Kalankó três rituais diferentes: o Toré, o Praiá e o Serviço de Chão. Todos eles ocorrem preferencialmente à noite, mas também podem ser realizados durante o dia,  e tem como figura central o pajé, que é líder e principal cantador das cerimônias. Em alguns casos, porém, o pajé pode transferir esta responsabilidade a uma outra pessoa de destaque da comunidade. As mulheres podem participar do Toré e do Serviço de Chão, mas não do Praiá. Entretanto, são elas as responsáveis pela preparação das comidas e das pinturas corporais usadas em todos os rituais.

 

Cantadores e dançadores

Os cantadores são as pessoas de maior prestígio político entre os Kalankó, são eles que têm maior poder de decisão e mais obrigações no grupo.

Os Kalankó dizem que o canto nasce com a pessoa, mas é importante destacar que esta qualidade é transmitida de geração em geração, seguindo uma linha genealógica que remonta às famílias recém-chegadas do aldeamento de Brejo dos Padres (PE). A dança, ao contrário, é aprendida ao longo da vida.

 

Terreiro

O terreiro é um espaço de forma retangular que existe nas principais aldeias do alto sertão alagoano. É nele que são realizados os rituais Praiá e Toré. O terreiro é um dos lugares privilegiados para se receber os encantados.

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Os Kalankó têm dois terreiros onde praticam seus rituais, um em Lageiro do Couro e o outro em Januária. Todo terreiro é chefiado por um indivíduo, que é denominado “pai de terreiro”, e pertence a um encantado, que é o “dono” do espaço.

O terreiro deve, preferencialmente, possuir um poró [casa sagrada onde as vestes cerimoniais são guardadas]. Além disso, em muitos terreiros da região há um espaço denominado oca, onde as pessoas se reúnem para realizar Conselhos ou Torés.

Durante o ritual, o terreiro se transforma em “mato”, espaço de ação dos encantados. Esta transformação acontece a partir de uma formação em cruz, o “encruzamento”, que abre o terreiro para receber a força dos encantados. O encruzamento se refere a um tipo de movimento coreográfico que traça o desenho de uma cruz em todo o terreiro. 

 

Toré

O Toré é uma prática realizada desde o “tempo dos antepassados”. É geralmente oferecido a um encantado e às vezes é realizado em comemoração a uma data especial ou, como falam, só por brincadeira. Trata-se de um ritual que conta com a participação de toda comunidade e pode contar com a presença de não-índios.

O rito pode ser realizado em diversos espaços: no interior das casas ou fora da aldeia, em ambientes públicos, nos quais o Toré ganha uma forte conotação política. Este ritual acontece com muita frequência e se caracteriza por cantos e danças específicas, que cessam quando o cantador emite um grito.

O canto baseia-se numa estrutura de “pergunta-resposta”, na qual o cantador canta dois versos e os participantes respondem com mais dois. Veja os exemplos a seguir:

Caboclo de pena, não pisa no chão (cantador) 
Peneira no ar, que nem gavião (participantes) 

Vamô minha gente, uma noite não é nada 
ô, quem chego foi Kalankó
(cantador) 
no romper da madrugada (participantes) 
Vamo vê se nóis acaba (cantador) 
o resto da empeleitada (participantes) 
Lê lê lê eio há há Há há he Eio a há há (complemento)

No Toré, a voz é o elemento fundamental e a pisada no chão é seu complemento. Um bom cantador é aquele que canta por muito tempo e conhece um grande repertório de cantos.

No final do Toré, consome-se uma garapa – bebida feita a partir da mistura de água com algum tipo de doce, seja rapadura, mel ou mesmo açúcar. Mas antes disso a garapa deve ser “encruzada” (isto é, deve-se fazer o sinal da cruz) três vezes com o maracá e o campiô (cachimbo).

 

Praiá

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O outro ritual é o Praiá ou “Festa dos Encantados”. Ele é realizado apenas em algumas datas especiais: no Sábado de Aleluia, quando tem o nome de “Ritual do Umbu”, pois é a época do umbu selvagem; e no dia 25 de julho, em comemoração ao “ressurgimento” dos Kalankó. Além disso, é praticado quando os Kalankó são convidados para as festas dos outros grupos da região.

O Praiá é um canto masculino que só pode ser realizado nos terreiros. Antes de cada Praiá, o grupo de dançadores se reúne no interior do poró, onde colocam suas vestes e iniciam o rito: cantam, tocam gaita e fazem uso do campiô.

Os cantos do Praiá baseiam-se em jogos de sílabas e vogais emitidos pelo cantador. Além disso, há um complemento característico desses cantos:

Muitas vezes, o desenvolvimento do canto baseia-se na repetição deste complemento.

A dança pode ser realizada de dois modos. O primeiro tipo de formação é em “linha” ou “cordão”, no qual os dançadores dançam em fila, realizando alguns movimentos específicos, mas sempre em roda e em sentido anti-horário.

