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21/11/2010
Terras habitadas
- Pirahã
Pirahã
- Outros nomes
Mura Pirahã - Onde estão
AM - Quantos são
420 (Funasa, 2010) - Família linguística
Mura
Cosmologia
O cosmos é representado de modo estratigráfico: camadas de terra sobrepostas umas às outras, produzindo planos paralelos que não se comunicam fisicamente, a não ser pelos seres que os habitam. O que identifica estas camadas como pertencentes a uma mesma classe é a sua base morfológica. Cada patamar apresenta uma morfologia própria composta por água, terra, árvores e animais, variando apenas em forma, tamanho e número. Embora todos os patamares sejam designados migi, "terra", a diferença entre eles é marcada pelo que contém e o lugar que ocupam na estruturação do cosmos.
Os Pirahã admitem não saber ao certo o número de patamares. Apesar da incerteza quanto ao número de camadas de terra que compõem o cosmos, as pessoas reduzem essa estrutura complexa a um modelo simples, guardando detalhes e impressões de apenas cinco patamares, que parecem constituir a forma mínima possível para representar a cosmologia.
____________________ abaisi e ibiisi
____________________ abaisi e ibiisi
____________________ ibiisi
____________________ abaisi, kaoaiboge, toipe, ibiisi
____________________ abaisi e ibiisi
As linhas são os patamares do cosmos. Cada um deles é habitado por determinados seres (ver nomes, à direita). O patamar intermediário é habitado exclusivamente por seres ibiisi, os demais o são pelos abaisi e pelos ibiisi, exceto o patamar imediatamente abaixo do intermediário, que abriga, também, os kaoaiboge e os toipe. Ibiisi é uma designação genérica para "ser humano": são ibiisi os Pirahã, os brancos e os outros índios. O que define um ibiisi é o fato de ele possuir um corpo com uma forma específica. Os abaisi têm a mesma forma geral dos ibiisi (são antropomorfos), mas ela é imperfeitamente realizada, são seres defeituosos ou deformados. Os kaoaiboge e os toipe são transformações póstumas dos ibiisi, habitando o patamar imediatamente abaixo do intermediário.
Os Pirahã têm um elaborado sistema de nominação articulado diretamente à sua cosmologia. Um Pirahã recebe o primeiro nome antes mesmo de nascer, ainda no ventre materno. O nome que recebe tem uma estreita relação com a sua concepção, é o nome do corpo (ibiisi). Outra fonte de nomes vem dos seres abaisi que habitam o cosmos. Se os nomes ligados à concepção, nomes de origem, são responsáveis pela criação de sua matéria, seu suporte, o ibiisi (corpo), os nomes ligados aos seres abaisi estão relacionados à sua "alma", nomes de "destino". Os mortos têm um papel importante no processo de nominação. Se aos abaisi compete prover nomes que dão a "alma" ou a possibilidade de destino póstumo, aos mortos, em geral, compete a responsabilidade de comparecer ao ritual xamânico representando os nomes dos abaisi e de passá-los, por intermédio do xamã, para os ibiisi. A crença pirahã é de que, ao possuir um nome de abaisi, estará assegurada a transformação em kaoaiboge e toipe, cada qual podendo ter, assim, um destino.
Cada nome de abaisi que um indivíduo possui refere-se à possibilidade de se transformar em dois seres, denominados kaoaiboge e toipe. Kaoaiboge é um ser pacífico, que se alimenta de frutas e peixes, vítima canibal dos toipe. Assim, se um indivíduo tem oito nomes de abaisi terá, certamente, seu destino assegurado através da transformação em oito kaoaiboge e oito toipe. A relação com os inimigos é uma fonte de nomes. Segundo os pirahã, existiu na sua sociedade uma classe de pessoas designada euebihiai. Essa categoria compreendia os guerreiros/matadores que tinham como principal objetivo o assassinato de inimigos e a caça, provendo o alimento ritual a ser consumido. O inimigo produzia nome, a caça não, mas ambos eram tratados da mesma forma nos rituais realizados para a sua ingestão. Os matadores observavam cuidadosamente o inimigo antes de matá-lo para nominá-lo. O matador, então, dava ao inimigo o nome de abaisi que um morto possuíra. Vê-se que a lógica desse tipo de prática onomástica baseava-se na semelhança física de corpos: corpo de inimigo e corpo de um pirahã morto. Corpos iguais, nomes iguais. Essa lógica é empregada até hoje para a nominação dos estrangeiros. O euebihiai ao matar o inimigo apossava-se do seu nome. Guardava para si ou o transmitia a outros pirahã.




