Foto: Paulo França, s/d

Huni Kuin (Kaxinawá)

  • Autodenominação
    huni kuin
  • Onde estão Quantos são

    AC10.818 (Siasi/Sesai, 2014)
    Peru2.419 (INEI, 2007)
  • Família linguística
    Pano

Histórico

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Os primeiros relatos de viajantes na área do Alto Juruá que falam dos Kaxinawá consideram os rios Muru, Humaitá e principalmente o Iboiçu, três afluentes do Envira (por sua vez afluente do Juruá), como o habitat “original” dos Kaxinawá, antes da chegada dos seringueiros. Destes rios eles ocuparam a margem direita, sendo a margem esquerda ocupada pelos Kulina (McCallum, 1989; Tocantins, 1979). Ao que parece, já no século XVIII os colonizadores organizaram excursões à procura de escravos nesta região. Mas deste primeiro contato não se tem nenhum registro. Estas primeiras incursões foram muito fragmentárias e de curta duração.

No final do séc XIX, a partir de 1890, inicia-se uma onda de invasões de caucheiros peruanos e que não demorou mais que vinte anos. Para conseguir o caucho, as árvores precisam ser cortadas e a região ficou logo esgotada. Já a borracha, Hevea brasiliensis, é extraída dos cortes feitos com uma regularidade que preserva a árvore. Por isso a chegada dos seringueiros brasileiros não foi passageira, apesar dos altos e baixos do mercado.

Nesse violento contato os grupos indígenas locais sofreram violência por parte dos exploradores que trouxeram, dentre outras coisas, doenças. Em 1913 a região do Juruá contava com 40 mil migrantes (em sua maioria cearenses), e o Purus 60 mil. A violência era organizada. A função dos mateiros não era somente abrir estradas de seringa, era também limpar a área de índios brabos. A reação dos Kaxinawá era roubar e assaltar, porém alguns grupos deixaram-se amansar pelos seringalistas. Foi o que aconteceu com o grupo de Kaxinawá de Iboiçu, que aceitou trabalhar para Felizardo Cerqueira em troca de mercadorias. Felizardo levou-os do Iboiçu para o Alto Envira e de lá, em, 1919, para o Tarauacá, onde foram usados no massacre dos Papavó (McCallum, 1989). Em 1924 chegaram ao rio Jordão, onde estão até hoje, muito tempo depois da morte do patrão. Os Kaxinawá mais velhos deste rio ainda estão marcados com as iniciais FC (Felizardo Cerqueira) do nome do patrão.

Até 1946, os Kaxinawá do Peru ficaram lá, na mata virgem, longe dos rios navegados pelos comerciantes. Eles preferiam a independência e o isolamento à dependência que implicava maior acesso às armas e utensílios de metal. Através dos Yaminawa eles conseguiram algumas coisas, mas parece que em meados dos anos 1940 eles decidiram que precisavam de mais e mandaram uma equipe de seis homens para o Rio Taraya para negociações diretas.

Com o tempo os Kaxinawá tomaram a decisão de procurar o contato com a civilização, uma decisão de profundas conseqüências, e questionada pelos próprios Kaxinawá.

O contato pode ser inevitável a longo prazo. A curto prazo, no entanto, ele depende da iniciativa do grupo, que em uma geração anterior tinha escolhido a posição contrária. Isto, numa região onde, ainda hoje, vivem etnias, grupos de língua Pano e Arawak, que evitam qualquer contato com a sociedade não-indígena.

Em 1946, quando um visitante brasileiro visitou os huni kuin, eles sabiam o que queriam dele: as mercadorias industrializadas, machados de metal, espingarda etc. O comerciante levou madeira e caucho em troca, mas levou também alguns jovens para trabalhar com ele, o que não estava previsto (Kensinger, 1975:10-11).

Depois, em 1951, chegaram os viajantes alemães Schultz e Chiara: “Encontramos ao todo oito aldeias, com um número de habitantes que variava entre vinte e 120 indivíduos. Calculamos o número total de indivíduos kaxinawá entre 450 e 500”(Schultz, 1955). Em conseqüência desta visita morreu de 75 a 80% da população adulta numa epidemia de sarampo. Os Kaxinawá, porém, consideravam as filmagens da equipe como causadores da onda de mortes: segundo Deshayes e Keifenheim (1982), para os Kaxinawá, que naquela época tentavam dar uma explicação para a tragédia, o filme reduzia a imagem da pessoa e assim, com seu yuxin yuda diminuído, a pessoa morria.

Os sobreviventes fugiram para o Envira e o Jordão no Brasil, onde moravam seus parentes empenhados no trabalho nos seringais. Mas, já na época seca do ano seguinte, a maior parte dos refugiados resolveu voltar para o Curanja, onde não tinha nem seringa, nem patrão.

Balta, a maior comunidade Kaxinawá no Peru, é uma criação do SIL (Sociedade Internacional de Lingüística). Com a chegada dos missionários foi construída uma pista de pouso para o transporte de bens de Pucallpa e instalado um rádio que mantinha contato com a base do SIL em Yarinacocha. No início dos anos 1970 Balta tinha atraído tanto Kaxinawá que seu número chegava a 800 indivíduos.

