Foto: Museu do Índio, S/d.

Terena

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    MS, MT, SP26.065 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Aruak

Atividades produtivas

Agricultura

A agricultura hoje praticada pelos Terena é diferente da que se praticava antes da Guerra do Paraguai. Anteriormente possuíam um território suficiente para desenvolver uma agricultura itinerante, de corte e queima e posterior pousio, por tempo suficiente para a regeneração da fertilidade natural do solo.

Atualmente, confinados nas Reservas – fator fundamental para as transformações ocorridas em sua agricultura tradicional – os Terena possuem campos de cultivo permanentes, utilizando-se da mecanização (tratores) para gradagem, preparo da terra para plantio e eventualmente para a abertura de novas áreas permanentes de cultivo. As práticas atualmente utilizadas são adaptações posteriores a esta "modernização" forçada. Das atividades produtivas praticadas pelos Terena nas Reservas, a agricultura continua sendo a sua principal atividade.

O ano agrícola em todas as Reservas Terena inicia-se em agosto, tendo seu término em março/abril, com o plantio de feijão da "seca". A produção agrícola obtida nas áreas de roça Terena é destinada e para o consumo familiar e, quando possível, para a venda – o que é cada vez mais raro, devido ao aviltamento dos preços agrícolas. Na Reserva Buriti, o arroz, o feijão, a mandioca e o milho são os principais produtos plantados para o consumo. Cultivam ainda para a subsistência o feijão "miúdo", a abóbora, a melancia, o maxixe, entre outros.

As roças, regra geral, pertencem ao grupo doméstico (que engloba eventualmente mais de uma família elementar). Devido à dinâmica de sucessão pela linha paterna, os terrenos já desbravados por uma parentela agnática tendem a ficar no domínio de irmãos consangüíneos, acentuando a patrilinearidade do sistema de parentesco Terena – e a virilocalidade da residência pós-matrimonial (a esposa vai à casa do marido, que é a do pai dele ou muito próxima ao grupo de vizinhança do mesmo). Por força desta composição, as roças de um mesmo grupo de irmãos se distribuem em áreas contíguas. Este grupo – com a autoridade do mais velho – decide sobre quando e o quê plantar e trabalham coletivamente no seu "trecho", apesar do reconhecimento da propriedade individual de cada integrante para cada "trecho". Esta descrição serve para os grupos mais velhos da Reserva, descendentes dos formadores das aldeias ou dos primeiros migrantes. Os migrantes – sem base ou apoio na parentela – tendem a abrir (e foi assim no passado) roças novas em áreas concedidas pela chefia.

Considerando o fato de que as Reservas possuem áreas nitidamente delimitadas e insuficientes para assegurar a segurança alimentar mínima de toda a sua população, a prática da agricultura se dá em terrenos já abertos, e com trator. Até o início dos anos 1990, ainda ocorria um pequeno avanço para as áreas de "capoeirão" (vegetação em estágio de regeneração de 15 a 20 anos) presentes no entorno das roças abertas, através de uma técnica denominada “destoca”: a partir de uma área já aberta, eles adentram a capoeira retirando os troncos mais grossos, de forma que restem os troncos finos e os tocos das árvores. Após o corte das árvores com machado é efetuado a desgalha, retirando os galhos mais grossos para serem aproveitados como lenha. Efetuada a limpeza dos troncos, estes são removidos do interior das áreas de roça e destinados aos mais variados tipos de uso: confecção de caibros, mourões e mesmo venda (madeira nobre com valor comercial). O material restante nas áreas de roça (lenhoso e não lenhoso) era agregado junto aos cepos arbóreos e queimados. Essa "destoca" gradual pode ainda ser hoje utilizada, dependendo da disponibilidade de insumos (óleo, trator e dinheiro para o tratorista).

As áreas novas para agricultura, recém-preparadas, são destinadas basicamente para as roças de milho, arroz (este nas poucas áreas naturalmente irrigadas e de terra preta) e feijão. As áreas destinadas para o plantio destes cereais exigem uma condição de fertilidade de solo diferenciado de outros cultivos. Junto às roças de milho e feijão (nas áreas mais altas) é observada uma grande diversidade de cultivos consorciados, como abóbora, melancia, batata-doce, maxixe, entre outros. Estes cultivos secundários têm a função de cobrir as áreas de solo entre os pés da cultura principal, reduzindo assim o "praguejamento" da roça. Quando a produtividade dos gêneros principais começa a diminuir nas áreas de roça, estas mesmas áreas, no ano seguinte, são destinadas ao plantio dos tubérculos (mandioca, batata-doce, maxixe) e demais cultivos menos exigentes em fertilidade do solo - por um certo período, até a recuperação de parte da fertilidade do solo.

