Foto: Saulo Petean, 1983

Gavião Parkatêjê

  • Autodenominação
    Parkatejê
  • Onde estão Quantos são

    PA627 (Siasi/Sesai, 2012)
  • Família linguística

Histórico do contato

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Com base nos relatos dos viajantes do século passado, Nimuendajú mencionou precisamente a localização dos Gaviões nas cabeceiras dos rios Jacundá e Moju, onde tiveram de fato suas grandes aldeias até a década de 60. Nessa área, os contatos e as relações que os índios Gaviões estabeleceram com as frentes de expansão da sociedade nacional apresentaram fases distintas, correspondendo à exploração dos recursos econômicos do rio Tocantins. A primeira delas, com contatos esporádicos, pacíficos, visuais entre índios e "civilizados", quando os pioneiros utilizavam as margens do rio como pousada, perdurou até o final do século passado, quando não havia necessidade nem motivação para se penetrar nas matas do interior.

No início do século XX o extrativismo vegetal (caucho, óleo de copaíba e, finalmente, castanha-do-pará) modificou a estrutura sócio-econômica do médio Tocantins e do Burgo do ltacaiúnas, que veio a ser a cidade de Marabá. A preocupação da população regional em neutralizar os Gaviões data particularmente do início da exploração da castanha — por volta de 1920 — quando se faz a penetração nas matas da margem direita do rio Tocantins, a fim de localizar castanhais.

As tradições orais dos Gaviões se referem a este período, marcado pelo recrudescimento de relações com a "gente civilizada", os kupên. Conforme os relatos de Krohokrenhum, os Gaviões passaram a se "acostumar" com a presença dos brancos em seu território. As relações pareciam inicialmente amistosas, pois eles obtinham dos kupên bens industrializados, como facões e machados. Logo, porém, ocorreram episódios violentos, com mortes de ambos os lados, especialmente após o assassinato de um dos chefes indígenas por castanheiros no baixo rio Tauri. Os Gaviões revidaram e mataram três castanheiros, além de incendiar suas barracas (Folha do Norte 25-03-38). A retaliação de mortes com mortes marcou o recrudescimento das relações com os civilizados.

Os conflitos entre os Gaviões e os coletores de castanha foram-se intensificando na medida em que este produto assumia maior importância para a economia regional. Pela margem direita do rio Tocantins, esses choques armados ocorriam numa extensão de quase 180 km, abrangendo terras dos atuais municípios de Tucuruí, Itupiranga, Marabá e São João do Araguaia. Os Gaviões eram então acusados de praticar 'grandes selvagerias' e em Marabá, principal centro comercial da região, durante as décadas de 30 e 40, políticos locais, comerciantes e donos de castanhais organizavam expedições de extermínio aos Gaviões.

Foi somente em 1937 que o SPI instalou um Posto no rio lpixuna, destinado à atração dos Gaviões. Quase em seguida, vários índios começaram a visitar o Posto para receber ferramentas e outros "brindes". Mas, quando por ocasião de uma dessas visitas, "encontraram o Posto desprovido de ferramentas e sobretudo de farinha, após demonstrarem descontentamento, mataram com várias flechadas um dos trabalhadores. Deixaram de freqüentar o Posto, tendo estabelecido contatos pacíficos em outros pontos do Tocantins inclusive num lugar chamado Ambauá, em frente a Tucuruí" (Arnaud: 1975, 37).

Em 1945, após uma troca de áreas, o SPI instalou um posto em Ambauá, retomando os trabalhos de atração. Os diferentes unidades locais em que estavam divididos os Gaviões alternaram-se nas visitas à área, inclusive com incursões violentas, que eram amplamente noticiadas na imprensa nacional, de modo alarmante, entre 1948 e 1951 (como, por exemplo, as matérias publicadas no Estado do Pará em 29-01-48 e em 0 Cruzeiro de 31-03-51; ver Arnaud: 1984, 12-13).

