Foto: Isaac Amorim Filho , 1985

Matsés

  • Outros nomes
    Mayoruna
  • Onde estão Quantos são

    AM1.592 (Funasa, 2006)
    Peru1.724 (INEI, 2007)
  • Família linguística
    Pano

Atividades de caça e pesca

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As atividades de caça são altamente valorizadas pelos Matsés, que se consideram, sobretudo, caçadores dos interflúvios, mesmo vivendo em aldeias nas margens dos rios. As presas cotidianas mais apreciadas são o macaco-preto e os queixadas (cada vez mais difíceis de encontrar), mas os Matsés também caçam anta, macaco-barrigudo, caititu, paca, tatus, veado, jabutis, jacarés, preguiças (estas muito valorizadas quando filhotes como animais domésticos). Caçam também mutum, nambus e várias outras aves do mato. Na estação das secas, matam tracajá e recolhem seus ovos nas praias dos rios para comer. A coleta de ovos de tracajá é uma atividade importante, tanto que os Matsés marcam o período de um ano pelo termo seta, o mesmo que designa o tracajá.

Os caçadores utilizam arco e flechas, armas de fogo e cachorros nas caçadas. Muitas vezes, no entanto, os animais são capturados ou mortos antes que gastem suas flechas ou munição, graças a uma série de armadilhas e técnicas especiais de caça para cada tipo de animal. Assim, a anta pode ser morta por armadilha, os tatus são acuados nas cavidades no chão que fazem para morar e afogados com água. As pacas, com a ajuda dos cachorros, são levadas a pular na curva de um igarapé, lá são cercadas e quando emergem são atingidas por paus. Com amarras especiais prendem as preguiças pelo pescoço e garras, retirando-as das copas das árvores e levando-as vivas para a aldeia.

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Mas a característica mais notável das práticas cinegéticas matsés é a participação ativa das mulheres em boa parte das caçadas. Assim como os homens muitas vezes acompanham suas mulheres à roça para buscar mandioca, banana e outros produtos, as mulheres vão caçar com seus maridos. Elas ajudam a encontrar e acuar a caça, participam da perseguição, recuperam flechas que erraram o alvo, atacam os animais com paus afiados ou machados. Muitas vezes as crianças acompanham o casal, e também participam de alguns momentos. Desde pequenas, as crianças são estimuladas a procurar filhotes de presas, tanto para comerem como para servirem de animal doméstico.

A presença de mulheres em certas caçadas, no entanto, não implica que entre os Matsés não há a idéia comum na Amazônia de que há certa incompatibilidade entre as mulheres e a atividade de caçar. A falta de sorte ou habilidade na caça, traduzida pelo termo regional panema, pode ser causada no caçador pelo excesso de relações sexuais. Alguns animais não toleram o cheiro ou presença femininos; assim, quando preparam uma armadilha para uma anta, os homens devem abster-se de relações com suas mulheres. Talvez por isso preferencialmente sejam os homens já velhos que preparam as armadilhas para esse animal (Romanoff, 1984: 172).

Para melhorar a habilidade e o sucesso do caçador, combater a panema, o desânimo ou preguiça de ir caçar, os Matsés utilizam substâncias que tornam o corpo mais forte, duro e limpo. Todas essas substâncias são ligadas ao princípio do amargor (muca), que rege também o poder xamânico (Erikson, 1994).

O veneno do sapo kampo, o rapé feito de folhas de tabaco (nënë), as picadas de formigas tucandeiras e aplicação de sumo de plantas, que permitam aos caçadores visualizarem melhor suas presas, são utilizados de maneira rotineira. Principalmente, o tabaco, consumido diariamente pelos homens Matsés.

Outro conjunto de rituais associados à caça são banhos medicinais que os Matsés aplicam às crianças pequenas para impedir que os animais mortos ou comidos por seus pais prejudiquem sua saúde. As plantas, chamadas neste, são colhidas principalmente pelos homens e mulheres mais velhos, que sabem identificá-las. As folhas são associadas aos diversos tipos de animais. Apenas depois que seus filhos pequenos são banhados com a infusão da planta correta, os pais podem matar ou comer animais de carne forte, como anta e macaco-preto. Ao matar cobras grandes e onças, os pais devem também proteger seus filhos contra o mal que esses espíritos podem causar.

Os homens, mulheres e crianças Matsés pescam nos rios próximos às aldeias nos dias em que não há caça. As famílias realizam ainda pescarias coletivas com veneno (antinte), que dissolvem na água de lagos e igarapés, principalmente na época das secas. Também são comuns as expedições de caça e pesca em que passam vários dias em acampamentos na floresta. Chamam esse movimento de capuec, caminhar, e apreciam muito o tempo em que ficam na mata.