As famílias Terena que vivem da agricultura não conseguem auferir dela a renda mínima necessária para manter, durante todo o ano, seu grupo doméstico. Para que as roças sejam bem sucedidas, as lideranças devem garantir junto aos órgãos governamentais (prefeituras, órgãos estaduais e Funai, nesta ordem) o suprimento necessário de diesel e sementes e contar ainda com que os tratores estejam em perfeitas condições de uso. Porém, esta situação coloca os lavouristas Terena das Reservas na dependência quase absoluta dos insumos externos (óleo e sementes) – dependência esta que acaba por submeter as lideranças indígenas ao mais deslavado "clientelismo", sobretudo por parte das autoridades municipais, ávidas dos votos indígenas. Dado este quadro, os lavouristas indígenas apenas têm o controle sobre "o quê plantar", mas não sobre "o quanto e o quando plantar". Daí as diferenças, ano a ano, verificadas nas áreas efetivamente plantadas nas Reservas.

Outro ponto que merece ser destacado, é a constatação que a desigualdade na distribuição dos lotes de roças, somada às diferenças no desempenho dos líderes das parentelas agnáticas, reflete-se na existência de grupos domésticos mais bem "sucedidos" que outros, em termos de sua "condição de vida" (e os equipamentos domésticos e as roupas são o sinal exterior destas diferenças).

Pecuária

A despeito da “vocação” Terena para a agricultura, este povo jamais deixou de exercer a atividade de criação de gado, vacum e cavalar, ocupação que herdaram, para depois assumirem como própria, na sua prolongada convivência com os Mbayá-Guaicuru. Este conhecimento foi fundamental nos anos subseqüentes à guerra com o Paraguai, para a inserção de muitos Terena como colonos e peões preferenciais das fazendas da região.

Outrora, o acesso às reses parecia estar restrito aos naati – chefes de grupos locais que tinham a prerrogativa de receber, através da troca de suas mulheres com os "maiorais" Mbayá, bois e cavalos. Hoje, este acesso restringe-se aos Terena "bem sucedidos", isto é, que conseguiram dinheiro suficiente para comprar algumas reses, seja através dos longos anos despendidos na changa ou seja por meio de outro emprego qualquer no mundo dos purutuyé. Mas a criação é ainda sinal de status elevado dentro das reservas Terena.

Por outro lado, a criação de gado – dada as limitações das Reservas – tornou-se uma das principais fontes de conflitos internos. E já o era também em tempos passados, visto a divisão proposta pelo então major Rondon quando da delimitação das Reservas de Cachoeirinha e Taunay-Ipegue, entre as áreas de roça e aquelas destinadas à criação. O "fechamento" das áreas de pastagem no interior das Reservas foi sempre causa de problemas políticos, pois subtrai da área comum uma parcela maior que aquelas requeridas pelas roças – e para fins estritamente particulares, já que os rebanhos da "comunidade" introduzidos pelo SPI foram extintos há muitos anos.

Algumas famílias ainda criam porcos confinados. E praticamente todas mantêm uma pequena criação de galinhas, que, junto com a carne de alguma caça e peixe, são as principais fontes próprias (isto é, não adquiridas externamente) de proteína de origem animal nas Reservas.

Apenas em Cachoeirinha e Taunay-Ipegue observamos que o artesanato desempenha papel significativo enquanto atividade econômica – e é uma das fontes de renda das mulheres, além da cerâmica.

Trabalhos temporários

A modalidade de trabalho externo temporário mais antiga entre os Terena é a "empreitada" nas fazendas vizinhas. Na região do antigo território Terena, é muito difícil encontrar uma propriedade rural que não tenha contado com os braços Terena para "abri-la" (isto é, substituir a mata nativa pelas pastagens) ou mantê-la. E suas modalidades (permanente ou temporário) variaram ao longo na história Terena do pós-guerra (do Paraguai): a história Terena registra a passagem do "permanente compulsório" (ou "tempo da servidão", na definição dos Terena de Cachoeirinha), ao "temporário autônomo", passando pela "situação de colônia".

Hoje a modalidade dominante (e quase exclusiva) do trabalho indígena nas fazendas é aquela que chamamos de "temporário autônomo". Em geral, a mão-de-obra indígena é requisitada "voluntariamente" para os serviços instalação de cercas, corte de postes, carpina em pastagens e no auxílio ao aparte de bezerros e na colheita do feijão. Para este tipo de trabalho são preferencialmente aceitos os índios mais velhos (faixa etária dos 35-50 anos) – e sua contratação depende em grande parte das relações de amizade que cultivam, ou cultivavam, com os capatazes destas fazendas. De modo geral, os homens maduros que exercem eventualmente este tipo de trabalho externo já têm sua fazenda "preferencial" (ou seu “patrão”, como dizem).

