Foto: Sergio Bloch, 2000

Waimiri Atroari

  • Outros nomes
    Kinja, Kiña, Uaimiry, Crichaná
  • Onde estão Quantos são

    AM1.515 (PWA, 2011)
  • Família linguística
    Karib

Mydy taha, as aldeias

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Mydy taha ("grande casa") é a denominação dada ao espaço que constitui a aldeia, a moradia e todo seu entorno, inclusive o roçado. Mydy taha é também a denominação da maloca comunal em formato circular, onde habita a maioria das pessoas da aldeia. A Mydy taha é um espaço importante para os Waimiri Atroari, porque, além de moradia, serve como espaço ritual durante suas festividades.

São formadas de acordo com as necessidades da comunidade, como aumento de população, esgotamento do solo para plantio e escassez de caça.

As mydy taha são localizadas perto de igarapés e grandes rios. Cada aldeia dispõe de autonomia econômica e política, não havendo poder centralizado. A formação de uma nova aldeia dá-se de maneira gradual e depende de uma pessoa de prestígio - mydy iapremy ("dono da aldeia") - para mobilizar um conjunto de grupos domésticos na construção do novo espaço. Primeiramente escolhe-se o local, dentro da região destinada àquele aglomerado, e iniciam-se os trabalhos de roçado. Com o roçado produzindo, começam a construção de uma grande moradia comunal em formato circular - a mydy taha. Na maloca comunal habitam vários grupos locais constituídos por parentes afins e cognatos, tendo cada família seu fogo e lugar especificado.

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As atividades econômicas de uma aldeia estão baseadas na caça, pesca, coleta de frutos silvestres e na agricultura. As caçadas são realizadas por homens e podem ser feitas no período noturno e diurno. As pescarias são atividades permitidas a ambos os sexos e é comum toda a família sair para pescar. Outra atividade que conta com a participação de toda a família é a coleta de frutos silvestres. Na agricultura percebe-se maior separação de trabalho, cabendo aos homens o desmatamento, a queimada e a limpeza. O plantio é coletivo e todas as famílias participam dessa atividade dividindo coletivamente a sua produção, sendo a coleta uma atividade feminina.

Além dos produtos produzidos no roçado (mandioca brava, macaxeira, vários tipos de batatas doce, cará e algumas frutas) e dos peixes fazem parte do cardápio animais como a antas, macacos (guariba e coatá), paca, porcos do mato, mutum, jacamim entre outros. Nem todos os animais e peixes são permitidos no dia a dia dos Waimiri Atroari. Há várias restrições alimentares que estão condicionadas a alguns acontecimentos marcantes na vida dos Waimiri Atroari como nascimento, ritos de passagem, primeira menstruação e purificação antes e pós-guerra.

O casamento preferencial é entre primos cruzados e traz um novo status para o casal, que, além da "cidadania plena", passa a constituir um novo grupo doméstico dentro do grupo local. Com o casamento acentuam-se os compromissos familiares: ao homem cabe a manutenção do roçado e o provimento de alimentos para sua família; e a mulher assume a cozinha e cuidados com os filhos.

A divisão de tarefas varia de acordo com o sexo, a idade e o estado civil. As tarefas aumentam com a idade, diminuindo, no entanto, com a velhice. Ainda assim é comum ver os homens auxiliando as mulheres no trato da caça e da pesca, no cuidado com os filhos e na preparação de farinha para consumo do grupo doméstico.

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A formação de um Waimiri Atroari varia de acordo com o sexo. Os meninos e meninas até aproximadamente quatro anos ficam aos cuidados das mães e são estimulados a repetir/imitar tarefas relacionadas a seu gênero. Nessa idade os meninos passam por um ritual de iniciação, tendo uma festa específica onde se comemora essa passagem. A partir dessa faixa etária passam a ter atividades associadas tradicionalmente ao seu gênero.

Outra atividade constante no cotidiano de uma aldeia é a confecção dos artefatos. Os Waimiri Atroari são exímios tecelãos. Toda a cestaria é confeccionada pelos homens, que ensinam o ofício aos jovens em idade de se casar. São eles que produzem os objetos para o trabalho das mulheres, como o wyiepe (cesto cargueiro), o matepi (tipiti), matyty (cesto com tecido duplo) e o wyre (abano). Os homens fazem também o pakra (cesto com tampa para guardar os materiais para confecção de flechas) de uso pessoal, o arco e as flechas que utilizam nas caçadas e pescarias. A maioria da cestaria dos Waimiri Atroari é ilustrada por desenhos que eles herdaram de algumas entidades mitológicas e também de seus antepassados. O aprendiz de artesão inicia os trançados começando por um desenho "simples", de acordo com sua idade, até obter habilidade e consentimento para tecer as ilustrações mais complexas e permitidas somente aos homens mais velhos.

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As mulheres recebem os artefatos que utilizam de seus esposos ou sogros. Também tecem as redes de fibra de buriti utilizadas nos partos, as pulseiras, os colares e os abanos para o fogo. Antigamente modelavam as panelas e os fornos de barro, hoje substituídas pelas de alumínio e ferro.

É comum na aldeia ver-se vários objetos que antes não faziam parte da vida dos Waimiri Atroari. Os primeiros foram sem dúvida os objetos cortantes e a vestimenta. Num passado recente, um pouco mais de 30 anos, era comum ver homens vestidos de cipó titica, que constituía o cinturão peniano. As mulheres confeccionavam as tangas com fibra de tucum enfeitadas com sementes de bacaba. Essa era a indumentária tradicional dos kinja. Hoje em dia é comum ver os homens de calção e as mulheres com saia.