Foto: Antônio Carlos Moura, s/d

Tapirapé

  • Autodenominação
    Apyãwa
  • Onde estão Quantos são

    MT, TO760 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Tupi-Guarani

Histórico do contato

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Desde 1910 até 1947 os habitantes de Tapi’itawa, a maior aldeia do grupo, receberam visitas contínuas de funcionários do antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios), prospectores de látex, missionários dominicanos, protestantes, antropólogos e visitantes nacionais e estrangeiros. Essa aldeia, onde a população Tapirapé se refugiou no período de intensa depopulação, é uma das mais antigas e porta de entrada para o território Tapirapé.

O violento aparecimento de malária, gripe e simples resfriados fez sua população despencar para menos de cem pessoas no final da década de 1940 (Baldus, 1970). Com a diminuição da população, os remanescentes passam a se concentrar na aldeia de Tapi’itawa, procurando contato com a população regional e distância dos pontos setentrionais de seu território, permanentemente atacados por grupos Kayapó.

Em 1946, não obstante, a nortista aldeia de Xexotawa é novamente ocupada por um grupo de moradores liderados por Kamaira, importante líder familiar registrado por Wagley (1988). Cerca de duas dezenas de pessoas acompanham Kamaira. Esse grupo optou por viver numa aldeia que não estivesse tão sujeita a contatos com estrangeiros e às doenças trazidas por estes últimos.

Em 1947 Tapi’itawa sofreu um grande ataque, praticado pelos Kayapó Metyktire. A aldeia foi saqueada e a maior parte de suas casas, inclusive a Casa dos Homens, queimadas. Algumas mortes ocorreram, fazendo com que os Tapirapé de Tapi’itawa se dispersassem por núcleos regionais, buscando refúgio em fazendas da região e no Posto Indígena Heloísa Alberto Torres (atual PI Tapirapé/Karajá), do SPI.

A população de Xexotawa, entrementes, também sofreu um grande ataque Kayapó. A data não pode ser precisada porque o grupo se encontrava sem contato com a população nacional. O ataque noturno dos Kayapó fez com que sua população se dispersasse e se dividisse em dois grupos, isolados um do outro, e cujos membros ignoravam o destino dos demais, julgando-os perdidos ou mortos.

Um grupo dirigiu-se para o sul, reocupando o local da aldeia Xoatawa, enquanto os demais permaneceram nas proximidades da aldeia de Xexotawa, localizada nos arredores do alto curso do rio Crisóstomo. Tanto o grupo de Xoatawa quanto o de Xexotawa permaneceram rigorosamente isolados no meio da mata. Perderam contato com os demais Tapirapé, com a população nacional e com outros grupos indígenas por várias décadas até serem reunidos com os demais Tapirapé. Os habitantes dessas duas aldeias permaneceram vivendo nas proximidades da região que atualmente se designa com “serra do Urubu Branco”.

Novas frentes de expansão

Embora a ocupação de não-índios na região date desde os anos 1940, é a partir da década de 50 que ela se intensifica, com as novas frentes de expansão da sociedade nacional, representadas pela pecuária através de grandes empresas agropecuárias e especuladores de terra, beneficiados por uma política de incentivos fiscais originários da Sudam, Banco da Amazônia do programa Polomazônia, se pautando em duas diretrizes básicas: (1) melhoria e ampliação da rede de estradas vicinais de apoio à pecuária e (2) desenvolvimento e consolidação da atividade pecuária.

Em 1954 a Civa (Companhia Imobiliária do Vale do Araguaia) instala-se na nascente povoação de Santa Teresinha. Essa empresa obtivera do governo do Mato Grosso concessão para a compra e venda de títulos de extensas áreas do Araguaia. A Companhia Colonizadora Tapiraguaia, sucessora da Civa que encerrou suas atividades por insolvência no final da década de 50, continuou a negociar os loteamentos incidentes em TI Karajá e Tapirapé.

Todo o território imediatamente ao norte do rio Tapirapé – onde se incluíam o Posto Indígena Heloísa Alberto Torres e as terras habitadas tradicionalmente pelos Tapirapé e Karajá da barra do Tapirapé – fora dividido em “lotes” e vendido a particulares sem maiores delongas. As terras das aldeias da área da serra do Urubu Branco também foram loteadas e tituladas através dessa bizarra concepção original de que seriam terras devolutas e sem ocupação. As terras de Santa Teresinha, atualmente sede do município de mesmo nome, também foram loteadas e vendidas a fazendas que exigiram a retirada imediata de seus moradores tradicionais.

Missão Irmãzinhas de Jesus

Segundo Wagley (1988), em 1950 o responsável pelo Posto, Valentim Gomes, com a ajuda dos missionários Dominicanos, persuadiu as dispersas famílias tapirapé a se reunirem e formarem uma aldeia perto do posto do SPI. A reunião, no entanto, foi parcial, pois permaneceram na área do Urubu Branco os habitantes da aldeia Xoatawa; nas cabeceiras do córrego Gameleira e ao norte da área, o grupo que ficou na região de Xexotawa. Portanto, a instalação da população Tapirapé na nova aldeia, que dista aproximadamente 80 km de Tapi’tawa, e junto à barra do rio que leva o nome do grupo, foi feita por representantes do SPI e não representou uma proposta do próprio grupo indígena.

