Foto: Heiner Heine, 1986

Kulina

  • Autodenominação
    Madiha
  • Onde estão Quantos são

    AM7.211 (Siasi/Sesai, 2014)
    Peru417 (INEI, 2007)
  • Família linguística
    Arawa

Música e cotidiano

Além dos rituais xamânicos, a musicalidade kulina se expressa na forma como o cotidiano é musicalmente representado, seja vocal ou instrumentalmente, nos longos dias do Alto Purus. Ouvem-se mulheres cantando para os filhos ao cozinhar, ao tecer o algodão na roça para tramar suas redes, homens e mulheres tocando suas flautas, cantos de ajie ao anoitecer e os particulares sons do arco musical: o jijiti.

Como a maior parte das canções tem estruturas rítmico-melódicas mais ou menos regulares, é comum ouvir duas ou mais intérpretes cantando o mesmo tema em casas diferentes e em tempos diferentes. Essa musicalidade diária se expressa principalmente através das mulheres; homens raramente cantam no cotidiano. Não que haja restrição ao fato dos homens cantarem. Parece, sim, que há uma divisão de atitudes e papéis que tem a ver com o significado da música para os Kulina. Os homens tocam suas flautas, principalmente os mais jovens, para enviar mensagens amorosas às suas pretendentes, estabelecendo ligações sociais específicas, pois todo o grupo sabe quem executa, o que é e para quem são os sons, de alguma maneira coletivizando a expectativa amorosa.

Formadora e mediadora de sentidos na sociedade madija, a música age como portadora ideal de significados. Quando tocam seus instrumentos, como as flautas totoré e boboreré, assim como o arco musical jijití, as melodias e ritmos guardam semelhanças com as canções. Conhecidas por todos, funcionam independentes das palavras, não podendo dessa forma ser tratadas como molduras, como formas aguardando conteúdo.A música age como um fio condutor labiríntico, que simboliza a necessidade de tradução do contínuo, no qual o mundo dos espíritos, mítico e da natureza sensível formam um todo.