Já a administração da changa, como hoje é chamado, regionalmente, o trabalho temporário nas fazendas e hoje nas usinas de açúcar e álcool, passaria a ser um dos principais – senão o principal – papel desempenhado pelo núcleo de poder nas Reservas: chefe do PI, capitão e membros privilegiados do "Conselho". Assim, para sustentar a posição de poder, atualmente aquele núcleo é responsável pela indicação exclusiva dos "cabeçantes" – moradores da Reserva, necessariamente alfabetizados e que são os encarregados das "turmas" de trabalhadores contratadas pelo empreiteiro das usinas. Estes "cabeçantes" recebem um salário diferenciado e se responsabilizam integralmente pela "sua" turma (composta por 40 a 60 trabalhadores) distribuindo (e anotando) as tarefas realizadas no dia a dia do corte de cana. A escolha destes indivíduos é basicamente determinada pelas relações de parentela e – sobretudo – pelo aliciamento de lealdades, que ocorrem durante o processo eleitoral, feita pelos candidatos a "capitão". Um bom "cabeçante" traz dividendos políticos para o seu "padrinho”.

No que diz respeito ao trabalho no meio urbano, a partir do final dos anos 1950, a crescente urbanização de grupos familiais Terena está ligada à superpopulação das Reservas e à ausência de perspectiva nelas. Cardoso de Oliveira, que analisou exaustivamente este fenômeno (1968, capítulo VI) registraria, já em 1960, 418 indivíduos Terena morando em Campo Grande. Por essa época, as profissões "liberais" (pedreiro, servente, auxiliar de escritório etc.) e o emprego fixo na extinta NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil) eram as principais atividades exercidas pelos Terena no meio urbano.

Não inventariamos exaustivamente qual o tipo de trabalho que os Terena egressos das Reservas estão exercendo nos núcleos urbanos. Nas entrevistas realizadas, as mencionadas com maior freqüência são a de "empregada doméstica", "segurança" e "vendedor". Os Terena "em situação de cidade" se concentram principalmente em Campo Grande. Entretanto, a maior parte desses índios ainda mantem fortes vínculos com as Reservas.

Caça, pesca e coleta

Essas atividades têm ainda uma importância fundamental para a subsistência de muitos grupos domésticos, particularmente para aqueles mais "pobres" – e que têm poucos recursos para adquirirem proteína animal nos açougues dos purutuyé. Mas estas atividades, por serem clandestinas (as áreas de caça e pesca ainda disponíveis ficam hoje em fazendas vizinhas), não podem "aparecer" (nas caçadas, a arma é sempre escondida e o animal abatido é retalhado e "disfarçado" em um saco, com material vegetal) – nem mesmo para os demais "patrícios".

Estas atividades foram exercidas com mais intensidade até meados dos anos 1970, quando as florestas e matas de galeria da região ainda eram abundantes. Nos cerrados e pantanais (vazantes) vizinhos às Reservas, ainda é abundante a oferta de caitetus, antas, cervos e veados (mateiro e catingueiro). Como os fazendeiros nunca permaneciam (ou permanecem) nas fazendas, e como eram patrícios ou conhecidos os "encarregados" por elas, a permissão para as caçadas estava garantida. Com a "abertura" de áreas contínuas para a formação de pastagens artificiais, nas áreas vizinhas à Reserva – intensificadas a partir dos anos 1970 – reduziram-se ao mesmo tempo as áreas de caça e aumentaram a repressão e vigilância dos “proprietários”.

A caça nas fazendas da região fora reprimida desde a época do SPI, inclusive com castigos sendo reservados aos índios que caçassem nessas fazendas. Por ser clandestina, esta atividade envolve um alto risco – e recursos, como a espingarda e a munição, além de uma disposição para arcar com as conseqüências, pois se flagrado por um funcionário da fazenda, terá sua arma e a peça de caça apreendidos, além da possível admoestação por parte do agente federal da Funai, sem contudo deixarem de exercê-la. Atualmente as áreas mais buscadas são aquelas onde a vigilância dos gerentes é mais frouxa. A utilização de cachorros nestas incursões é vital – mas acarreta um risco a mais. Os detentores atuais dos imóveis vizinhos reclamam que essas expedições assustam o gado, pondo em risco a “integridade” das suas reses (sic).

A pesca hoje é outra atividade que os Terena praticam ou procuram praticar com afinco, apesar de acarretar quase os mesmos riscos da caça. Nos tempos de seca, nas Reservas de Cachoeirinha, Taunay-Ipegue e Buriti, essa atividade envolve um número surpreendentemente grande de índios.

A coleta de mel e frutas, bastante importante no passado recente, já não tem a mesma significação – e parece estar restrita como brincadeira das crianças. Outras atividades extrativistas dignas de nota ainda presentes nas Reservas de Cachoeirinha e Taunay-Ipegue hoje são a lenha (para a cozinha e também para a o cozimento da cerâmica) e as plantas medicinais. A dependência de muitas famílias da madeira como fonte de energia (coisa que já não ocorre, por exemplo, na Reserva Buriti) é, além da cerâmica, a responsável pela manutenção do montante de matas significativas nas Reservas citadas.