Foto: Lima Filho, 1998

Ofaié

  • Outros nomes
    Ofaié-Xavante
  • Onde estão Quantos são

    MS69 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Ofayé

Mitologia

Um dos mitos Ofaié refere-se ao povoamento do mundo. Há muito tempo o Sol andava sempre de intriga com sua irmã gêmea, a Lua. Tudo era gente naquele tempo. O Sol sabia tudo. Ele era o chefe dos homens, mas era ruim. A Lua, ao contrário, era aliada dos homens contra o Sol.

Nesse tempo, não havia caça nenhuma. Os homens corriam pelo mato e não encontravam nada. Estava tudo bem ruim para eles. Por isso queriam matar o Sol. Chegaram no mato seco, rodearam o Sol e tocaram fogo no mato. Mas o Sol fez uma lagoa aparecer ao seu lado e mergulhou na água. Saiu rápido e entrou na aldeia antes dos homens, que ficaram bravos quando retornaram e o viram.

Ele queria que os homens virassem bichos, mas a Lua não deixava. Certa vez, o Sol chamou os homens e disse que o mato estava cheio de frutas boas. Eles estavam famintos e lá se foram. Acharam uma jabuticabeira e nela subiram para apanhar as frutas. O Sol, que estava no chão, pegou um pedaço de pau e começou a balançar a árvore, fazendo uma ventania. Os homens pegaram uma corda e se amarraram nos galhos da árvore para não caírem. Então o Sol fez com que cada homem virasse um bicho.

O que virou anta era muito pesado, caiu e saiu correndo. Outros que caíam foram virando quati, cotia... Os que não despencaram viraram macaco e, para não cair, pularam nas outras árvores. O último virou bugio. Ele começou a puxar os paus do mato e os fizeram crescer. Apareceram então as perobas e os altos cedros. Com os paus, o bugio trançou a copa das árvores, fechando o mato.

Passado algum tempo, o Sol chamou os homens para caçar outra vez e disse: “meus filhos, agora vocês podem caçar”. Os homens estavam com medo, pois o mato tinha crescido demais. Mas tinha muita caça, bandos de macacos... O Sol atraía o macaco, que chegava perto e então o Sol o flechava para ensinar os homens a caçar.

A origem do mel

No começo do mundo o lobo guará era o dono do mel. Todos os dias seus filhotes amanheciam com o peito lambuzado de mel. Apenas ele e seus filhotes conheciam o mel e ninguém mais podia provar.

Todos os animais iam pedir mel para o lobo, mas ele não dava. Quando as crianças pediam mel, o guará dava a fruta do araticum do campo, dizendo que era mel.

Um dia o jaboti disse que ia conseguir trazer o mel para todos. Foi até a toca do guará e disse: “Eu vim buscar o mel que você tem”. O guará respondeu: “Não tenho mel nenhum. Onde é que você ouvir falar isso?”. Mas o jaboti insistiu e o guará lhe disse: “Tá bom. Então deita debaixo dessa poruga e chupa o mel dela. Quando o guará viu o jaboti deitado, pediu aos filhotes que trouxessem lenha. “Agora vamos comer esse bichinho assado.” Tocaram fogo e o jaboti continuou chupando mel, sem ligar para o fogo. Depois o jaboti disse: “Agora que já provei o mel, você tem que dar o mel para meus companheiros”. O guará saiu correndo e o jaboti foi atrás dele, juntamente com outros animais dispostos a pegá-lo. O lobo foi parar num capinzal, o preá tocou fogo no capim e o fogo começou a apertar. Um dos bichos disse então: “Ora, não tem lobo nenhum, o que saiu voando foi uma perdiz”. Mas o jaboti sabia que era o guará que tinha virado perdiz, e ficou observando onde ela iria pousar. Chamou os outros animais para irem até o pau em que ela estava, mas tiveram que andar muito tempo até chegar lá. O pau ficava bem na frente da casa das abelhas, onde estava um marimbondo de cupim, que não deixava ninguém se aproximar. Os passarinhos que iam experimentar o mel eram atacados pelos marimbondos. Mas então o beija-flor disse: “Agora o mato está cheio de mel. Podem tirar quanto quiserem.”

O tatu parente

Por fim, é interessante ouvir o relato do que se passou com o etnógrafo Curt Nimuendajú: “O caso se passou comigo entre os Ofaié Chavante. A caminho para o seu acampamento, encontrei um tatu que derrubei com um golpe do verso do facão no focinho do animal, levando-o para bom assado à fogueira do acampamento. Após a euforia inicial dos índios, um deles notou de repente que o tatu tinha uma orelha furada. Consternação geral! O animal era um companheiro de tribo, pois os Ofaié também têm as orelhas furadas. Entrementes, o tatu, que apenas ficara atordoado com o golpe, começou a se mover novamente; e foi deveras comovedor ver como esses caçadores, que jamais consideram necessário dar golpe de misericórdia numa caça, colocavam o bicho em pé e procuravam fazê-lo fugir. Tiveram, literalmente, que o ajudar a se embrenhar nos protetores arbustos circunvizinhos.”