Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991

Tupari

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    RO517 (Funasa, 2010)
  • Família linguística
    Tupari

Atividades produtivas

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A agricultura consiste na principal atividade produtiva dos Tupari. Tradicionalmente, segundo conta Franz Caspar, o trabalho nas roças envolve uma divisão de papéis, cabendo aos homens queimar e limpar o terreno, bem como preparar os orifícios em que as mulheres em seguida depositam as sementes, e posteriormente fazem a colheita, trazendo os produtos para a aldeia em bolsas trançadas com fibras de palmeira. Na época de Caspar eram cultivados principalmente milho, aipim, cará, amendoim, cana, banana, feijão e várias outras espécies de tubérculos.

As aldeias Tupari são hoje compostas de casas, em sua maioria, cobertas de palha com paredes de barro ou de paxiúba. Em 1948, a aldeia visitada por Caspar era composta por duas malocas e as duas maiores roças eram as dos chefes dessas casas comunais. Nessas roças, todos trabalhavam, mas convinha que cada homem tivesse sua própria roça, plantando o seu fumo e o que mais apetecia à família. Muitos índios possuíam até mais cana-de-açúcar em suas roças do que o chefe, especialmente quando as suas mulheres a apreciavam muito. Para as mulheres, também plantavam algodão e urucu. Os Tupari são ainda grande apreciadores de amendoim, que fazem cozido ou assado.

A extensão das roças dos chefes possibilitava a estes convidarem todos os co-residentes para as festas, que eram abundantes e costumavam durar três dias inteiros. Nas palavras de Caspar: “Possuir um campo com imensas plantações de milho, inhame, taioba, amendoim e, principalmente, aipim, e durante o ano inteiro convidar sua gente e os vizinhos para festas e ser considerado por eles como um perfeito anfitrião, era o maior empenho do chefe e estava nisso a própria demonstração de sua autoridade. Para isso, o cacique era obrigado a trabalhar muito mais do que seus subordinados. Tinha de ser o primeiro a começar e o último a voltar para casa. Só assim o seu pessoal o respeitava e estava pronto para colaborar no trabalho. (...) Do mesmo modo, porém, que cada um tinha de ajudar ao tuxaua na derrubada, este também tinha de auxiliar a cada um. A quantidade de colaboradores e o suor despendido na derrubada eram o medidor seguro para sua influência na tribo” (:129-30).

Além da roça, a caça, a pesca e a coleta são atividades que mobilizavam boa parte do cotidiano nas aldeias Tupari. Na década de 1940, em pequenos grupos, havia épocas em que quase todos os Tupari costumavam deixar a maloca com o arco e um feixe de flechas à esquerda e, às costas, uma pequena rede de viagem e espigas de milho. Podiam ficar caçando ou pescando por uns cinco a dez dias. Muitos levaram consigo as mulheres e filhos (Caspar,1948:191). A carne de macaco era muito apreciada. Também caçavam paca, aguti, mutum, lagarto, tatu, entre outros.

Enquanto os homens estavam ausentes na caçada, as mulheres por vezes faziam excursões de um dia na floresta, em grandes e pequenos grupos. À noitinha, voltavam com seus achados, tais como pequenos peixes, caranguejos e outros crustáceos, larvas (que apreciavam misturadas ao mel), grilos, besouros e lagartas de muitas espécies. Tais produtos eram colocados em moquecas sobre as brasas, além de amendoins e raízes, para serem então consumidos.

Nas malocas, as cenas cotidianas destacadas pelo etnólogo são as mulheres se ocupando com o fogão, desfiando algodão ou o fiando, ou fazendo um pouco de chicha para o consumo diário, ou catando piolho uma da outra, ou pintando o rosto e cortando-se os cabelos. De vez em quando, uma mulher enxotava as galinhas e patos que tentavam roubar um bocado das panelas e grelhas, ou agarrava, assustada, uma criança que engatinhava por perto de uma fogueira e poderia queimar-se nas brasas (:131).

Mas, dentre todas as atividades cotidianas dos Tupari, o etnólogo destaca o fato de serem grandes consumidores de chicha, fabricada pelas mulheres e consumida em maior quantidade durante as festas. “O aipim nas plantações e o milho nos depósitos dos Tupari pareciam ser inesgotáveis. Uma festa se sucedia à outra” (:172). No caso da chicha de mandioca, esse tubérculo é descascado, cortado, cozido, resultando numa pasta que é mastigada e cuspida nas panelas. É então amassada no pilão, peneirada e mexida. Depois fica de repouso por alguns dias para fermentação. Para fazer a chicha de milho, as mulheres trazem do depósito grande quantidade de espigas, lavam as jarras com água trazida do riacho e enchem grandes panelas com grãos de milho e água. Despejam os grãos de milho cozidos no pilão de madeira, onde é convertido em uma papa. O processo de fermentação é semelhante ao da mandioca.

O extrativismo e os barracões

Décadas depois do testemunho de Caspar, na década de 1980, a organização econômica dos Tupari foi descrita pelo indigenista Mauro Leonel como uma mistura de sua forma tradicional com a extração da borracha, a coleta e quebra da castanha para venda ou troca no mercado. Nessa época, operava o regime de barracão, em que os índios vendiam seu trabalho ou produtos da floresta pelas mercadorias trazidas da cidade e oferecidas nos barracões dos seringais e na cantina do Posto Indígena.

Ainda segundo Leonel, apenas com a chegada da Funai, em 1980, os índios começaram a dispor de algum dinheiro, cerca de US$ 50 a 100 por ano para cada chefe de família. O sistema da cantina ou do barracão os abastecia no fundamental: óleo, fósforos, querosene, facões, açúcar, sal, ferramentas, pilhas, sabão, munição, entre outros itens.

Em junho os índios começavam a preparar as colocações, arrumar os tapiris e fazer os cortes nas estradas (regiões de extração de seringa). Em setembro faziam uma pausa para a queima dos terrenos das roças e a "coivara" (limpeza), seguindo-se o plantio da mandioca. Em outubro plantava-se arroz e milho. Em novembro voltava-se à seringa para o corte, prensa e o chamado "fabrico", que preparava a borracha para a venda. Dezembro e janeiro eram dedicados à coleta e quebra da castanha. Fevereiro e março eram para a colheita das roças, em particular do milho e arroz, e o plantio do feijão. Em abril vinha a limpeza por dentro, a "broca" da roça e o desmatamento, seguido da derrubada, em maio (Leonel, 1984).

As roças familiares tradicionais tinham em média de 1/2 a 1 hectare. Plantava-se geralmente macaxeira, três variedades de milho, banana, arroz, cará, amendoim, tabaco e batata doce. Quando Leonel esteve na região, em 1984, havia sete roças ao norte da sede do Posto Indígena (São Luís) e 21 ao sul. Oito núcleos familiares dispunham de precárias casas de farinha.

Todas as atividades são permeadas, sempre que possível, pela caça e pesca. O timbó é uma prática constante de todos os grupos, mas vêm enfrentando dificuldades na pesca devido à construção de PCHs [Pequena Central Hidrelétrica]. A caça é muito escassa, mas encontra-se porco do mato, tatu, paca, tatu-canastra, veado, cotia, anta, quati, macacos e jabuti. Caçam também aves e apreciam o mel, frutas e o amendoim.

O artesanato como mercadoria na década de 1980 era muito raro, mas hoje em dia constitui uma das principais fontes de renda para os Tupari. Costumam trocar ou vender sua famosa cesta de tucum. Com esse material também fazem pulseiras e brincos de conchas de rio. Fazem ainda arcos, flechas e bordunas.