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Favelas avançam no cenário de Arraial do Cabo

07/10/2007

Fonte: O Globo, Rio, p. 30



Favelas avançam no cenário de Arraial do Cabo
Contraste entre águas cristalinas e morros cobertos de barracos assusta visitantes; ocupações ilegais já são alvo do MP

Taís Mendes

Na contramão dos últimos investimentos na Costa do Sol para estimular o turismo, o município de Arraial do Cabo é o cenário da degradação. Enquanto a cidade de Cabo Frio, por exemplo, inaugura aeroporto internacional e amplia estradas, a favelização em Arraial do Cabo é crescente e assusta os visitantes, com o contraste entre as águas cristalinas e os morros cobertos por barracos. A ocupação desordenada tem sido alvo do Ministério Público estadual, que já solicitou à administração municipal um diagnóstico da região.
Um sobrevôo na área do Parque Municipal da Praia do Forno revela um cenário devastador. A área de preservação ambiental (APA) transformou-se numa grande favela, batizada de Morro da Cabocla. E a ocupação avança: do outro lado da montanha, junto à Enseada do Forno, uma das praias mais belas da região e até então preservada, já é possível ver construções e áreas desmatadas. E não faltam ofertas da especulação imobiliária. Para se ter uma idéia, um barraco no alto do morro está à venda por R$ 15 mil.

- Infelizmente, os órgãos ambientais não agiram no tempo certo para evitar a degradação - comentou o ambientalista Ernesto Galiotto, que, com um avião bimotor, flagra as agressões ambientais na Costa do Sol.

Biólogo: fauna típica da área pode não se regenerar
Segundo especialistas, os prejuízos à fauna endêmica do Parque Municipal da Praia do Forno são irreparáveis. O biólogo Alexandre Terra diz que a vegetação do lugar é única no mundo:
- O morro é coberto por estepe, com espécies que só ocorrem entre Búzios e Arraial do Cabo. Boa parte já foi destruída e não há garantia de que consiga se regenerar.
Anteontem, representantes do Ministério Público, da prefeitura e da Feema estiveram reunidos para tentar encontrar uma solução para a área.
- Temos que salvar a última nesga ainda preservada do morro. Mas não adianta impor limites se não há fiscalização - criticou Carlos Alberto Muniz, agente da Feema na região.
O prefeito Henrique Melman, em seu segundo mandato na administração do município, não concorda:
- A área não pertence à prefeitura e quem tem que tomar conta é o dono.
O promotor Murilo Bustamante não compartilha da opinião e já solicitou um diagnóstico sobre a situação:
- Há uma discussão fundiária entre os moradores e a Marina do Cabo, que não conseguiu implantar projetos na área por questões ambientais.
Mas a preocupação do Ministério Público é com a natureza, ocupada por pocilgas e pequenas agriculturas. Estamos acompanhando para buscar uma solução que atenda à proteção do meio ambiente.
No município, de 35 mil habitantes, há uma outra favela - o Morro da Boa Vista - debruçada sobre a Praia Grande e onde a ocupação desordenada não é o único problema. Segundo denúncia de moradores, o tráfico armado estabeleceu-se na favela. Uma visita ao lugar não deixa dúvida: as paredes estão pichadas por uma facção criminosa e já há registro de confrontos entre bandidos e policiais. No dia 19 de setembro, PMs subiram a favela após denúncia da existência de tráfico de drogas. Na troca de tiros, um bandido morreu.

- Não sei de crime nenhum - disse o prefeito. - Arraial não está favelizado. O Rio é que está.
As favelas não são as únicas agressões ao ambiente de Arraial do Cabo. O recente acordo entre o município e a Petrobras, transformando o Porto do Forno em estaleiro de plataformas, divide opiniões. Se por um lado alguns hoteleiros festejam a ocupação com a mão-de-obra, por outro há quem preveja um futuro nada promissor. Há 50 anos no município, a proprietária da primeira pousada de Arraial, Gisele Rebiere, está prestes a vender o negócio:
- A chegada da Petrobras transformará Arraial do Cabo em uma Macaé. A prostituição já começa a chegar à cidade e não quero esse tipo de turismo. Caso ocorra um acidente, será o fim da pesca também - alerta, lembrando que Arraial é uma reserva extrativista de pesca. - Sem falar na poluição da paisagem. Vou lançar um caderno para que os turistas comentem o que estão achando disso e depois o entregarei ao prefeito.
Paulo Ribeiro, presidente da Associação de Turismo de Arraial do Cabo, tem se reunido com donos de hotéis e pousadas para discutir a vocação do município. Em sua pousada, instalada em frente ao porto, a presença da plataforma na paisagem já espantou turistas.

- Não consegui ainda enxergar os benefícios do petróleo. Só os malefícios. Quem lucra com petróleo são os municípios que recebem royalties, o que não é o caso de Arraial. Ficamos só com o rebotalho - diz Ribeiro.

Prefeito diz que estaleiro garante 500 empregos
O prefeito argumenta que o negócio garante à cidade pelo menos 500 empregos - segundo moradores, inalcançáveis para muitos.
- Meu filho não conseguiu a vaga porque não estava qualificado para o serviço. A maioria que trabalha na plataforma é de fora - contou um barqueiro, que se identificou apenas como Huka.
Com o fechamento da Companhia Nacional Álcalis, que deixou de injetar dinheiro na cidade, a degradação de Arraial agravou-se ainda mais. A empresa, instalada no município há 50 anos e que empregava cerca de 900 moradores, deixou para trás instalações corroídas pelo tempo, poluindo ainda mais o cenário do município. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou há duas semanas da inauguração do aeroporto de Cabo Frio, recebeu dos ex-funcionários um dossiê sobre a situação da Álcalis e prometeu ajudar. Quem apostava na vocação turística do município lamenta tanta degradação.

- Arraial tem vocação evidente para turismo, mas a saída da prefeitura tem sido fazer investimentos fáceis, como esse com a Petrobras. Promover o turismo requer vontade política, que não há no município - argumentou Patrick Rebiere, dono de uma agência de turismo em Arraial.

O Globo, 07/10/2007, Rio, p. 30
 

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