Foto: Curt Nimuendaju, 1937

Xerente

  • Autodenominação
    Akwê
  • Onde estão Quantos são

    TO3.017 (Funasa, 2010)
  • Família linguística

Política

As relações políticas - expressas em rituais, na pintura corporal e, principalmente, através de um intenso faccionalismo - baseiam-se em uma série de deveres e direitos estipulados pelas relações de parentesco. Orientam-se também pelas articulações contextuais das facções com os diversos agentes não-indígenas presentes na região (Conselho Indígena Missionário, Procuradoria da República, Governo do Estado, Prefeitura Municipal, Funai, Missão Batista, etc). As facções Xerente - agrupamentos de indivíduos (consangüíneos e afins) que dão apoio a um (ou mais) líderes indígenas - vivem em constante competição, buscando o domínio político de cada uma das aldeias, como também da comunicação e articulação com os demais agentes não-índios.

Esta dinâmica gera divisões, aumentando o número de aldeias e caciques, e, por conseguinte, novos arranjos políticos, sociais e cerimoniais são formados. Para se ter uma idéia desse dinamismo, até 1988, existiam nove aldeias Xerente. Atualmente são 33. Entretanto, tais alterações não implicam necessariamente na rejeição dos vínculos de parentesco, nem colocam em cheque a unidade interna do grupo. Os papéis políticos de maior autoridade são o de cacique, o de pajé e o de membro do conselho dos velhos (wawes).

Novas formas de liderança política vêm ganhando espaço entre os Xerente, tais como diretores de associação e professores indígenas. Em termos político-institucionais, os Xerente tiveram um vereador na Câmara Municipal de Tocantínia durante o período legislativo de 1992 a 1996. Devido à inexperiência e a pressões políticas anti-indígenas locais, houve um distanciamento muito grande entre o vereador eleito e os Xerente, levando o grupo a descrer temporariamente desse tipo de iniciativa. Entretanto, nas eleições municipais de 1996, poucos votos faltaram para eleger dois candidatos Xerente a vereador em Tocantínia. Os eleitores Xerente, mais de 600 (entre homens e mulheres), têm uma importância decisiva no quadro partidário local. Há denúncias por parte de lideranças indígenas de que o processo eleitoral (votação e, especialmente, apuração) são manipulados em seu prejuízo.

Há um temor dos moradores não-índios de Tocantínia, manifesto através de "brincadeiras", de que esse município - incrustado no território Xerente - torne-se o "primeiro município indígena do Brasil". A primeira experiência direta dos Xerente com associações indígenas - a fundação e o funcionamento da Associação Indígena Xerente de 1992 a 1995 - contou com a assessoria política e apoio econômico direto do CIMI local, em parceria com uma ONG de Luxemburgo, a BRIDDERLECH DEELEN. Em seus quase quatro anos de funcionamento, a Associação implementou uma série de projetos econômicos que contemplavam todas as aldeias, fato este que possibilitou um início de autonomia dos Xerente diante da complicada rede local de relações econômicas e políticas. A Associação fechou suas portas no final de 1995. Várias lideranças Xerente afirmam que um dos principais motivos para o fim da AIX estaria relacionado também a pressões políticas locais. A partir de 1998, os Xerente - então mais experientes em relação a essa forma organizacional - fundaram três novas associações indígenas, congregando em cada uma delas determinados núcleos de aldeias mais próximas, considerando suas relações políticas, de parentesco, cerimoniais e espaciais.