Foto: Isaac Amorim Filho

Matis

  • Outros nomes
    Mushabo, Deshan Mikitbo
  • Onde estão Quantos são

    AM457 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Pano

Shobo kimo, a casa comunal

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Assim como seus habitantes (os deshan mikitbo, “gente à montante”), a casa comunal deve estar orientada em direção à montante. A casa tradicional matis, de formato retangular, possui duas coberturas chamadas deshan, ou seja, dois “narizes”, uma em cada extremidade. De acordo com o modelo ideal, o shobo se dirige à montante assim comouma das coberturas que se encontra nessa mesma direção e por isso é chamada de “nariz verdadeiro”, deshan kimo.

No momento da construção de uma casa, ninguém pensaria em mal orientá-la, no entanto as possibilidades de transgressão da ordem estabelecida pelo curso das águas sempre existem. De fato, com as redes dispostas no sentido da correnteza, corre-se o risco de dormir em diagonal e sofrer as mesmas conseqüências desastrosas de um banho tomado em direção à jusante: as crianças correm o risco de se virarem elas mesmas contra o curso de sua vida uterina e assim nascerem “sentadas” (situação esta bastante temida pelas mulheres, pois mesmo que a mãe sobreviva, o bebê corre o risco de passar toda sua vida com seqüelas de um nascimento traumático).

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Tanto no banho quanto na rede, o bom curso do mundo, ou ainda, da sociedade, decorre portanto de uma orientação correta dos indivíduos. O pertencimento à comunidade dos deshan mikitbo exige o respeito a um conjunto de restrições.

Tradicionalmente, uma aldeia matis se resumia a uma grande casa comunal, cercada de plantações e de pequenos abrigos mais ou menos distantes, onde se podia ficar retirado, repousando do trabalho na roça ou confeccionando artefatos protegidos dos olhares alheios, da chuva e do sol.

Seria ingênuo supor que atualmente a configuração espacial e a composição sociológica dos grupos matis corresponderiam ainda aos padrões tradicionais. Desde que os Matis vivem em contato regular com os “neobrasileiros”, muitas coisas mudaram, entre elas, sua arquitetura, que ganhou um novo tipo de construção: a casa construída sobre palafitas, uma imitação das casas dos ribeirinhos da região.

Tais casas, muitas vezes chamadas de takpan (o nome da madeira da qual são feitas), são geralmente designadas de nawan shobo, “casas dos brancos”. Esse nome traduz não só a origem nawa do seu estilo, mas também a sua utilização, pois estas casas servem de depósito dos bens de origem não indígena.

Depois de um longo período reunidos em uma só aldeia (desde o início da década de 80), os Matis voltaram a se organizar (a partir de 2005) de acordo com o antigo padrão de ocupação territorial, no qual a dispersão dos grupos familiares em aldeias diferentes é central.