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Puruborá: mais um povo ressurgido em Rondônia

20/02/2002

Autor: Gil de Catheu

Fonte: Cimi-Rondônia



O povo Puruborá realizou a sua primeira assembléia no período de 16 a 18 de outubro deste ano, no sítio da dona Emília, na BR 429, perto do rio Manoel Correia,
no município de Seringueiras (RO). Foi a primeira vez que as famílias do povo Puruborá se encontraram, depois de 30 ou 40 anos de separação. E a emoção foi grande.

Eles ressurgem após décadas de opressão nos seringais do rio Manoel Correia e de Limoeiro no rio São Miguel, onde a sua cultura e a sua língua eram proscritas pelo
SPI e onde a convivência com seringueiros da região nordeste do país forçou a mestiçagem.

Para a Funai, o povo Puruborá foi extinto. No mapa de Terras Indígenas da Funai, em Brasília, a terra dos Puruborá, demarcada pelo Marechal Rondon, nem consta
como terra a identificar. Na década de 80, a administração da Funai de Guajará-Mirim negava a identidade indígena dos Puruborá que pediam um
registro chamando-os de bolivianos. Eles e os seus filhos ainda guardam essa ferida.

O Marechal Rondon contatou os Puruborá em 1919 e os deixou na região do rio Manoel Correia, afluente do rio São Miguel aos cuidados de um encarregado do SPI,
José Felix do Nascimento, no lugar conhecido como Colônia ou Posto 2 de Maio. No mesmo ano, o Marechal Rondon demarcou a terra dos Puruborá, com marcos de
madeira fincados no chão. Em 1925 o doutor Benjamim Rondon, filho do Marechal, reabriu a demarcação.

Nos anos que se seguiram ao contato, os Puruborá foram acometidos por epidemias de gripe, sarampo, catapora e caxumba que quase dizimaram o povo. O encarregado José Felix deixou seringueiros nordestinos trabalharem
dentro da área. Ele organizava as festas de brancos durante as quais as moças Puruborá se aproximavam dos seringueiros e depois se juntavam a eles. Ele mesmo
entregava as moças indígenas órfãs para os seringueiros. É que as epidemias tinham deixado muitas crianças órfãs, e o encarregado as criava com a ajuda
de sua esposa Puruborá. Os Puruborá trabalhavam para o "patrão" do SPI, cortando seringa em troca de mercadoria.

Depois da morte de José Felix, em 1949, os Puruborá pediram um novo encarregado, mas o SPI se negou a atendê-los, alegando que o povo já era mestiçado. Daí,
a maioria das famílias saiu para Limoeiro, no rio São Miguel, onde passaram a trabalhar para os seringalistas daquele local. Entretanto, a família de
Paulo Aporeti permaneceu na terra até 1983, quando saiu por motivos de saúde. Profundo conhecedor da mata na região, ele foi contratado para abrir o "pique" da
futura BR 429 que liga Costa Marques a Presidente Médici.

Em 1955, a família da dona Emília, irmã de Paulo, voltou para a terra Puruborá no rio Manoel Correia, onde criou seus nove filhos. Em 1994, dona Emília e sua família foram expulsos da terra pela Funai, porque se encontrava na divisa da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau. Passaram a morar à beira da BR 429, próximo ao rio Manoel Correia onde a sobrevivência tornou-se difícil.

Hoje, ainda vivem 11 idosos, todos nascidos na área próxima ao rio Manoel Correia do tempo do SPI. Os remanescentes do povo Puruborá se encontram nos
municípios de Seringueiras, São Francisco (Distrito de Porto Murtinho ), Costa Marques, Porto Velho e Guajará-Mirim. A população está em torno de 200
pessoas. A maioria está desempregada na cidade vivendo de bicos. Quem comprou um pedacinho de terra, mal e mal consegue sustentar a família.

O Cimi-Rondônia descobriu a existência de famílias do povo Puruborá no ano passado. Desde então, iniciou uma série de visitas às famílias que vivem no município de
Guajará-Mirim. Foi por acaso que foi encontrada a família da dona Emília no município de Seringueiras: a equipe do Cimi estava a caminho do rio São Miguel para
encontrar famílias remanescentes do povo Miguelem, quando foi informada que existia na beira da estrada uma família indígena. A equipe parou na casa indicada
onde encontrou dona Emília. Viu a sua vontade de voltar para a terra do seu povo e prometeu voltar umdia.

O grande encontro

Passaram-se dez meses, durante os quais a equipe do Cimi descobriu outras famílias Puruborá, e, então, chegou o momento de realizar um encontro. O local
escolhido foi justamente a casa da dona Emília, situada próximo à terra tradicional. A viagem foi sacrificada, sobretudo para os mais idosos devido às
péssimas condições da estrada.
Trinta adultos e 15 crianças compareceram. Houve momentos de descontração, com brincadeiras, e momentos mais sérios de reunião. Todos se apresentaram
lembrando o nome de seus pais e o percurso que fizeram depois de deixar o rio Manoel Correia. Com a ajuda do mapa que tinha Osvaldo, vice-coordenador da
Organização de Seringueiros de Rondônia, eles apontaram a terra que querem reivindicar. Também, fizeram um documento para pedir a terra. Já estão
pensando em formar uma associação.

Resgate da língua
A professora de lingüística, Ruth Montserrat, que participou do encontro, conseguiu levantar um acervo de 200 palavras Puruborá. Será montado um manual
didático com o vocabulário e algumas histórias. A língua Puruborá pertence ao tronco Tupi, da família lingüística Puruborá. Paulo Aporeti, 78 anos, explicou
o significado da palavra Puruborá: "É quando baixa o espírito e a pessoa (pajé) vira onça". Ele lembra que o pai e o sogro eram pajés e iniciaram a sua formação.
Todo esse esforço é apenas o início de um processo de resgate da cultura do povo Puruborá que quer ser reconhecido como tal e está disposto a lutar por suas
terras imemoriais.
 

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