A partir de 1951, a Missão das Irmãzinhas de Jesus, a pedido do bispo dominicano de Conceição do Araguaia, instala-se junto à aldeia da barra do rio Tapirapé, passando a dar assistência aos Tapirapé na área de saúde. Na década de 70, um casal leigo da equipe da pastoral indigenista da prelazia de São Félix do Araguaia iniciou um projeto de alfabetização na língua nativa.

A chegada da missão, bem como o início de uma assistência regular e de excelente qualidade ao grupo, marcaram também o início da recuperação demográfica dos 51 Tapirapé (Wagley, 1988) reunidos na aldeia nova, Tawyao, próxima ao posto do SPI. Os habitantes de Xoatawa e Xexoatawa, no entanto, permaneceram sem apoio assistencial e tiveram sua população continuamente reduzida pela ação de doenças, ataques de animais selvagens e fome.

Uma vez instalados próximos à aldeia Karajá da barra do Tapirapé, as relações entre os grupos Karajá e Tapirapé ficaram mais amenas e os grupos iniciaram, em 1949-50, um profundo intercâmbio social e econômico.

Em 1964 o primeiro grupo dos remanescentes de Xexotawa fez contato com a população regional de Lago Grande, às margens do Araguaia. Eram três mulheres e duas crianças. Haviam atingido Lago Grande margeando lentamente o rio Crisóstomo e a região entre este e o córrego Antônio Rosa. Pertenciam a um grupo tapirapé que havia permanecido dezoito anos isolado na mata. Nessa ocasião, são trazidos para a nova aldeia. Em 1970 o último grupo remanescente de Xexotawa topou acidentalmente com um caçador regional, conseguindo estabelecer contato pacífico, reencontrando assim seus ex-parentes que moravam na aldeia nova, junto ao posto.

Empresas e posseiros

Nas décadas de 1970 e 80 houve na região da Serra do Urubu Branco e em suas proximidades um violento enfrentamento entre grandes empresas e posseiros pioneiros na ocupação não-indígena da região. Muitas vezes através de pressões, da atuação de milícias armadas e do constrangimento ilegal de modestos posseiros, as grandes empresas agropecuárias forçaram a compra, mudança ou simplesmente expulsaram estes últimos das terras que ocupavam.

Na década de 70, em pleno regime militar, a política do Governo Federal, em especial do Ministério do Interior ao qual se ligava a Funai (Fundação Nacional do Índio), enfatizava a necessidade de ocupação da Amazônia. A oposição às legítimas pretensões territoriais dos Tapirapé foi centralizada pela figura do Coronel Nobre da Veiga, na época o presidente da Funai, e pelo então diretor do Parque Indígena do Araguaia, sargento José Tempone. Os Tapirapé receberam, no clímax das tensas negociações com o Governo Federal e sua agência indigenista em 1981, o apoio da Prelazia de São Félix do Araguaia, da Igreja Católica e de numerosas entidades civis do Brasil e do exterior, que exigiam o cumprimento da Constituição pelo Governo Federal. O “caso Tapirapé”, em que Igreja e sociedade civil aliaram-se na defesa de um caso exemplar, frente a um Estado autoritário e que agia ao arrepio da lei, tornou-se paradigmático das relações índios e Estado nacional nesse período.

As grandes fazendas, com seus sucessores na cadeia dominial, formam a base da ocupação da região com a qual se chocam até os dias de hoje os Tapirapé, os Karajá e outros grupos regionais que foram ilegalmente despojados de suas terras por ato incorreto do estado do Mato Grosso.

Na região em torno do Urubu Branco, principalmente no final da década de 80 até os dias de hoje, registra-se uma série de sangrentos conflitos envolvendo trabalhadores rurais e milícias de fazendeiros locais. Existe nessa região, considerada uma das mais explosivas do país em termos do processo de ocupação fundiária, o costume, por parte de fazendas e grupos econômicos, de contratarem grupos de indivíduos, “pistoleiros”, que formam verdadeiras milícias armadas a assegurarem a integridade do que julgam suas propriedades.

Com o reconhecimento da TI Tapirapé/Karajá em 1983, os Tapirapé passam já no ano seguinte a reivindicar seu território tradicional, o qual nunca deixaram de ocupar: a região do Urubu Branco. Durante o período que vai de 1950 a 80 utilizaram-no como local de moradia até os anos 70 e, posteriormente, como zona de caça, coleta e práticas religiosas.

Em 20 de novembro de 1993, cansados de esperar providências por parte da Funai, 62 Tapirapé ocuparam o retiro de uma fazenda e reocuparam a aldeia Tapi’itawa. Em 1994, a presidência da Funai aprovou o relatório produzido pelo GT (Grupo Técnico) instituído no ano anterior encarregado de definir a área da TI Urubu Branco conforme proposta dos Tapirapé. Em outubro de 1996 o Ministro da Justiça, Nelson Jobim, assinou a portaria 599 declarando essa Terra Indígena como sendo de posse permanente dos Tapirapé, a qual foi homologada no mesmo ano.