Xakriabá

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    MG9.196 (Funasa, 2010)
  • Família linguística

Vida cerimonial

Aldeia do Mata Fome. São João das Missões, MG. Foto: Clésio da Gama, 2012.

Devido ao processo de contato a que foram submetidos, os Xakriabá adotaram a crença católica como dominante, além de algumas conversões mais recentes ao protestantismo. Mas, enquanto há conciliação entre o catolicismo e a crença em Yayá, o mesmo não ocorre com o protestantismo.

No catolicismo, há uma figura extremamente forte nas crenças Xakriabá: São João dos Índios. Orago da capela, hoje igreja, construída sobre o antigo cemitério Xakriabá, ponto de difusão de missionamento entre os índios, São João é o santo mais homenageado, festejado e solicitado. Crêem os índios que a imagem, que teria sido encontrada numa roça, quando trabalhavam, foge da capela e vem "brincar" com eles. [a esse respeito, ver o relato dos Xakriabá no item História]

São também manifestações religiosas comuns as novenas com peregrinações para obtenção da graças (muitas vezes clamando por chuva). Outra prática é a feitura das "lapinhas", espécie de pequeno presépio ornado com flores de papel ou plantas verdes e que é muito usado pelas moças em busca de marido.

Outras pessoas envolvidas em formas rituais são os rezadores, os raizeiros e os curandeiros. A doença é, muitas vezes, vista como resultado de feitiço e só o curandeiro é capaz de vencê-la. Usa para isso fumigações e rezas, na língua "dos antigos"

Toré

O Toré é dançado no terreno, que fica no meio do mato. O terreiro é precedido de uma área onde fica a árvore sagrada, que define quem deve ou não ter acesso ao local. A árvore é um coqueiro de três galhas, visível somente àqueles que Yayá considera aptos a visitarem o terreiro. O chão do terreiro é batido e limpo de toda vegetação, tem forma retangular e fica próximo às grutas, morada de Yayá. Numa de suas extremidades há um monte de pedras, onde se guardam os objetos do ritual, inclusive os restos da bebida sagrada com propriedades alucinógenas, jurema.

O acesso ao ritual é permitido a todos os membros da comunidade a partir dos sete anos de idade. Porém, algumas regras de exclusão se fazem presentes no momento da participação: só aqueles que realmente são reconhecidos como membros do grupo da "ciência" são aceitos. Assim, os migrantes não-índios que se casaram com membros da comunidade, ali vivendo e sendo incorporados em vários níveis da vida social e política do grupo, não são aceitos no ritual. Também se excluem os que, embora reconhecidos como índios, são casados com esses estrangeiros.

As pessoas, ao chegarem ao terreiro, são recebidas pela madrinha, que as orienta quanto à posição que devem ocupar. Os participantes devem estar vestidos de branco e descalços. Sem o atendimento dessas exigências, ninguém pode pisar no chão consagrado a Yayá.
Antes de se iniciarem as "danças para a onça-cabocla", prepara-se, previamente, a bebida jurema. Após alguns momentos de danças, ritmadas ao som de cantos, em português e no assim chamado idioma Xakriabá (somente usado durante o ritual), o bastão sagrado inicia o seu trabalho. O bastão foi descrito pelo cacique e pelo pajé como sendo de madeira, de "tamanho médio" e que só pode ser tocado pelo pajé. Outra pessoa qualquer, caso o toque, morrerá imediatamente. É o pajé que o retira das pedras onde fica guardado e o coloca num canto do terreiro.

Num determinado momento do ritual, o bastão inicia a sua dança sem que ninguém o toque e emitindo fumaça pelas extremidades. Termina sua dança sobre a tigela grande, onde faz uma cruz de fumaça. Apenas aqueles que Yayá escolhe para conversar, naquele dia, são capazes de ver a cruz com perfeição. Após este ato, inicia-se a distribuição da jurema em pequenas tigelas.

O encontro com Yayá é o momento em que ela assume o seu caráter de oráculo. A cada um responde, avisa sobre perigos, orienta e repreende quando seu comportamento não é compatível com as necessida¬des da comunidade. Os temas centrais referem-se à segurança da comunidade: como governá-la; as ameaças de invasão e orientação de como agir; como administrar as crises internas e como orientar as relações interétnicas. Daí ser essencial "saber da ciência" e participar do ritual para ter reconhecida a sua liderança e o cargo de chefia.