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Um recado do Xingu

12/09/2017

Autor: FAUSTINI, Marcus

Fonte: O Globo, Segundo Caderno, p. 2



Um recado do Xingu
Ouvir os povos indígenas, sua visão de mundo e cultura, é uma das coisas que todo brasileiro deveria fazer em vida

Marcus Faustini

"Nós somos os brancos que têm contato com a cultura indígena." A frase é do cacique Afukaka, da aldeia Ipatse, do povo kuikuro do Alto Xingu. Voltei de uma semana de imersão na aldeia e essa sentença enigmática se revela como um saber sobre anos de interação conflituosa.
A aldeia dos kuikuros é uma das quase duas dezenas de aldeias dos povos indígenas do Xingu. Para chegar nela, pegamos um voo do Rio até Brasília e depois mais 17 horas de ônibus até a cidade de Canarana, no Mato Grosso - cidade-entreposto do agronegócio na região, com forte presença de descendentes de alemães vindos do Sul do país. De lá até o Xingu, são mais quatro horas de carro, quilômetros de fazendas com plantações de soja, milho e gado. Um deserto amarelo com um festival de anúncios de pesticidas em partes da estrada. A placa que demarca o limite de começo da região do Xingu está cravada de tiros. Uma demonstração da ameaça e da tensão que rondam a vida das populações indígenas, mesmo com a importância que o Parque Indígena do Xingu possui - criado em 1961 pelo então presidente Jânio Quadros, foi a primeira terra indígena homologada pelo governo federal. Seus principais idealizadores foram os irmãos Villas-Bôas, e Darcy Ribeiro deu o contorno legal e fundamento ao ideário.
Manter a cultura do povo Kuikuro é uma das maiores preocupações presentes na fala do cacique em todas as conversas que tivemos. O canto, a dança, a pesca, a mandioca, o artesanato e sobretudo o registro e a preservação do Karibe - a língua da etnia. "É essa cultura que fortalece a identidade para lidar com ameaças: sem essa cultura forte, quem quer o nosso fim já teria entrado aqui e nos destruído" - mais uma frase de lucidez extrema do cacique Afukaka, que permanece na lembrança enquanto escrevo a coluna desta terça. Na mesma semana da imersão, diversas etnias realizavam manifestações em Canarana. O governo tirou um gestor de saúde indicado pelos povos indígenas e colocou alguém de indicação política. O uso político de tudo que diz respeito aos povos indígenas, sem a consulta e participação deles, é um dos principais problemas apontados por eles no atual cenário. E o objetivo é claro: esvaziar a causa e direitos para aumentar o espaço de produção do agronegócio e da mineração no país.
O esvaziamento é sentido no cotidiano da aldeia. No posto de saúde presenciei médicos residentes, de um projeto de uma universidade paulista, relatando dificuldades em receber diagnósticos dos exames que realizam e enviam às instâncias estaduais e federais de saúde. Numa das salas do posto, os jovens da aldeia se concentram nos horários em que o gerador é ligado e o acesso à internet é possível. Trocam mensagens por zap com jovens de outras aldeias, parentes que moram na cidade para estudar, jogam games online e assistem futebol - a aldeia tem dois campos.
Takumã Kuikuro, cineasta forjado nas oficinas do Vídeo nas Aldeias, que já fez filme sobre o Rio de Janeiro e Londres, vem demonstrando uma leitura de mundo a partir da perspectiva indígena em seus filmes. "Pele de branco" é um deles, e mostra a visão indígena sobre a relação com a tecnologia presente na vida da aldeia. O que ela traz de positivo e de ameaça. A pele seria a presença de motos, roupas, câmeras etc, na vida cotidiana dos indígenas. A reflexão do cineasta faz ponte com a frase do cacique e demonstra a capacidade de reflexão e pensamento deste povo sobre dilemas de interação com o mundo dos brancos.
Essa imersão aconteceu por iniciativa do People's Palace Project junto com a Associação dos Kuikuros e levou artistas e intelectuais para um intercâmbio artístico na aldeia. O resultado será mostrado no Rio de Janeiro em novembro, no próximo Multiplicidade, evento de arte e tecnologia criado por Batman Zavareze.
Ao longo dos dias na aldeia o grupo teve aulas de Karibe. Um dos artistas residentes pergunta: "como se fala 'fora Temer'?" Um jovem indígena responde e coloca no papel. "Etitseha Temer" - "Fora Temer" em Karibe - foi a frase mais dita no restante da tarde. No mesmo dia, o cacique já havia falado de forma contundente que Temer é um grande inimigo dos povos indígenas. O recado foi dado.
Na volta, cruzei a reserva e as fazendas numa S10 antiga, guiada por Jair, radialista e irmão de Takumã. Falamos dos conflitos, da necessidade de elegerem representantes indígenas nas eleições futuras e ouvimos música - suas filhas e seus parentes dormiam no banco de trás. Não faz muito tempo um fazendeiro ameaçou indígenas e avançou sobre as terras. As denúncias e a luta dos povos da região fizeram o governo Dilma aumentar a fronteira do parque, um pouco antes de seu impeachment. Isso não alivia a opinião deles sobre o quanto a construção da usina de Belo Monte, no governo Dilma, impactou o ecossistema onde vivem diversas etnias.
Ouvir os povos indígenas, sua visão de mundo e cultura, estar perto deles, é uma das coisas que todo brasileiro deveria fazer em vida.

O Globo, 12/09/2017, Segundo Caderno, p. 2

https://oglobo.globo.com/cultura/um-recado-do-xingu-21809748
 

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