Foto: Museu do Índio, S/d.

Terena

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    MS, MT, SP26.065 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Aruak

Organização social

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Em todas as terras Terena, hoje, o “setor” (como os próprios índios chamam e é sinônimo de "aldeia") é a unidade social mais inclusiva, dotado de autonomia política própria, ou seja, possui um "cacique" e um "conselho tribal" que responde pelas relações políticas de cada setor. Menos em Cachoeirinha, onde a figura do "cacique geral" ainda permanece em vigor. Vinculado estritamente à aldeia sede (do Posto Indígena), portanto, o controle político da Reserva passa ainda pelas lideranças desta aldeia; nos demais setores, o "cacique geral" administra a eleição e processo de escolha do "cacique" local. Este arranjo político ainda é fonte de muitas disputas e tensões entre os setores e o "cacique geral" (e o Posto Indígena da Funai, conseqüentemente). Em suma, contrariamente ao que se passa na maioria das outras Reservas, na de Cachoeirinha os setores têm uma autonomia político-administrativa apenas relativa (aos interesses estritos das suas áreas jurisdicionadas e seus habitantes).

Cada setor ou aldeia resolve, dentro de certos marcos normativos, as pendências jurídico-políticas entre seus membros. Assuntos que dizem respeito ao conjunto dos setores da Reserva são tratados em reuniões grandes, com a presença necessária de todas as lideranças dos setores. Em Cachoeirinha, estas reuniões têm lugar em uma área nas vizinhanças da sede do Posto Indígena.

A aldeia (ou setor) é composta por um conjunto de residências situadas dentro dos seus limites, estabelecidos por certos "marcos" (acidentes geográficos, estradas, açudes etc.) e depois de discutidos com as lideranças do conjunto da Reserva no contexto do processo de concessão da autonomia de determinada aldeia, já que as aldeias foram estabelecidas ao longo da história da Reserva. Os interesses comuns, e que constituem a sua unidade, são estritamente políticos: não está em jogo aqui o acesso a lotes para roças (veremos adiante que esta questão está ligada à parentela agnática); o que se cobra do morador de determinado setor é o respeito a certas regras de conduta. Existe uma certa dose de liberdade para o estabelecimento de residência em qualquer setor.

Este quadro de liberdade é condicionado pela própria situação de Reserva: pois, dada a exigüidade territorial, seu espaço não se constitui em uma base indispensável e exclusiva para a produção que possibilite a geração de renda e a subsistência para todos os seus moradores; antes e sobretudo, a Reserva de Cachoeirinha é, para a maioria dos seus moradores, o lugar da moradia e de referência para a atualização da identidade Terena (Cardoso de Oliveira, 1968).

Não se vive da Reserva, mas na Reserva: em Cachoeirinha por exemplo, das 484 famílias nucleares (pai-mãe-filhos menores) recenseadas por nós em 1999, cerca de 87 viviam exclusivamente do trabalho interno nas roças (cerca de 18%); outras 268 combinavam o trabalho nas roças e o trabalho externo eventual (55%); as restantes 129 (cerca de 27%) portanto viviam somente do trabalho externo. Daí a constatação feita por Cardoso de Oliveira, já nos anos 1950, de que "a Reserva Indígena, na área Terena, tem uma significação definida na consciência regional: ela representa uma reserva natural de mão-de-obra".

Portanto, as Reservas Terena não se afiguram como um território indígena, na acepção que este termo adquire quando, por exemplo, nos referimos aos grupos indígenas amazônicos, isto é, como locus fundamental para a reprodução social de uma sociedade, em sentido amplo. Ao contrário, a situação de Reserva foi determinante para o processo de integração dos terena à economia regional.