"O ethos beligerante dos Gaviões, no entanto, também regia normas de expansão territorial dos vários grupos dentro de um mesmo sistema de relações sociais. Não raras vezes, os conflitos internos eram motivados por roubos de produtos das roças, acusações de feitiçaria ou raptos de mulheres" (idem). Foi nesse contexto que ocorreram as cisões, no início deste século, que geraram as três referidas unidades locais dos Gaviões.

O início da década de 50 foi marcado pela ruptura decisiva de uma ordem tradicional, onde a operação do seu sistema de organização social acabara por se debilitar com o esfacelamento dos territórios comuns, as doenças advindas e a depopulação. A total ausência de condições de resistência por parte das unidades locais em que haviam se segmentado fez com que a única possibilidade de sobrevivência fosse a "rendição", a busca do contato com o kupên — o "civilizado", "cristão".

Com a morte do antigo chefe Gavião, a quem os regionais chamavam "Indiuma", que durante toda sua vida rejeitara o contato com os kupên, começou a se firmar nesta época, sobre os poucos integrantes do grupo do Cocal, aldeia dos Parkatêjê, a liderança de Krohokrenhum, cuja trajetória como líder e cantador está relacionada a sua coragem pessoal e a de seus seguidores na aproximação com os civilizados.

Os contatos decisivos com o grupo do Cocal ocorreram em 1956, através de uma expedição organizada pelo dominicano Frei Gil Gomes Leitão e por um tenente da reserva, a serviço do SPI. Com poucos recursos, promoveram o encontro com os Gaviões a fim de evitar que as expedições punitivas organizadas com o apoio de políticos locais alcançassem seu objetivo: exterminar os índios para poderem explorar os castanhais em que eles haviam se fixado.

Em seguida, muitos componentes do grupo do Cocal dirigiram-se para a cidade de ltupiranga, onde sua permanência por cerca de quatro meses, vivendo da prestação de serviços à população local — encher os potes d'água, tirar lenha ou exibirem-se como exímios atiradores de flechas — em troca de roupas e alimentação, resultou numa depopulação ainda mais acentuada quando retornaram posteriormente à aldeia, com epidemias de gripe e sarampo.

Diante do fascínio pela cidade, o grupo havia abandonado a antiga aldeia, socorrendo-se em um local onde não havia assistência sistemática por parte do SPI, os meios de subsistência eram precários e as terras já estavam ocupadas por regionais. Segundo manuscrito de Frei José, dominicano que visitava os Gaviões, aquela área fora adquirida por um deputado de Belém.

Formaram pequenos roçados e começaram a adotar nomes pessoais em língua portuguesa, que, assim como o uso de roupas, consistiam em elementos de um sistema específico de comunicação e interação com os kupên que lhes forneciam bens industrializados". Os agentes do SPI incentivavam os índios a coletar castanha, em troca de facões, machados, munições e gêneros alimentícios. 0 castanhal onde haviam se fixado, arrendado por um "Seu Benedito" que "permitira" instalarem-se ali — tendo assim se tornado "amigo" dos Gaviões — passou a ser explorado individualmente por eles, segundo Da Matta (1967: 115). A produção era vendida em Itupiranga e o transporte era patrocinado por um funcionário da prefeitura daquele município, que veio a trabalhar como agente do SPI entre o grupo. Os Gaviões foram assim iniciados nas operações de compra e venda neste período — princípio da década de 60.

Ao contrário do grupo do Cocal, a "turma da Montanha" foi se estabelecer — em fins de 1960 — no local conhecido como Ambauá, onde já existia um Posto (e pastagens) do SPI desde o início da década de 40. Os contatos sistemáticos com os habitantes de Tucuruí, situada a meia hora de barco a motor da sede do Posto, fizeram com que os Gaviões deixassem de ser vistos como "saqueadores" e passassem a abastecer o mercado local com caça, peixe e castanha. Para os moradores da cidade eles haviam se tornado "crentes". De fato, a partir de 1964, integrantes da Missão Novas Tribos do Brasil haviam se instalado na "Montanha".