Foto: Delvair Montagner, 1975

Marubo

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    AM2.008 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística
    Pano

A maloca

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Quem chega pela primeira vez a um lugar habitado pelos Marúbo cometerá um engano se tentar estimar a população pelo número de construções. Na verdade, a única construção habitada é a casa oblonga que está no centro, no alto da colina, coberta de palha de jarina da cumeeira ao chão. Aí os moradores dormem, preparam alimentos, comem, recebem visitas, entoam cânticos de cura, assistem ao xamã. A maloca tem até um mito de origem, o do herói Vimi Peya, que aprendeu a fazê-la depois de viver um período no fundo das águas, com os jacarés. Apesar de cada exemplar variar no tamanho, a maloca é sempre feita da mesma maneira, com os mesmos encaixes e amarrações.

As construções que ficam ao redor, onde o declive se acentua, erguidas sobre pilotis, com assoalho e paredes de casca de paxiúba, teto de palha, servem mais como depósitos e são de propriedade individual. Geralmente, o que se guarda nos depósitos são itens adquiridos dos civilizados: ferramentas de ferro, armas de fogo, panelas de alumínio, cabos de aço para amarrar toros de madeira, tigelinhas de lata para látex, faca de fazer incisão no tronco de seringueira, roupas e tecidos, máquinas de costura e outros.

As roças se estendem a partir da colina onde se ergue a maloca, para os vales e colinas vizinhas. Notam-se várias tonalidades de verde conforme os vegetais cultivados: nas partes altas, nas cristas que ligam as colinas, de um e de outro lado dos caminhos, há faixas de mandioca e mamoeiros; nas depressões, milho e bananeiras.

A maloca abriga várias famílias elementares sob a liderança do dono da casa. Este, como qualquer outro homem, pode estar casado também com uma ou mais irmãs de sua esposa. Com ele pode morar o irmão de sua esposa, filhos casados ou sobrinhos (filhos da irmã) casados com suas filhas. Cada mulher e seus filhos ocupam o espaço quadrado, de mais ou menos três metros de lado, marcado por quatro pilares da casa, dois centrais e dois laterais, onde dispõem suas redes, erguem um pequeno jirau para guardar objetos, alguns metidos nas palhas da parede, e mantêm um fogo de cozinha no lado desse quadrado voltado para o centro da maloca. O homem que tem mais de uma esposa pode estar ora no espaço de uma, ora no de outra. O dono da casa costuma ter uma rede em um canto junto à porta principal. Os dois compridos bancos que fazem um corredor pelo qual deve passar quem entre por essa porta servem de assento aos homens da casa nas duas refeições diárias, uma antes de sair para as atividades do dia e outra ao retornar, nas conversas noturnas, quando tomam rapé e ayahuasca, e assistem a sessões xamânicas. As mulheres comem no centro da casa sentadas em esteiras sobre o chão. Junto à porta dos fundos há no chão um tronco escavado, de uns três metros, como um cocho, onde as mulheres trituram grãos e frutos com ajuda de uma pedra chata retangular. Na ausência dos homens, algumas mulheres se aproximam das portas, as únicas entradas de luz, para furar pedacinhos de conchas de caramujos de que fazem contas para diferentes pendentes e colares.

Três elementos parecem marcar a maloca como uma unidade social: cada qual tem seu "dono" (aquele que promoveu sua construção), seu trocano (instrumento de percussão constituído de um tronco de madeira com uma cavidade retangular profunda) e faz seus convites para refeições e ritos.

Entretanto, como notou o etnólogo Javier Ruedas, malocas próximas entre si têm-se articulado, nos últimos anos, em unidades mais amplas. E são esses conjuntos maiores, cada qual com seu nome em português e seu líder geral, que interagem com as agências externas, como Funai, Fundação Nacional de Saúde, Médicos sem Fronteira, Conselho Indígena do Vale do Javari e outras.