Foto: Kimiye Tommasino, 2000.

Kaingang

  • Outros nomes
    Guayanás
  • Onde estão Quantos são

    PR, RS, SC, SP45.620 (Siasi/Sesai, 2014)
  • Família linguística

Nota sobre as fontes

O presente texto utilizou-se tanto dos registros históricos produzidos ao longo do século XIX e início do XX deixados tanto por indigenistas e diretores de aldeamento como Telêmaco Borba e Horta Barboza, quanto de outras pessoas que registraram aspectos da cultura material e simbólica kaingang, como Pierre Mabilde e Ambrosetti, que conheceram os Kaingang nos primeiros anos de contato interétnico. São publicações que, embora careçam de uma fundamentação antropológica e estejam quase sempre eivadas de etnocentrismos, registraram dados etnográficos imprescindíveis para analisarmos as trajetórias históricas e culturais de um povo que já vive em contato com a sociedade nacional há cerca de duzentos anos.

As fontes etnográficas e etnológicas de cunho acadêmico utilizadas referem-se a autores, como Curt Nimuendaju, Herbert Baldus e Egon Schaden, que se constituem como os primeiros a se debruçarem sobre aspectos fundamentais da cultura kaingang.

Nimuendaju (1913) foi o primeiro a ver um sistema de metades em operação e pode ser considerado o pai da etnologia kaingang. Baldus publicou em 1937 uma etnografia do ritual dos mortos (kikikoi) entre os Kaingang de Palmas-PR. Schaden dedicou um capítulo especial à mitologia heróica dos Kaingang. Os estudos de Nimuendaju serviram de fonte para Métraux publicar um artigo sobre os Kaingang no Handbook of South American Indians em 1946.

Os estudos dos autores acima citados também revelavam uma preocupação com o processo de mudança cultural das sociedades indígenas que, àquela época, adotavam a perspectiva da aculturação progressiva dos grupos em contato permanente com a sociedade nacional e que previam para futuro mais ou menos breve o desaparecimento dos mesmos enquanto especificidades socioculturais.

Entre as décadas de 1960 até o final de 1980 predominaram os estudos que assumem o paradigma antropológico das relações interétnicas e privilegiaram os aspectos das políticas indigenistas e seus desdobramentos sociológicos. São estudos que analisam a violenta expropriação territorial kaingang realizada pelas colonizadoras junto com os governos estaduais que decretaram a redução das terras kaingang e as liberaram para colonos nacionais e estrangeiros. As políticas indigenistas e os agentes indigenistas passaram a integrar as análises, ocupando, quase sempre, o foco principal de atenção dos pesquisadores. Os principais expoentes desses estudos são: Silvio Coelho dos Santos (1963), Cecília Maria Vieira Helm (1974) e Lígia Simonian (1981).

Nesse período é importante registrar a publicação de Delvair Montagner em 1976 sobre os Kaingang paulistas. Munida de metodologia etnográfica e de interesses etnológicos, Melatti mostrou importantes aspectos da organização social kaingang no Estado de São Paulo. No entanto, a autora em sua conclusão entrevia entre aqueles Kaingang um completo abandono dos costumes tradicionais imposto pelas constantes pressões externas.

Os autores desse período estudaram historicamente os grupos pesquisados e seus trabalhos podem ser considerados como contribuições para a reconstituição do processo de conquista desses povos e suas conseqüências. No entanto, a maior parte dos historiadores trabalharam com a história recente a partir da idéia da inexistência de populações indígenas na região Sul e Sudeste do país, criando a falsa noção de “vazio demográfico” quando as terras de planalto interioranas foram colonizadas pelos imigrantes europeus.  Contestando essa visão da história oficial, as pesquisas de etnohistória de Lúcio Tadeu Mota (1994; 1998), resgatam os Kaingang, os Guarani e os Xetá desde os primeiros contatos no século XVIII até 1924 mostrando uma outra versão que contesta a história consagrada nos livros didáticos e acadêmicos onde as sociedades indígenas ou estão totalmente ausentes ou aparecem apenas nos primeiros séculos da conquista de forma estereotipada e etnocêntrica. Sobre a história indígena no Estado de Santa Catarina temos as contribuições de Sílvio Coelho dos Santos e Wilmar D’Angelis e no Rio Grande do Sul, as pesquisas de Lígia Simonian. São trabalhos importantes, mas de difícil acesso.

Ítala Becker organizou em 1976 a publicação de uma extensa pesquisa bibliográfica onde sistematizou o material histórico e etnográfico sobre os Kaingang do Rio Grande do Sul. Esta publicação é de valor incontestável para a etnologia kaingang embora os métodos sejam eminentemente históricos e seus resultados apresentem os Kaingang como “grandemente aculturados, mas não assimilados” (Becker, 1976:11).

A partir da década de 1990, os estudos etnológicos sobre os Kaingang foram retomados com os estudos pioneiros de Juracilda Veiga. Em 1992 Veiga realizou uma sistematização das informações bibliográficas sobre aspectos etnológicos como mitologia, metades e clãs, descendência, residência, parentesco e nominação. A partir dessa revisão bibliográfica e pesquisa de campo realizada na Terra Indígena Xapecó-SC, Veiga apresentou a dissertação de mestrado “Organização social e cosmovisão Kaingang: uma introdução ao parentesco, casamento e nominação em uma sociedade Jê Meridional”, em 1994. Este estudo inseriu os Kaingang definitivamente no cenário dos estudos etnológicos sobre os grupos jê.

Estudos recentes sobre os Kaingang realizados por vários antropólogos da atualidade vêm privilegiando os aspectos etnológicos, tais como Juracilda Veiga (1994; 2000), Kimiye Tommasino (1995), Maria Conceição de Oliveira (1996), Moacir Haverroth (1997), Ricardo Cid Fernandes (1998; 2003), José Ronaldo Fassheber (1998), Ledson Kurtz de Almeida (1998), Angela Célia Sacchi (1999) e Sérgio Baptista da Silva (2001). Essas pesquisas vêm confirmando a relevância das análises etnológicas para a compreensão do presente etnográfico kaingang.