Casas

As residências se estabelecem em determinado setor tendo por foco aglutinador as parentelas agnáticas (ienõchapá, ou “meus parentes”) – que se constituem na unidade social de maior densidade, política e social, na sociedade Terena contemporânea, seja em situação de Reserva ou de cidade. Essa parentela é constituída por grupos domésticos ligados por laços agnáticos (linha de germanos masculinos), suas famílias de procriação (esposas, filhos e netos) e seus agregados eventuais (filhos adotivos, "primos", ou "tios"), centrado (e organizado) na figura de um chefe – o pai ou (com a morte deste) o irmão mais velho.

As casas destes grupos de irmãos, em geral, localizam-se próximas umas das outras. Seus lotes de roças são contíguos, havendo cooperação econômica e partilha de alimentos entre as casas, constituindo, portanto, uma unidade de produção real que se sobrepõe aos grupos domésticos que a compõe. O apoio mútuo, inclusive político, é a regra – o que não quer dizer que não ocorram problemas e cisões. Aparentemente, o que garante a unidade, o crescimento e o peso político da parentela agnática é a capacidade de liderança e aglutinação do seu chefe – ou seja, sua capacidade de ampliar e manter solidário o grupo de irmãos. Ressalta-se no entanto que, enquanto a composição da parentela agnática é dada genealogicamente (daí seu "fechamento"), a sua unidade é construída pela capacidade do seu líder em efetivar a solidariedade política e a cooperação econômica entre os irmãos (e suas respectivas famílias conjugais).

A residência, por outro lado, abriga o grupo doméstico, composto no seu limite mínimo por duas gerações (pai e filhos) – e, no limite máximo, por quatro (avô, pai, filhos e netos). Do ponto de vista técnico, o grupo doméstico pode ser constituído por uma família nuclear (composta pelo casal e seus filhos solteiros) ou por uma família extensa (pais e filho(s) e nora(s) ou filha(s) e genro(s); ou ainda por dois irmãos e suas esposas ou duas irmãs e seus maridos, caso bem raro no universo Terena). Na Reserva de Cachoeirinha por exemplo, cerca de 13% dos domicílios abrigam famílias elementares; os restantes 87% das casas abrigam famílias extensas, variáveis na sua composição.

A regra geral na sociedade Terena para a residência pós-matrimônio é a patrilocalidade (ou seja, a jovem esposa indo morar na casa do sogro) – pelo menos durante os primeiros anos do casamento, até sua consolidação com o nascimento do(s) filho(s), quando o casal estabelece uma nova residência. Esta nova casa pode ser levantada no grupo de vizinhança do sogro ou de seus irmãos, dependendo do papel mais ou menos aglutinador desempenhado pela parentela agnática. Por outro lado, o número de casos de uxorilocalidade (o jovem esposo indo residir na casa da esposa, que em geral é a casa do pai desta) verificados é alto – e é o fator que "apressa" a construção de uma nova casa pelo marido, via de regra junto ao grupo de vizinhança agnático de onde vem – posto que, em uma sociedade marcadamente patrilinear e que não impõe a obrigação social ou moral de prestar serviços ao sogro – o jovem esposo sente-se desconfortável em ali permanecer por muito tempo (cf. Cardoso de Oliveira, 1968).

Assim, a localização das aldeias é determinada pela distribuição destes grupos de vizinhança, cuja unidade, vimos, é decorrência do processo de constituição da parentela agnática. Mas este aparente equilíbrio na situação social e política nas Reservas é mantido sobretudo graças às regras de solidariedade do grupo de irmãos, que se encontram, hoje, perturbadas pela divisão entre "católicos" e "crentes" (e, nestes, entre as diversas igrejas hoje presentes nas Reservas). Esta divisão "ideológica", no passado recente, chegou a contaminar o próprio núcleo de poder nas Reservas (Cf. Altenfelder para Taunay-Ipegue e Cardoso de Oliveira [1968] para Cachoeirinha).