A segunda maior aldeia Kaxinawá no Peru, Conta, foi construída no Purus perto de Puerto Esperanza, em 1968, por Kaninawa vindos do Envira. Em 1985 Conta tinha superado Balta em número de habitantes, basicamente graças à migração de Kaxinawá de Balta e Santarém, aldeia acima de Balta, que deixaram o Curanja à procura de novos caminhos para conseguir os produtos que até então eram fornecidos pelos missionários.

Conta mantém relações comerciais com Puerto Esperanza, pequeno porto construído ao redor de um posto militar de fronteira. Alguns Kaxinawá de Conta têm feito serviço militar neste porto, experiência marcante e em alguns casos traumática.

As duas aldeias Kaxinawá onde fiz minha pesquisa de Campo, Cana Recreio e Moema, no alto rio Purus, representam a junção destas duas tradições Kaxinawá do último século: a peruana e a brasileira. A primeira, que manteve sua autonomia por mais tempo e viu sua vida aldeal interrompida por menos tempo, é considerada mais " tradicional " (culturalmente mais indígena), apesar de ser marcada pelos missionários e o contato com os militares peruanos, (e) a segunda viveu durante anos de forma mais dispersa e se familiarizou com a cultura seringalista pelo trabalho de duas gerações para o patrão, mas vive hoje em dia um profundo processo de retomada das " tradições ".

As histórias de vida dos Kaxinawá de Cana Recreio e Moema contam a longa viagem entre o Envira e o Jordão no Brasil e o Alto Purus e o Curanja no Peru até parar em Cana Recreio, no Purus do lado brasileiro.

Em abril de 1989, um terço da população de Cana Recreio fundou uma nova aldeia: Moema. Durante minha estadia lá a nova aldeia tinha sete casas.

Fronteira é a terceira comunidade Kaxinawá na área indígena do Alto Purus. Ela é a mais antiga no rio Purus do lado brasileiro e foi fundada pelos Kaxinawá seringueiros do Envira. O líder desta aldeia, Mário Domingos, mudou-se do seringal Vista Alegre, no Envira, para o seringal Triunfo, no alto Purus, no início dos anos 1970, a pedido do dono do referido seringal, Chico Raulino.

O posto da Funai foi instalado em Fronteira, que ganhou uma pista de pouso, hoje em desuso, uma escola, uma farmácia, um rádio ligado à intendência da Funai em Rio Branco e uma casa para o chefe do posto, que acabou servindo de casa para a família do líder Kaxinawá, Mário.

Em 1978 os voluntários do Cimi convenceram um grupo de umas 32 pessoas em Santa Rosa, na fronteira com o Brasil, que desceram durante o ano anterior o Curanja e o Purus, vindo de Balta, a se mudarem para o posto da Funai em fronteira. Este grupo tinha como líder Francisco Lopes da Silva, Pancho, que fundaria dois anos mais tarde a aldeia de Canoa recreio, a uma hora e meia de descida de Fronteira.

O realdeamento em Fronteira é um processo que até hoje não foi totalmente concluído. As famílias parecem prezar mais sua independência umas das outras do que nas aldeias de Moema e Cana Recreio. As casas ficam um pouco mais distantes umas das outras, há umas dez cabeças de gado pastando entre as casas, e as famílias mantêm uma economia relativamente independente. Há, por exemplo, intercâmbios individuais com os marreteiros que navegam o rio e vendem mercadorias em troca de borracha, couro de gado e galinhas. Enquanto essas transações tendiam a ser controladas pela coletividade e os líderes nas outras aldeias do Purus, o líder de Fronteira não tinha, na época da minha pesquisa, a intenção de controlar estas transações e não existia uma cooperativa responsável pela economia da comunidade como um todo, como acontecia em Cana Recreio.

Uma série de trabalhos, no entanto, são feitos em conjunto: as pescarias coletivas no lago ou nos igarapés com timbó (barbasco), a abertura de novos roçados e as expedições de caça por ocasião de grandes festas. Um problema para a realização destas festas é que Fronteira não tem líderes de canto para “puxar” o canto.

A ausência de pessoas idosas que tenham vivido uma vida aldeada (no Peru) quando adultos, provocava um relativo esquecimento de elementos da cultura ao nível dos rituais, da língua e na cultura material. Assim como não tinha nenhum homem ou mulher que soubesse todos os cantos do katxanawa, ritual da fertilidade e do txirin, ritual de iniciação da criança; não tinha mulher que soubesse tecer ou desenhar kene kuin, o estilo Kaxinawá de desenho geométrico. Apesar desta situação marcar também a especificidade e o orgulho deste grupo, que dominava muito mais os códigos da sociedade brasileira do que seus visinhos e que era respeitado por causa de seus poderosos tomadores de cipó, na minha última visita vi que também em Fronteira (como tinha acontecido no Jordão) se procurava aumentar " a ciência dos antigos " com a chegada de parentes do Peru."

A tendência à cisão de aldeias é comum entre os Pano e reflete a base democrática que constitui a comunidade. Todo pai de família pode decidir, por quaisquer motivos, mudar-se para outro lugar a fim de construir uma nova comunidade, se tiver habilidade de persuadir outros a segui-lo. Não existe coerção nestes casos; cada indivíduo, mulher ou homem, escolhe onde ou com quem mora. A única pressão é afetiva; ninguém gosta de morar longe dos seus parentes mais próximos.