Foto: Sergio Bloch, 2000

Waimiri Atroari

  • Outros nomes
    Kinja, Kiña, Uaimiry, Crichaná
  • Onde estão Quantos são

    AM1.515 (PWA, 2011)
  • Família linguística
    Karib

Algumas Maryba

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Durante vários meses, os Waimiri Atroari se preparam para a festa de iniciação masculina. Essa festa acontece quando crianças atingem a idade de três a quatro anos. Os pais das crianças de um mesmo grupo local se reúnem com os eremy para definirem quando será a festa. Decidida a data, o pai da criança tece um calendário feito com várias taquaras cortadas em lascas e ligadas umas as outras com uma fina corda de cipó titica. Essas lascas de taquara representam os dias que faltam para os convidados chegarem ao local dos festejos. Nesse calendário também há uma marca, feita com faca, identificando o dia da coleta da banana para madurar e poder preparar-se o mingau.

Terminado o calendário, os pais saem de sua aldeia para convidar seus paxira (parentes mais distantes que moram em aglomerados distintos do grupo que promove a festa). Os parentes do mesmo aglomerado se deslocam para a aldeia onde haverá a festa para auxiliar nos preparativos.

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As mulheres cuidam de toda a culinária festiva, sendo que as mães e as avós (materna e paterna) organizam as atividades da cozinha. Os homens se ocupam da confecção dos artefatos: flechas e cestos. As flechas serão oferecidas aos eremy como "pagamento" por seus serviços e aos paxira em agradecimento pelo seu comparecimento. Os cestos servem para ofertar os alimentos, em especial as carnes moqueadas, e também, quando colocados na cabeça do menino, para solicitar que eles sonhem bastante e sejam muito maty (bom caçador e pescador).

Os pais das crianças dividem-se entre as diversas comunidades que irão convidar, permanecendo nessas até a data de deslocar-se em direção à aldeia anfitriã. Expedições, com todos os habitantes das diversas aldeias, são organizadas pelas trilhas que interligam os diversos grupos locais. Durante o período de caminhada pela floresta, os homens vão caçando, moqueando e guardando a carne para a festa. No acampamento, somente frutas silvestres e os pedaços menos nobres das carnes são consumidos. Cestos cargueiros, confeccionados de palmeiras patauá, vão sendo enchidos de carne e esses são carregados pelos pais dos meninos até a chegada na maloca da festa.

Chegando próximo à mydy taha, os paxira armam acampamento para aguardar a chegada da alvorada do dia da festa, geralmente o dia seguinte. Próximo do amanhecer, os eremy começam a cantar e a acordar todos. Flautas e cantos são ouvidos de longe e todos na mydy taha põem-se em estado de alerta para aguardar os seus convidados.

Os meninos a serem iniciados são conduzidos para fora da maloca e sentados em um banco confeccionado especialmente para a ocasião. Algumas vezes suas irmãs adolescentes e solteiras os acompanham nessa recepção. Todos os paxira adentram o espaço da aldeia cantando, sendo que o pai e os eremy vêm à frente liderando a multidão. Festejam circulando os meninos, entregam a caça para os anfitriões e se dirigem ao espaço interior da maloca, onde serão recepcionados com beijus e mingau de buriti.

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A festa não pode ser organizada sem a presença do eremy. É ele quem define, juntamente com o pai da criança, o período em que se realizará a festa e é, também, quem irá conduzir todos os trabalhos durante o ritual. Para ser eremy não é necessário somente querer. É necessário estar disposto a passar por um longo período de aprendizado com um cantor mais experiente, ter disciplina e uma boa memória. Essa atividade é exercida por ambos os sexos. São eles quem evocarão os cantos ligando o universo festivo ao cosmogônico. Suas cantigas falam dos animais, alimentos, heróis míticos e mitológicos, sendo cantadas em uma língua que não é mais falada atualmente. Seu conhecimento também contempla a fitoterapia, o uso de remédios, cuidados com doentes e acompanhamento nos partos junto com os familiares.

Há também outros tipos de festas, como o ritual dos mortos-vivos e inauguração de moradia. O Irikwa maryba (ritual dos mortos-vivos) é realizado quando algum espírito maligno está se aproximando da aldeia com o objetivo de acalmá-lo e afastá-lo; ou quando da morte de algum parente, para que sua alma não fique vagando pelo mundo dos vivos. Irikwa é uma entidade que não traz bons agouros. Vive na floresta e o kinja que a avistar é fadado a definhar até perecer, não havendo tratamento para esse tipo de contágio. O irikwa maryba é feito sempre que necessário, de maneira que não há uma periodicidade em sua realização.

A mydy maryba (festa da casa nova) acontece quando o grupo local termina os trabalhos de cobrir e fechar as laterais da maloca. Participam dessa festa os diversos grupos domésticos e locais que foram convidados pelos mydy iapremy a auxiliarem nos trabalhos de construção da nova maloca. Essa festa é realizada para solicitar bons fluidos para a nova moradia, para que irikwa não chegue perto, e também para que o material utilizado em sua execução tenha longa durabilidade.