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O que é isso Cara Pálida?

03/09/2017

Autor: Mogli Veiga

Fonte: Sul21 sul21.com.br



O Congresso golpista brasileiro discute a PEC 215 - Projeto de Emenda à Constituição, qual visa transferir ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação no País.

O objetivo nada mais é dar uma carta branca às bancadas ruralista e da bala, a liberdade de prender, escravizar e, se for necessário matar esse povo sem alma.

Essa guerra é antiga, vem desde a invasão dos europeus na América.

Algumas pessoas irão dizer que esse posicionamento é retrógrado, arcaico, ideológico, etc., mas enquanto nós brancos, não entendermos que somos (nossos antepassados) invasores dessa terra, e esse entendimento pressupõe respeitar os donos da casa, essa guerra não terá fim.

Imaginemos a seguinte imagem: você está em casa, depois de um dia de trabalho, quando de repente ouve um estrondo. Trata-se alguém que chuta sua porta arrombando-a, entra sem pedir licença, senta no sofá, tira o controle da TV de sua mão, manda as crianças se recolherem aos seus quartos, pede silêncio e ainda pergunta por que não lhe foi servido o jantar e uma cerveja gelada. Em caso de resistência, chama o choque e manda lhe recolher aos costumes.

Como dizia o Gal. William Westmoreland, comandante das forças estadunidenses no Vietnã, uma repetição da igreja católica na época do descobrimento da América, os povos locais não tem alma, são selvagens e precisamos dominá-los e impor nossa crença, nossa civilização (?).

Assim vivem os povos originários. O que acontece a esses povos no presente?

A jornalista Eliane Brum, publicou no jornal El País em 6 de fevereiro de 2017, uma coluna em que trata da questão indígena atingidas pela hidroelétrica de Belo Monte e pelo projeto de exploração de ouro, denominado Belo Sun, ambos situados no Rio Xingu e bem próximos um do outro, matéria esta que reproduzimos trechos a seguir.

"O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído"?

O Brasil etnocida avança na Amazônia paraense: primeiro Belo Monte, agora Belo Sun.

Ele era um ancião. Seu povo, Araweté. Tinha o corpo vermelho de urucum. O cabelo num corte arredondado. E estava sentado ereto, as mãos abraçando o arco e as flechas à sua frente. Ficou assim por quase 12 horas. Não comeu. Não vergou. Eu o olhava, mas ele jamais estabeleceu um contato visual comigo. Diante dele, lideranças indígenas dos vários povos atingidos por Belo Monte se revezavam no microfone exigindo o cumprimento dos acordos pela Norte Energia, a empresa concessionária da hidrelétrica, e o fortalecimento da FUNAI. Ele, como outros, não entendia o português. Estava ali, sentado numa cadeira de plástico vermelho, no centro de convenções de Altamira, no Pará. O que ele via? Há 40 anos, ele e seu povo nem mesmo sabiam que existia algo chamado Brasil. Possivelmente isso siga não fazendo nenhum sentido, mas agora ele está ali, debaixo de luminárias, sentado numa cadeira de plástico vermelho, aguardando seu destino ser decidido em português. O que ele via?"...


"Aldeias se dividiram. Indígenas deixaram de plantar roças para comer produtos industrializados. A desnutrição infantil disparou, assim como os casos de diarreia."

"Mas, em vez de haver uma responsabilização do Estado, em todas as suas instâncias, o governo do Pará deu em 2 de fevereiro a licença de instalação de outro gigantesco projeto: a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, bem ao lado de Belo Monte."...

... "Um dos engenheiros que assina o relatório encomendado pela Belo Sun, atestando que o projeto é viável e seguro, é o mesmo que assinou o laudo atestando a estabilidade da barragem do Fundão (Samarco), em Mariana".

"Como o velho Araweté vai compreender esse mundo dos brancos que destrói o seu mundo e o mundo de outros povos indígenas? Como vai compreender uma lei que existe para não existir? Mas ele está lá, ereto, há quase 12 horas sem comer, sem vergar. Sentado na cadeira de plástico vermelho."

Outro evento recente trata da luta de uma aldeia mapuche na luta contra multinacional proprietária de um latifúndio na Patagônia argentina.