A distribuição das residências nas Reservas e nos respectivos setores, junto com a localização dos lotes de roças, de pastagens e a cobertura vegetal remanescente, ilustram bem que o espaço para a instalação de novos grupos domésticos nas Reservas chegou, há anos, ao seu limite crítico. Constata-se na situação de Reserva um processo onde, cada vez mais ao longo do tempo, determinadas condicionantes externas impõem as condições de vida ali reinantes.

Deste quadro resulta a necessária procura pelo trabalho externo. E a sua contrapartida perversa, que é a relativamente alta oferta de mão-de-obra e o conseqüente aviltamento da sua remuneração. Por isso não interessa às elites regionais exploradoras desta mão-de-obra a alteração desse status quo – pois são raras, na região, fazendas que não contaram (ou contam) com os braços (baratos) dos Terena para sua abertura e/ou manutenção. Para qualquer observador isento, é patente, hoje, o elo causal entre a situação de Reserva (falta de condições de vida mais dignas, traduzidas na alta taxa de ocupação e na migração), as dificuldades de obter condições de vida melhores no meio urbano e a emergência de ações reivindicatórias inusitadas na história Terena recente: a ocupação de terras contíguas às Reservas, o que aconteceu recentemente no Buriti.

Assim, as alterações nos padrões históricos da ocupação Terena ao longo dos anos e no modo de produção tradicional foram determinados fundamentalmente pela situação de confinamento em Reservas. Está claro que não se pode esperar um retorno idílico e totalmente irreal às bases socioculturais de antes da guerra com o Paraguai; mas é bem possível esperar que as áreas eventualmente recuperadas pelos Terena no Mato Grosso do Sul serão ocupadas segundo seus usos, costumes e tradições – considerando alguns conceitos mais ou menos óbvios para qualquer antropólogo: que os padrões socioculturais são dinâmicos e que se alteram necessariamente frente às vicissitudes da história e que “tradição” aqui (isto é, do ponto de vista antropológico) não quer dizer “salvaguarda de relíquias” e muito menos “resgate cultural” (pois os Terena permanecerão Terena em qualquer situação).

Com isso queremos dizer que, ampliadas as Reservas, é muito provável que se desenvolvam, a partir daí, uma série de novos eventos que alterarão irremediavelmente a paisagem daquelas áreas – tais como a volta da cobertura arbórea nas áreas de pastagens; a reestruturação das matas secundárias hoje existentes; a abertura de novas áreas de roças que aliviarão a pressão sobre os remanescentes vegetais nas áreas atualmente ocupadas; o surgimento de pontos de coleta e uma recomposição da fauna – tornando-a indígena pelo seu modo de uso e apropriação.

Grupos estratificados e metades

Outrora (mas em certas aldeias e dadas certas circunstâncias isso prevelece ainda hoje) a sociedade Terena dividia seus membros em "camadas", segundo a expressão de Cardoso de Oliveira (1976) e cuja filiação era (e se dá ainda) pela linha paterna. Estas camadas são denominadas naati ("gente de chefes"), wahêrê ("gente que pede" ou "guerreiros", ou ainda modernamente "soldados") e cauti (corruptela de "cativo", outrora aplicada a indivíduos de outras etnias capturados nas guerras e incorporados na sociedade terena como trabalhadores e serviçais). Apesar da condição filiativa patrilinear, o segundo podia (ou pode) aceder à primeira condição dependendo do seu desempenho, outrora basicamente guerreiro. São camadas endogâmicas e ainda hoje (em Cachoeirinha, pelo menos) classificam um casamento como "bom" (aquele que respeitou a regra endogâmica) ou "ruim" (que não observou a regra).

Além desta estratificação em camadas, os indivíduos terena estão divididos em duas metades, cuja filiação também é dada patrilinearmente: as metades sukirikionó ("sérios" e "mansos") e xumonó ("gozadores" e "bravos"). Apesar de seu status apenas cerimonial, esse par de metades é levemente desigual, com os Terena emprestando um valor mais positivo aos membros da primeira em relação à segunda (Cardoso de Oliveira, 1976: 49).