Foto: Ugo Maia Andrade,1998

Tumbalalá

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    BA1.160 (Funasa, 2010)
  • Família linguística

Nota sobre as fontes

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Não há muita coisa escrita especificamente sobre os Tumbalalá, haja vista que sua presença na etnologia indígena do Nordeste é bastante recente. Os estudos etnológicos deste grupo foram iniciados ao final de 1998 pelo autor deste verbete e resultaram em alguns artigos, relatórios de pesquisa, comunicações em encontros científicos e na dissertação de mestrado intitulada "Um rio de histórias: a formação da alteridade tumbalalá e a rede de trocas do sub-médio São Francisco", defendida no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo em janeiro de 2002. O trabalho focaliza tanto as relações contemporâneas com outros grupos indígenas da região, que facultaram aos Tumbalalá sua etnogênese, quanto os processos históricos regionais que favoreceram a produção de redes indígenas de comunicação interétnica na porção sub-média do rio São Francisco, trazendo vários documentos dos séculos XVII, XVIII e XIX provenientes de arquivos nacionais e estrangeiros. Também um CD-ROM – cujo título "A jurema tem dois 'gaios'" inspirou-se numa linha de toré – foi desenvolvido com base nas entrevistas e filmagens de atividades rituais coletadas ao longo de três anos de pesquisa com o grupo.

Além destes trabalhos frutos de pesquisas etnológicas, há também o laudo de identificação étnica produzido sob encomenda da Funai pela antropóloga Mércia Batista em 2001 e intitulado "Laudo Antropológico do Grupo Autodenominado Tumbalalá - BA". Neste mesmo ano surgiu, a partir do projeto "Índios na Visão dos Índios", uma iniciativa de uma ONG baiana com o apoio do governo da Bahia e da UNESCO, um livro integralmente composto por textos e fotografias produzidos pelos próprios Tumbalalá, um interessante trabalho de divulgação da história desta comunidade indígena feito por eles mesmos e segundo sua visão da cultura, da herança indígena, do passado e do futuro.

Quanto às fontes propriamente históricas, há um farto conjunto documental sobre a missão do Pambú, as missões do rio São Francisco, os procedimentos coloniais para os índios desta parte do sertão, as guerras entre índios e colonos etc. Esse material, entretanto, está disperso em arquivos nacionais, como a Biblioteca Nacional (notadamente o Livro da Tesouraria da Província de Pernambuco, do penúltimo quartel do século XVIII), Arquivo Público da Bahia (Cartas Régias do século XVII), Arquivo Nacional (Livro de Ordenanças e de Patentes), Arquivo Público de Pernambuco e os arquivos dos conventos capuchinhos da Penha (PE) e da Piedade (BA), e europeus, principalmente o arquivo da Propaganda Fide, em Roma.

Das publicações sobre a atividade missionária no rio São Francisco umas das mais importantes é o relato do Frei capuchinho Martin de Nantes intitulado "Relação sucinta e sincera de uma Missão no rio São Francisco" e publicado pela primeira vez em 1706. Trata-se de um relatório condensado das atividades do missionário durante o longo período em que serviu nas missões insulares do São Francisco, incluindo a do Pambú, com descrições preciosas sobre as relações tensas entre missionários e curraleiros, a doutrina missionária de evangelização e as práticas culturais dos índios Cariri. Não obstante o posicionamento francamente eurocêntrico de seu autor em relação aos índios, este é o único texto do gênero publicado por um capuchinho que atuou na região e acessível ao público em geral, podendo constituir-se numa importante fonte tanto para as atividades missionárias quanto para o entendimento da composição dos grupos indígenas no sub-médio São Francisco nos séculos XVII e XVIII.

Na mesma linha de relatório de atividades missionárias, há o texto não publicado do Frei Bernard de Nantes chamado "Relato da missão dos índios Kariris do Brasil", datado de 1702. Frei Bernard sucedeu ao próprio Martin de Nantes na missão do Pambú e seu "Relato" é bastante expressivo como documento sobre hábitos culturais dos índios Cariri, o cotidiano nas missões, as estratégias de evangelização adotadas pelos capuchinhos e a visão que esses tinham de seu trabalho e dos índios. As informações trazidas por Martin e Bernard de Nantes são utilizadas no trabalho amplo e competente do frade e historiador da igreja Pietro Vittorino Regni (Os Capuchinhos na Bahia) que utiliza também outros relatórios de atividades inéditos produzidos por missionários das aldeias de Rodelas, Ilha das Vacas, Vargem e Beato Serafim. Os trabalhos históricos posteriores sobre os índios e as missões do São Francisco começam a ser produzidos na década de 50 do último século a partir da pesquisa etnográfica do antropólogo americano Hohenthal Jr. Trata-se de uma sequência de artigos publicados na Revista do Museu Paulista que produziu o mais apurado balanço e levantamento dos grupos indígenas do São Francisco elaborado até o momento. Para isso Hohenthal Jr. recorreu tanto a uma vasta pesquisa histórica quanto ao trabalho de campo com os caboclos que residiam na área das antigas missões e que formavam populações praticamente desassistidas pelo SPI quando visitadas pelo antropólogo. Apesar do paradigma evolucionista em voga na época, Hohenthal Jr. opta por acentuar os elementos indígenas ativos na cultura e organização dos grupos pesquisados e que, ao mesmo tempo, eram os principais motivos do conflito cultural com os regionais não-índios que os identificavam à cultura afro-brasileira regional.