Foto: André Toral, 1998

Pirahã

  • Outros nomes
    Mura Pirahã
  • Onde estão Quantos são

    AM420 (Funasa, 2010)
  • Família linguística
    Mura

Ritual e xamanismo

Classificamos como pertencentes ao plano ritual todas as ações que põem em relação os ibiisi com os abaisi e com os kaoaiboge e toipe. São dois os tipos de rituais: o xamanismo e a festa. Ambos têm a intenção de colocar em relação o domínio social com o do sobrenatural, mas o xamanismo é o ritual privilegiado pela sociedade, enquanto as festas, qualificadas de "grandes" e "pequenas", são rituais complementares.

O xamanismo materializa o processo de interação entre os ibiisi e os abaisi e/ou entre os ibiisi e os abaisi e os kaoaiboge e toipe. É por meio do xamã e de sua performance que o encontro ganha dramaticidade e sustentação. O xamã "troca de lugar" com os abaisi ou com os mortos visitando os seus respectivos patamares enquanto estes vêm ao patamar pirahã. O desempenho do xamã permite à sociedade o aumento e o resgate do patrimônio onomástico. O xamanismo é uma possibilidade de fornecimento de nomes "novos" à sociedade. Sua inserção no complexo onomástico se faz a partir da apresentação de nomes de abaisi aos ibiisi para que estes os utilizem, posteriormente, na nominação. Assim, o xamã é a base do ritual, ser único que é capaz de representar, a cada sessão, toda a cosmologia.

A "Festa Pequena" e a "Festa Grande" têm a mesma justificativa de existência: colocar o cosmos em operação. Na percepção pirahã, ambos rituais são realizados com a intenção de provocar ruídos, fazer barulho, para que o demiurgo Igagai, localizado no segundo patamar celeste, possa ouvi-los, cientificar-se de sua existência e do lugar exato aonde se encontram. O receio dos Pirahã de não serem localizados por Igagai pode ser interpretado como um temor de que se repita o que está contido no fragmento mítico que narra a destruição do mundo. A destruição do mundo deveu-se, em última instância, ao fato de Igagai ignorar onde os pirahã estavam. Foi somente com o choro das mulheres, que restaram sozinhas e sem o fogo, que Igagai pôde, então, escutar, localizar e iniciar a reconstrução do mundo. Ambos os rituais são preferencialmente realizados em época de lua cheia. A lua cheia é interpretada pelos pirahã como o forno onde Igagai torra a sua farinha. Entendemos que a realização do ritual no período da lua cheia seja uma tentativa de que, ao localizar Igagai sob a lua cheia, este possa, também, localizar os pirahã.