Foto: Michel Pellanders, 1989

Surui Paiter

  • Autodenominação
    Paiter
  • Onde estão Quantos são

    MT, RO1.375 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Mondé

Cosmologia e rituais

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Como em muitas sociedades em que o xamanismo desempenha o papel central na vida social, as questões relacionadas à saúde e doença têm ligação intrínseca com o universo sobrenatural. São várias as categorias de espíritos que fazem os homens adoecerem, e também são eles que, quando invocados, podem evitar as doenças ou afastá-las. Existem narrativas associadas a cada um desses seres.

De acordo com a cosmologia suruí, as almas devem atravessar um caminho cheio de perigos. Por exemplo, um urubu gigante os devora; uma pedra os esmaga; dejetos de um lagarto imenso os soterra; uma mulher ou um homem com órgãos sexuais descomunais amedrontam os homens ou mulheres (respectivamente) que chegam; entre muitos outros tormentos. As pessoas corajosas conseguem atravessá-los e chegam a uma moradia eterna e segura, junto com todos os que já foram xamãs. Os covardes ou que cometeram incesto morrem uma segunda vez, ou ficam vivendo nas aldeias das almas imprestáveis. Não se deve pronunciar o nome dos mortos, para que sua alma não ronde os vivos, e para que ele faça em paz a travessia final.

Quanto aos ritos de passagem destacam-se a Festa da Menina Moça, instituição encontrada nos grupos Mondé como um todo, assim como em outros grupos Tupi, que marca a passagem da jovem, da infância para a adolescência na primeira menstruação, ficando a menina de resguardo em uma maloca por um certo período; e a couvade, ou resguardo de sete dias que os pais cumprem após o nascimento de seu filho/a, nesse período não podem fazer qualquer esforço nem comer certas espécies animais.

Os rituais funerários são pouco desenvolvidos, mas os Hoeyateim, rituais de cura e invocação de fartura, podem durar dias e noites seguidos. Tal festa tem uma forte identificação com a floresta, onde começa e termina. Os xamãs lideram com seu bastão uma roda em que homens seguram taquaras altas, de até quatro metros de altura, onde acredita-se que os espíritos se incorporam. Outra roda é composta por homens tocando flautas de um ou dois metros, onde também dizem que os espíritos estão presentes. Em ambas as rodas as mulheres podem dançar acompanhadas do marido.

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Para se entender os Hoeyateim é preciso dizer que os Ho são uma classe de espíritos. A primeira vez a festa se deu depois do contato, com a reconstituiçãqueo do metare, foi em maio de 1979. Era a época de colheita do cará, o começo da seca, e funcionou como uma invocação de abundância. Os Suruí diziam que só a partir daquela época, passadas as grandes mortes do tempo do sarampo, tinham roças suficientemente grandes para realizar a festa e dedicar-se ao metare. Dessa vez não havia comida envolvida, exceto alguns iatir (oferendas menores de bebida) alguns dias antes, e uma distribuição de caça no fim da festa. Em 1980, ao contrário, o Hoeyateim foi feito em conjunto com um iatir.

Num dia são invocados os goanei, espíritos das águas, noutro goraei, espíritos dos céus, que vêm então à aldeia. Em cada uma dessas classes há múltiplos seres, cada qual com seu canto e relatando sua história. Esses cantos, que são os do pajé ao curar e soprar os doentes, são conhecidos de todos.

Dia e noite a música, vinda de outro mundo, faz pairar sobre a aldeia um tom extraordinário, o mesmo temor difuso inspirado na outra aldeia pelo canto de um xamã-aprendiz em reclusão. De longe se vêem, acima das malocas, as taquaras andando como que sozinhas, acompanhadas pela cadência repetitiva das flautas. Em um ou dois dos cinco dias, toda a população é abençoada e soprada pelos quatro xamãs, tanto no metare como na aldeia, recebendo pedras sagradas e talismãs contra doenças. O sopro (sempre ligado à alma) é importante no final da festa, quando todos assobiam em roda.

Nessas ocasiões, o local do metare era fundamental nos rituais, bem como era importante que as metades caminhassem separadamente da mata à aldeia. Longas falas uniam as duas metades na clareira, no início e no fim da festa. Depois desta, as taquaras e flautas eram jogadas ou quebradas na mata, não podendo mais ser tocadas - voltavam à sua origem.

As festas hoje

O conjunto das festas paiter são: Mapimaí (de criação do mundo), Ngamangaré (de roça nova), Weyxomaré (de pintura), Hoeyateim (festa para o xamã controlar os espíritos da aldeia), Lawaãwewa (de construção de casa nova), Ytxaga (da pesca com timbó).

As festas e danças tradicionais sofreram muitas alterações, e muitas vêm, aos poucos, sendo abandonadas devido aos conflitos ideológicos com as novas religiões introduzidas nas comunidades indígenas. A festa Mapimaí, por exemplo, foi realizada no ano de 2002 depois de 12 anos sem ser realizada, segundo os Suruí, em memória à morte de alguns deles.

As festas comemoradas (natal, aniversário, datas civis etc.) pela sociedade não indígena foram em grande parte assimiladas pelos Paiter