Foto: Antônio Carlos Moura, s/d

Tapirapé

  • Autodenominação
    Apyãwa
  • Onde estão Quantos são

    MT, TO760 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Tupi-Guarani

Xamanismo e ritual

A segurança física e emocional dos Tapirapé depende do poder de seus xamãs. Segundo os Tapirapé, para que uma mulher tenha uma criança é necessário que o xamã, o paxe, entregue a alma da criança à mãe. Isso porque, no mundo sobrenatural dos espíritos anchunga, existe um número finito de almas. O espírito, ou alma, da criança entra na mulher, invocado pelo paxe (Wagley, 1988:141). Dessa forma, a esterilidade ou a fertilidade das mulheres são explicadas pela intervenção de seus xamãs.

Segundo os Tapirapé, a principal “reserva” de almas de crianças, fundamental para a continuidade do grupo, localiza-se precisamente na serra do Urubu Branco. Mais especificamente num grande paredão de pedra, que na estação das chuvas dá origem a uma majestosa queda d’água, que se chama Yrywo’ywawa, “local onde o urubu branco (ou urubu-rei) bebe água”, e que deu origem ao nome regional da serra, por ser o habitat dessa espécie de pássaro. Esse local, considerado como sagrado pelos Tapirapé, é morada de Tarepiri, um personagem mitológico que só aparece para os paxe que os procuram. Tarepiri é considerado como guardião de Yrywo’ywawa e de Towajaawa (também conhecida como serra de S. João, outro local sagrado, também citado como morada do Urubu Branco). Tareperi é considerado o “pai das crianças do lugar onde o urubu branco bebe”, Yrywo’ywawa hakawa. Tareperi defende a integridade do local ante a presença de estranhos, franqueando seu acesso aos paxe.

Para garantir a continuidade dos nascimentos no grupo os paxe precisam dirigir-se, em suas viagens de sonho, até yrywo’ywawa e capturar as almas das crianças para introduzi-las no ventre das mulheres. Outro importante guardião de yrywo’ywawa e de Towajaawa é Karowara, o trovão, que também detém um grande número de almas de crianças.

Os ciclos cerimoniais anuais Tapirapé compõem-se dos seguintes rituais: iniciam-se com os xepaanogawa (final de setembro, início de outubro), segue-se à construção da takara (dezembro), depois o ka’o, depois o Marakayja (final de fevereiro, início de março) e termina com o ritual Tawa (final de junho).

No Marakayja, maior e mais extenso ritual Tapirapé, se dá o ponto culminante dos seus ciclos cerimoniais: a iniciação dos meninos e sua passagem à categoria de homens. Para a realização do cerimonial os Tapirapé dirigem-se à região do Urubu Branco e, guiados por seu paxe, que segundo eles controlam a caça, permanecem na região o tempo suficiente para a obtenção do alimento que será consumido no Marakayja. As equipes formadas pelas metades dos wyra perseguem particularmente os bandos de porcos queixadas, considerados excelente alimento, competindo para ver qual das metades obterá maior quantidade de caça. Os paxe, em seus sonhos, dirigem-se à “casa dos queixadas”, localizada precisamente na serra “Towaiyawá” (na grafia de Wagley) ou Towajaawa (na grafia dos atuais Tapirapé) onde mantém relações sexuais com as queixadas fêmeas, provocando aumento dos bandos. A realização do ritual Marakayja é adiada até que se obtenha a quantidade de carne necessária.