A noticia também foi publicada pelo mesmo El País em 08/08/17:

"Jones Huala, o líder indígena em greve de fome que abala a Argentina e o Chile

"Sou um símbolo da luta de meu povo", fala da prisão o chefe do grupo que ocupou terras da Benetton.

A Argentina e o Chile o chamam de terrorista, e há mais de um mês está na prisão de Esquel, a 1.800 quilômetros de Buenos Aires, à espera de uma possível extradição, mas nenhum dos dois países parece capaz de controlar Facundo Jones Huala, o líder mapuche que conseguiu chamar a atenção internacional com sua ocupação das terras da Benetton na Patagônia, onde a empresa italiana tem quase um milhão de hectares. Da prisão, ele se defende em uma conversa com o EL PAÍS e nega as acusações de que seja terrorista.

O Chile entende que o lonco (como são chamados os chefes mapuches) é o principal responsável pelo incêndio de um latifúndio em janeiro de 2013, e pede sua extradição para julgá-lo como terrorista, uma acusação pela qual pode ser condenado a 18 anos de prisão. A Suprema Corte argentina nega a entrega do acusado, mas a justiça comum iniciou outro julgamento contra ele pela mesma causa.

Em 27 de julho, os presidentes Mauricio Macri e Michelle Bachelet tiveram um novo encontro diplomático no Chile, no qual comemoraram "ter dado um novo impulso entre os dois países nas boas relações e na integração". Ao mesmo tempo, em um controle na província de Rio Negro, a Polícia argentina prendeu o lonco mapuche Facundo Jones Huala, que possuía um pedido de captura internacional. Ele é acusado pelo incêndio no latifúndio Pisu Pisué, na região chilena de Los Ríos, em 2013, além do porte ilegal de armas de fabricação caseira e a infração da Lei da Estraneidade. "...

El lonco é o líder do grupo denominado RAM - Resistência Ancestral Mapuche, cujo núcleo encontra-se na reserva mapuche de Cushimen situada nas terras da Benetton em Leleque.

Na última disputa entre os mapuches e a gendarmería, na Ruta 40 próximo a Leleque, desapareceu um simpatizante do movimento, Santiago Maldonado, que se encontra desaparecido até a data de hoje, conforme noticia o El País na mesma matéria.

O genocídio dos povos originários, como dito acima, vem desde o descobrimento da América.

No período colonial os espanhóis dominaram os Astecas no México e os Incas no noroeste da América do Sul (que não são trigo limpo, como diz um amigo). Tentaram fazer o mesmo na Patagônia chilena, onde os povos araucanos resistiram até ser feita a Paz de Quillin.

Mas o maior genocídio se deu quando os países americanos já se encontravam independentes (?).

Após o processo de independência e da aprovação da Constituição que oficializava os EUA como um país, o presidente George Washington começou a incentivar a colonização das terras que estavam na faixa oeste do país, com a intenção de obter vantagens econômicas e políticas através da expansão territorial, a chamada Marcha para o Oeste ou Conquista do Oeste, teve como consequência a Expansão territorial dos Estados Unidos.

A conquista do oeste aconteceu com a dizimação dos povos originários que foram reduzidos e, o que sobrou, foram confinados em reservas.

Na Argentina, o Presidente tucumano Julia Rocca, a pretexto de colonizar o País, patrocinou a chamada Conquista do Deserto, autorizou a perseguição aos tehuelches pelos colonizadores britânicos: ingleses, galeses e escoceses. Na Terra do Fogo e ilhas austrais, povos foram totalmente dizimados, como os yaganas.

O Brasil não foi exceção. Na região sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o governo fazia vista grossa aos bugreiros, assim chamados devido à sua função: matar bugres, como os índios eram denominados à época. Eram grupos de 8 a 15 homens caçadores de índios. Destacou-se nessa época, um homem chamado Martinho Bugreiro que perseguia e matava os índios xoclengue, um ramo guarani, em Santa Catarina.

Todos esses fatos contaram com o incentivo e o apoio dos luteranos na América do Norte, e da igreja católica na América Latina.

Tudo isto para quê? Talvez a resposta esteja na música de Carlos Berbel: Amutuy: Soledad.
 

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