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Esculturas da natureza

05/05/2017

Fonte: Valor Econômico, Eu & Fim de Semana, p. 24-25



Esculturas da natureza

Maria da Paz Trefaut

Mayawari Mehinaku se aproxima da reportagem e entrega seu cartão de visitas, com número de telefone e endereço de e-mail. "Manda um WhatsApp se você quiser comprar algum banco, vamos negociar o preço", diz. Ele é um dos índios do Parque Indígena do Xingu que veio a São Paulo para o lançamento do livro "Bancos Indígenas do Brasil" (Bei Editora, 352 págs., R$ 90).
O livro reúne itens da coleção dos proprietários da editora, Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim, que há 20 anos garimpam peças país afora. Hoje, possuem mais de 400 bancos de madeira do alto e baixo Xingu, sul da Amazônia, Centro Oeste, norte do Pará e Guianas. O acervo está localizado em uma casa dos anos 50, com escada de jacarandá e tijolos de vidro, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. Parte significativa será levada a partir de 2018 para o Japão, onde participará de uma exposição itinerante de dois anos que se inicia e termina em Tóquio. A primeira exibição será no Tokyo Metropolitan Teien Art Museum.
Segundo o editor Tomas Alvim, essa significativa coleção de arte indígena nacional, com peças de mais de 26 etnias, começou quase como uma diversão. Anteriormente, o conjunto era visto como artesanato de criação coletiva, sem autoria. Conforme a coleção foi se configurando, as peças mostraram peculiaridades e foi possível identificar 32 artistas que, pela primeira vez, foram reconhecidos e tiveram direitos autorais declarados. A partir desse momento, a produção do livro se estendeu por quase dois anos.
Parte do conjunto foi exposto recentemente na feira SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, em seção com curadoria do artista Sergio Fingermann e cenografia de Claudia Moreira Salles. Na cultura indígena, os bancos têm uma função meramente utilitária, mas no contexto urbano parecem esculturas que transformam em figuras de animais o universo cultural de diferentes etnias. Há macacos, antas, tamanduás, jacarés, araras, onças aladas e seres cuja identificação é mais difícil de nomear. "Será um besouro ou uma aranha?", questionam os próprios colecionadores, olhando para um dos bancos.
Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim, que iniciaram coleção há 20 anos, dizem que é necessária a existência de um museu no país dedicado à arte indígena Fingermann, que incentivou os sócios da Bei a iniciarem o acervo, diz que o país tem dívida com a cultura indígena. "Até agora nenhuma instituição se sensibilizou ou achou que deveria ser guardiã dessa cultura", diz. "Nesses bancos eles olham para a natureza criando uma segunda natureza - que tem a ver com a contemplação e a fascinação. Aí, sim, como forma de transcendência, ressignificam um tronco de madeira e criam uma escultura, um objeto artístico."
Energia acumulada e pulsão estão presentes na criação desses objetos que transcendem o utilitarismo e a categoria puramente antropológica, na visão de Fingermann. "Vejo nesses bancos um excesso que vai além da função. Eles trazem uma expressão de beleza, que me alimenta esteticamente como algo que religa o homem e a natureza. É uma outra maneira de ver o mundo para a qual nos faz bem olhar."
Muitos desses índios-escultores não falam português e raramente saem de seu hábitat. Alguns demoram quatro dias para chegar a São Paulo e carregam suas peças em barcos e ônibus. O interesse de Marisa e Alvim em comprar tais bancos se propagou por recônditos do país. Hoje, Alvim chega a receber telefonemas de índios que estão na rodoviária com suas peças e mensagens de WhatsApp com fotos de outros artistas que estão longe e querem divulgar seu trabalho.
Esculpidos em toras de sucupira, jatobá e pau-brasil, os bancos são parte de uma sabedoria milenar transmitida em família de geração a geração. Antigamente eram feitos com dente de piranha, ossos ou com qualquer ferramenta improvisada. Agora, já há facões, serras e lixas. Nada é planejado previamente ou medido. "A gente não tem teoria. A matemática, a proporção, o tamanho está tudo na cabeça", explica o artista Kananri Kuikuru. "Bancos maiores podem demorar até 15 dias para serem feitos. O primeiro trabalho nunca fica bom", diz.
Falando entre si em aruak, os artistas participaram de um debate coordenado pela designer Baba Vacaro na loja Dpot, em São Paulo, que vende os bancos. Na ocasião, um deles lhe perguntou o que era design.
"É isso que vocês fazem", respondeu.
Independentemente da etnia do autor, os bancos têm funções utilitárias diferentes e seguem uma hierarquia: o do pajé, o do cacique, o banco de sentar na festa e o de pensar durante o retiro, quando os índios acordam às quatro da manhã para a festa do Quarup, ritual de homenagem aos mortos, celebrado pelos povos do Xingu.
Os bancos são sempre destinados para os homens. Para as mulheres, há uma esteira pequena e colorida, feita com pequenos rolos de madeira amarrados. Nela, as índias devem sentar-se com as pernas estendidas e a coluna ereta. Todos os rituais são parte da educação indígena e das práticas da comunidade.
Na introdução do livro, a designer Claudia Moreira Salles escreve que os indígenas de diversas etnias acreditam que "as pernas flexionadas, com os joelhos apontados para cima, propiciam o contato entre a terra e o céu - talvez uma explicação para a pouca altura dos assentos (ou talvez, nesse universo mágico, não caiba buscar explicações)".
O principal mercado para esses bancos são lojas do Sudeste, e a procura tende a crescer. Se o fechamento das lojas da Funai foi uma perda para a exibição e comercialização da arte indígena, o WhatsApp e a internet representam uma nova possibilidade de comunicação. Os bancos menores custam a partir de R$ 500, mas os mais antigos e maiores podem chegar a R$ 15 mil. "Eu venho aqui para divulgar nosso trabalho e manter as tradições. Sou graduado em arte e literatura, mas gosto de dançar e estar entre meu povo. Lá a gente fala nossa língua", diz Mehinaku, espécie de porta-voz do Parque Indígena do Xingu.
Para a colecionadora Marisa Moreira Salles, o acervo, o livro e a abertura da coleção para o público podem ser o início do estudo desse tipo de arte até aqui tão pouco valorizada. "Há muito que estudar. Veja a grandiosidade destes bancos como objetos artísticos. Creio que não há contribuição maior à arte indígena do que os mostrar. Diante deles percebemos que há uma estética que nos aproxima."
Estudar essa linguagem é algo que Marisa e Alvim propõem. Eles lamentam que o Brasil não possua nenhum museu dedicado à arte indígena e acreditam que é preciso dar os primeiros passos nesse sentido. Sem qualquer preocupação em avaliar o valor da coleção atual e recusando-se a vender qualquer objeto, os sócios da Bei começam a dar os primeiros passos para a construção de um acervo de máscaras indígenas.


Valor Econômico, 05/05/2017, Eu& Fim de Semana, p. 24-25

http://www.valor.com.br/cultura/4957940/esculturas-da-natureza
 

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