Foto: Maria Cristina Troncarelli, 2000

Trumai

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    MT97 (Ipeax, 2011)
  • Família linguística
    Trumái

Os Trumai e o Alto Xingu

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Os indivíduos Trumai do presente contam que seus ancestrais pré-xinguanos dormiam em esteiras (weset); utilizavam como armas a borduna (nai) e o propulsor de flechas (hopep). Os homens amarravam o pênis com embira e usavam cabelos compridos; as mulheres utilizavam uma faixa que envolvia a cintura, passando entre as pernas (tal faixa era denominada tsapakuru e era feita de desnit, um tipo de embira). Após a chegada ao Alto Xingu, os Trumai começaram a incorporar hábitos comuns aos povos da área, como o uso de arcos e flechas e o costume de dormir em redes. O termo usado para denominar a rede é um neologismo, que provavelmente foi cunhado depois que tiveram contato com esse objeto: esa-k ("aquele que dança"), referindo-se ao fato de que a rede "dança" quando é balançada. As mulheres substituíram a faixa tradicional pelo uluri e os homens passaram a cortar o cabelo e adornar o corpo da mesma forma que os demais povos alto-xinguanos. Assimilaram também diversos aspectos da mitologia e das festividades locais e, ao mesmo tempo, ensinaram algumas de suas tradições aos outros grupos. Por exemplo, foram os Trumai que trouxeram para o Xingu as festas de Jawari e Tawarawanã.

Embora tenham incorporado vários padrões culturais alto-xinguanos, os Trumai preservaram determinadas características que ainda os tornam distintos dos demais povos desta área. Por exemplo, não realizam a cerimônia do Kwarup e consomem alimentos proibidos para os alto-xinguanos, como a capivara e certos animais de pêlo. Outros povos da região atribuem a esse costume uma prova do status diferente dos Trumai.

É interessante observar que nos cantos do Jawari há uma presença grande de nomes de animais de caça, como macacos, a onça, a jaguatirica etc. O mundo dos animais na taxonomia zoológica Trumai se divide em dois grupos centrais: kodetl, os animais "aéreos" (compreendendo mamíferos e aves) e k´ate, os animais aquáticos (isto é, os peixes). Na maioria dos cantos do Jawari, pássaros, felinos e diversos mamíferos "cantam" em seu próprio nome, o que indica uma sociedade tradicionalmente voltada para a caça e não para a pesca (Monod-Becquelin & Guirardello, 2001: 416). Em contraste, na cerimônia do Kwarup realizada pelos povos altos-xinguanos, há grande ênfase nos seres das águas, o que se observa especialmente nos desenhos corporais.

Com relação a atividades comerciais, a especialização dos Trumai na época de sua chegada ao Alto Xingu teria sido a fabricação do sal (yakïr) a partir de uma planta aquática e a confecção e comércio de machados de pedra (daka). O grupo dominava as técnicas de produção de sal e de extração dos materiais usados na fabricação de machados (Monod-Becquelin & Guirardello, 2201: 415). Eram também produtores e fornecedores de algodão, de pequi e de óleo de pequi. Contudo, a introdução de machados de metal e de outros produtos feitos pelo homem branco acabou provocando uma quebra no poder comercial dos Trumai. Atualmente eles produzem o sal de aguapé apenas para consumo próprio, e já não mais fabricam machados de pedra, cujo uso foi totalmente abandonado no Xingu.