A cada duas ou três músicas, os dançadores fazem outro tipo de formação, a “parelha”, na qual o canto se torna mais rápido e os dançadores realizam pequenas rodas em casal, com movimentos de ida e volta em direção ao cantador.

O ritual, que tem início às oito horas da noite do sábado, prossegue até o dia seguinte, quando ao meio dia, cada dançador pega seu prato de comida, preparado especialmente para a ocasião, dá três voltas no terreiro, além de um grito em cada um dos pontos de força do terreiro. Em seguida, retiram-se no poró.

No final do ritual, consome-se a garapa, que é colocada no centro do terreiro. Cada dançador, além do cantador, abençoa a garapa com o campiô e o maracá, defumando-a e “encruzando-a”. Realizam mais uma dança e assim o terreiro é “fechado”. Depois disso, os dançadores iniciam o Toré e vão para o poró. E o Toré continua por mais uma hora...

Veste do Praiá

A veste do Praiá é feita de palha de coqueiro (caroá) e é considerada viva. É um elemento marcante dos rituais e da auto-imagem dos Kalankó.

A vestimenta é composta pela máscara, cinta, chapéu e saia. Ela deveria ser refeita anualmente, mas por causa da falta de caroá, os Kalankó fazem-na de dois em dois anos. O chapéu é feito com as penas do peru e o cocar, com as penas da galinha guiné. A máscara é feita da mesma palha da veste. Já a cinta, que é um pano retangular colocado nas costas do dançarino durante o Praiá, é fabricada pela esposa do pajé. Ela é confeccionada com o algodão produzido na região e traz algumas representações gráficas ligadas aos encantados (na maioria das vezes, relacionadas à imagem da cruz).

 

Serviço de Chão

O terceiro ritual é o Serviço de Chão ou Mesa do Ajucá. Nele, busca-se curar enfermidades por meio da consulta direta aos encantados.

O espaço ritual é criado a partir de um pano quadricular que é colocado no chão, com um pouco de fumo e alho em cada uma das pontas. No início, os indivíduos dão três voltas ao redor do pano, fumando o campiô. Depois de “aberto”, o ritual prossegue com três rodadas de cantos, sendo que a primeira deve ser específica deste ritual. As demais podem conter músicas de outros gêneros (do Toré ou Praiá), mas devem ser consideradas poderosas.

Encruza-se o doente três vezes, com campiô, maracá e alho, e o cantador e seus auxiliares (com seus maracás na mão) cantam algumas músicas. Após a segunda ou terceira, o cantador “recebe” uma energia encantada, que receita remédios do mato, dá conselhos ou responde às consultas. No final, encruza-se a garapa, que é servida a todos os presentes.

Os cantos desse ritual, assim como os do Praiá, são repetições de estruturas baseadas em um jogo de sílabas e vogais, mas a diferença é que aqui o andamento é mais rápido – o que é fundamental para garantir a presença e a ação dos encantados. Normalmente, o encantado faz saudações a Deus, a Nossa Senhora, a alguns personagens importantes do alto sertão, como Padre Cícero, Frei Damião e aos presentes e em seguida inicia as consultas.

 

Música no complexo ritual

A música é de extrema importância para a constituição e o reconhecimento social dos Kalankó e está presente em muitos rituais característicos dos povos indígenas do alto sertão alagoano. É o motor das cerimônias.

A partir da década de 1930, quando a sociedade brasileira mostrou-se mais interessada na cultura popular, a música se tornou um dos principais marcadores identitários dos povos indígenas do Nordeste e o Toré assumiu um papel central nas lutas por visibilidade social e reconhecimento étnico.

Há, no alto sertão alagoano, uma rede de relações entre as comunidades indígenas que é alimentada pelas festas. As festas são um espaço de criação e de troca de repertórios musicais entre os Kalankó, Karuazu, Koyupanká, Katókin e Jiripankó: as canções ali ouvidas são geralmente reproduzidas no interior de cada grupo.

De uma certa forma, a música criou redes de sociabilidade entre os grupos indígenas da região, que entre outras coisas trocam músicas e assim fortalecem suas alianças. Partilham a mesma linguagem musical e possuem as mesmas canções, entre as quais se destacam as que estão fortemente associadas ao aldeamento de Brejo dos Padres (PE), pois de acordo com os Kalankó, são mais poderosas.

Instrumentos Musicais

Os Kalankó possuem dois instrumentos rituais: o maracá e a gaita. O primeiro está diretamente relacionado com a ação dos encantados e é também conhecido como chichiá. Muitas vezes é identificado com a “semente” do encantado. O maracá é feito com a cabaça do coité, uma fruta característica da região, e é um objeto que deve ser zelado por seu “dono”, pois caso contrário, a música pode sair “fraca”.

A gaita é um instrumento de sopro que é fabricado a partir do bambu ou do cano de PVC. A gaita é usada como um apito e estabelece a comunicação entre os dançadores. Em oposição ao maracá, a gaita não precisa ser zelada e por isso não é fundamental para o contato com os encantados. 

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